O origami é a arte japonesa de dobrar papel, de transformar um simples papel plano numa figura tridimensional, que pode ser um brinquedo, um enfeite ou uma obra de arte. Origami também é aquele aviãozinho de papel, barquinho ou chapéu, que todo mundo um dia brincou quando criança – esses exemplos de origami popular parecem muito distantes das sofisticadas formas que representam com perfeição uma flor, ou um animal, mas são variações de uma mesma arte.
A arte da dobradura surgiu logo depois do papel, uma invenção dos chineses. No Japão, essa história começou por volta do século VI d.c., quando a técnica de confecção de papel foi levada ao país, secretamente, por monges budistas, sendo rapidamente integrada à cultura japonesa.
No início, como era muito caro e raro, o papel era usado na confecção de adereços de muitos rituais diários da vida japonesa e da religião shintoísta. A palavra origami traz em sua grafia essa origem cerimonial, pois é formado pela composição das palavras ‘‘ori’’, que significa dobrar, e ‘‘kami’’, papel e também Deus (a diferença de sentido se faz pela forma de escrever).
Os designs associados às cerimônias shintoístas permaneceram inalterados por séculos e eram transmitidos pela tradição oral, de uma geração para outra. Diferente dos dias de hoje, nessa época os papéis eram frequentemente cortados, quando necessários para criar os modelos desejados. Nesse início, período Heian (794-1185), os samurais trocavam um presente de boa sorte com uma forma conhecida como ‘‘noshi’’, um papel dobrado contendo uma tira de carne seca. Os nobres japoneses celebravam os casamentos embrulhando garrafas de saquê em papel dobrado em forma de borboleta, que representavam os noivos.
No período Muromachi (1338-1573), o papel já não era tão caro e a arte de dobrar papel passou a ser acessível para um número maior de pessoas. Contudo, muito do conhecemos hoje do origami é originário do período Edo (1603-1867), pois foi nessa época que surgiu a primeira instrução escrita de um origami: Senbazuru Orikata (Como dobrar 1000 garças), em 1797. Em 1845, foi publicado o primeiro livro reunindo uma ampla coleção de figuras tradicionais do Japão, o Kan No Mado (Window on Midwinter). A palavra origami apareceu pela primeira vez em 1880, antes a arte de dobrar papel era conhecida como orikata (exercício de dobradura).
Ocidente Paralelamente, a técnica de dobradura de papel também desenvolveu-se no Ocidente, especialmente na Espanha. No século 8 d.c., os mouros invadiram a Espanha e introduziram o papel, a ciência matemática (álgebra, astronomia e os números árabes) e a técnica de dobrar papel. Como a religião muçulmana não permitia que se fizessem representações humanas e da natureza, os mouros desenvolveram as figuras geométricas, utilizando-se de seu conhecimento da matemática e da astronomia.
Os mouros foram expulsos em 1492 pela Inquisição, mas as artes e ciências desse povo já haviam sido incorporadas à cultura local e os espanhóis desenvolveram uma técnica de dobradura de papel que ficou conhecida como papiroflexia, uma arte ainda hoje muito popular na Espanha e na Argentina.
Séculos mais tarde, o origami foi redescoberto na Espanha pelo filósofo e poeta Miguel Unamuno (1864-1936) que, em 1902, escreveu um ensaio humorístico, ‘‘Amor y pedagogia’’, que incluiu um apêndice sobre a dobradura de papel. Através de seus seguidores, a arte do origami chegou à América do Sul. De Buenos Aires, na Argentina, surgiu Ismael Adolfo Cerceda, um dos pioneiros do origami moderno.
O desenvolvimento do comércio global contribuiu para revelar a estética japonesa para o resto do mundo e, durante os séculos 18 e 19, o origami ganhou popularidade. A arte do origami do Ocidente e do Oriente foi reunida na primeira metade do século numa conferência realizada em Paris, que recebeu pioneiros como Ligia Montoya e Ismael Adolfo Cerceda, do oeste, e Isao Honda e
Akira Yoshizawa, do leste. Uma segunda conferência foi realizada na Argentina e a terceira, em Nova York. Neste século, o origami tornou-se uma atividade de recreação, brincadeira de criança, expressão artística, instrumento de pedagogia e de aplicação terapêutica.
Mestre O origami moderno é creditado por muitos ao mestre japonês Akira Yoshizawa, nascido em 1911 e criador de dezenas de milhares de modelos. Na década de 30, junto com norte-americano Sam Randlett Yoshizawa desenvolveu um sistema de esquema que simplificou as instruções escritas para confecção de um origami. O sistema foi adotado mundialmente e abriu caminho para a disseminação do origami.
Yoshizawa tem uma história de vida dedicada ao origami, estabelecendo uma forma de arte criativa. Seu interesse pela arte da dobradura de papel vem desde a infância, quando começou a estudar e a criar figuras. Ao longo dos seus 89 anos, Yoshizawa criou milhares de modelos diferentes, onde deu ênfase à sensibilidade da forma e à perfeição do design. Sua criação é tão vasta que, dizem, se o mestre parasse de criar para se dedicar à publicação de um livro por ano com suas obras, levaria 2000 anos para publicar todo o seu trabalho.
Entre os modelos mais tradicionais de origami no Japão estão a tartaruga, que representa a longevidade, e o tsuru (representação do grou), que significa boa sorte, felicidade e saúde. Ainda hoje no Japão é muito comum pessoas fazerem
promessas de confeccionar 1.000 tsurus, caso alcance a meta desejada, pois diz a lenda que quem confeccionar as aves com o pensamento voltado para o seu objetivo terá sucesso.
No Brasil, não há um estudo formal sobre quando o origami foi introduzido no país, explica Mari Kanegae, professora de origami da Aliança Cultural Brasil-Japão, co-autora dos livros ‘‘Brincando com Papel’’, ‘‘Origami, Arte e Técnica da Dobradubra de Papel’’ e organizadora do livro ‘‘A Arte dos Mestres de
Origami’’. Segundo ela, pode ter havido alguma influência da Argentina, mas os imigrantes japonesas também trouxeram na bagagem livros e a tradição do origami. ‘‘Não se sabe de onde chegou primeiro, mas os imigrantes japoneses trouxeram junto as figuras tradicionais do origami, como o tsuru, e alguns livros’’ disse Mari, que também é coordenadora do Grupo de Estudos de
Origami de São Paulo (GEO).

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