Do susto ao saber o resultado do exame ao amadurecimento forçado trazido pela maternidade, a gravidez na adolescência interrompe sonhos e faz fincar os pés no chão
A história tem quase sempre o mesmo roteiro. O clima de paixão é intenso. Tudo à volta torna-se insignificante na ausência do amado. Estar junto é prioridade, afinal, o amor tem aquela urgência típica dos fervores adolescentes. Nada parece ser capaz de abalar o ritmo desenfreado do namoro, até que seja preciso abrir aquele envelope. De repente, a vida fica suspensa. Sonhos, planos e projetos estão irremediavelmente condicionados a oito assustadoras letrinhas: ‘‘positivo’’. Uma sentença de amadurecimento precoce para aquelas cujo futuro era, até então, uma deliciosa incógnita.
A estudante Jaqueline Girardi Custódio, 17 anos, viveu o drama de se descobrir grávida aos 15 anos e de confirmar uma espécie de sina na família. ‘‘Minha irmã ficou grávida aos 19 anos. Meu irmão casou aos 20 porque engravidou a namorada de 14. Meus pais confiavam muito em mim, achavam que comigo ia ser diferente’’, lembra ela, que namorava há um ano e meio quando veio a notícia de que a pequena Amanda, hoje com 10 meses, estava a caminho. ‘‘Foi um acidente, achava que comigo isso nunca ia acontecer. Com 14 anos, tive um problema de cisto no ovário. Por isso, achei que seria mais difícil engravidar e não usava nenhum método’’.
Quando fez o exame, ela deixou para o namorado, na época com 18 anos, a incumbência de lhe informar o resultado. ‘‘Aquilo para mim foi o fim. Minha cabeça virou um oito. Pensava muito nos meus pais, no que eles iam pensar de mim, achei que tivesse destruído a vida deles. Tinha vergonha de olhar para eles, de me olhar no espelho, fiquei com nojo de mim’’, relata. Na escola, tudo contribuía para que Jaqueline se sentisse ainda pior. ‘‘Meus professores me humilhavam muito. Um deles disse que não admitia aluna grávida na sala de aula. Outro caçoava, dizendo: ‘‘Nossa, gente, ela não conhece camisinha, vamos mostrar para ela’’.
Apesar da pressão, ela só parou de estudar aos 7 meses de gravidez. ‘‘Pedi licença-maternidade, estudava e fazia provas em casa. Os amigos me ajudaram e não perdi o ano escolar’’, conta. Entre os parentes, Jaqueline virou tema de debate. ‘‘Eles diziam: que bom que vai ser uma menina, assim vocês vão poder brincar de boneca juntas. Foi a maior barra. Nunca achei que fosse passar tanta humilhação. Usava roupas para esconder a gravidez. Pensei muito em aborto. Mas nunca tentei nada. Meu pai sempre me dizia que eu tinha que amar a vida que eu carregava. Meu namorado falava que terminaria comigo se eu fizesse isso, que não dava mais para voltar atrás. Depois, fui me adaptando’’.
Aos cinco meses de gestação, ele se casaram e passaram a morar nos fundos da casa dos pais dela. Mesmo assumindo as responsabilidades de mãe e não abandonando as de adolescente – ela cursa o terceiro colegial à noite – Jaqueline mantêm aquele jeitinho de garota. ‘‘Até hoje, as pessoas perguntam na rua se ela é minha irmã. Quando respondo que é minha filha, tenho que ouvir: ‘‘ai, que dó’’.
Mudanças Mas nem sempre é possível conciliar os deveres de mãe e de estudante. Quando ficou grávida de Luiz, hoje com três meses, Maristela Bueno Camargo Resende, 17 anos, continuou os estudos até os sete meses de gestação. Voltou à escola este ano, depois de perder o bimestre, ‘‘mas estou mais faltando do que indo’’, admite. Afinal, como acordar de manhã e se concentrar nas aulas depois de uma noite inteira de vigília? Luiz não dorme antes das quatro da madrugada e exige atenção.
Maristela, entretanto, não reclama. Morando na casa dos sogros, sua única função é cuidar do bebê. ‘‘Todo o meu tempo é para ele’’, diz ela, que sempre gostou de crianças e está adorando observar as descobertas do pimpolho. Mãe coruja, assumiu as funções maternas sem pestanejar, se encarregando do banho do filho no terceiro dia de vida dele. ‘‘Já que teria que ser responsável por ele e ninguém faria por mim, desde o começo quis que fosse do meu jeito’’, conta.
Estar presente nos primeiros anos de vida do filho agora é prioridade para Maristela, que se casou no segundo mês de gestação. ‘‘Se não der para estudar este ano, vou fazer supletivo ano que vem’’, planeja. Outro projeto é voltar a trabalhar como modelo, atividade que exercia antes da gravidez. ‘‘Cuidei para não ter estrias nem celulite porque sabia que queria retomar a carreira’’, diz. Mas se as mudanças no corpo podem ser revertidas, o mesmo não acontece com as de ordem psicológica. ‘‘Antes, eu não me preocupava, queria curtir primeiro e só depois pensar. Hoje enxergo o mundo de outra maneira’’, reconhece.
Recompensa A transformação da menina sonhadora em mulher com os pés no chão é uma constatação depois de poucos minutos de conversa com a estudante universitária Vívian Parthey, 21 anos, mãe aos 18. Quando a filha Vitória, hoje com 3 anos, era recém-nascida, ela foi uma das entrevistadas da edição especial do Dia das Mães da Folha da Sexta, em 1998. Já naquela época, Vívian mostrava uma visão clara de suas responsabilidades e das mudanças que teria que enfrentar.
Os planos de fazer uma faculdade se concretizaram. Hoje, ela cursa o 2º ano de Relações Públicas na Universidade Estadual de Londrina (UEL), no período da noite. Mas, mesmo com o apoio das avós – ela mora com a mãe e não se casou – as coisas não foram fáceis, principalmente durante o cursinho. ‘‘Muitas vezes, eu estudava com ela em um braço e com os livros no outro’’, lembra.
Como Vitória estuda à tarde, as duas só têm as manhãs para ficarem juntas, coisa que Vívian não abre mão. ‘‘No próximo ano terei que fazer estágio, mas quero que seja no período da tarde. Acho muito importante estar com ela nos primeiros anos de vida. Quero participar dessa fase, passar os meus princípios’’, salienta.
Ter que se desdobrar por causa das atividades universitárias e dos deveres de mãe – que incluem correr atrás da filha hiperativa o tempo inteiro – é uma realidade que Vívian encara serenamente. A recompensa, segundo ela, é gratificante. ‘‘Ganhei uma companheira e me sinto muito feliz. A cada dia eu aprendo uma coisa nova com ela’’.

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