Ao contrário do que muita gente imagina, amizade entre homens e mulheres é perfeitamente possível e muito saudável. Por terem comportamentos e visões de mundos diferentes, eles mantêm uma relação repleta de trocas e altamente gratificante. Mas, tanta proximidade, cumplicidade e companheirismo podem acabar embaralhando os sentimentos. Ainda mais hoje em dia, quando já não existem regras tão claras sobre os limites nos relacionamentos. ‘‘É uma época de mudança de muitos valores’’, observa a psicóloga Fátima Conte.
Segundo ela, os adolescentes estão confusos sobre os sentimentos que envolvem amizade e atração. ‘‘Eles não estão sabendo identificar quem gosta deles, quem é só amigo ou só quer ficar e curtir. Acabam se envolvendo em um relacionamento que era para ser passageiro, mas arriscam para ver se conquistam e acabam se frustrando’’, explica Fátima, enumerando os fatores que tornam complicado esse aprendizado das emoções: a sensualização precoce da criança, estimulada pelos meios de comunicação de massa, a quebra de regras e tabus que vem acontecendo em um curto espaço de tempo e a atual flexibilização de valores na sociedade.
Para Fátima, o papel dos pais e educadores é fundamental nessa história. ‘‘Quando meninos e meninas são educados de forma a saber identificar os sentimentos, saberão também responder corretamente a eles’’, diz ela, que está montando um curso teórico prático para adolescentes sobre o assunto, intitulado ‘‘Oito lições sobre ser amigo, ficar e namorar’’, marcado para o final de agosto. Em entrevista à Folha da Sexta, na página 14, Fátima fala sobre as peculiaridades da amizade entre garotos e garotas.
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Dizem que os amigos de verdade conhecem tudo sobre a vida do outro. Pois com Katherine Gatti Berger, 23 anos, e Gustavo Carneiro, 14 anos, a coisa é literal. Como as famílias de ambos eram vizinhas e bem próximas, ela praticamente o viu nascer. Chegou até a trocar fraldas dele. Mais crescidinho, Gustavo sempre dava um jeito de se infiltrar nas brincadeiras da sua irmã mais velha com Katherine. Até hoje, não perde o costume. ‘‘Estou sempre na cola delas’’, confessa. Apesar da diferença de idade, os dois garantem que a relação é gratificante. ‘‘Os mundos são diferentes, não falamos sobre tudo, mas a conversa é de igual para igual’’, diz Katherine. Gustavo acaba tirando proveito da experiência da amiga em situações estratégicas. ‘‘Acho que se eu começar a namorar com alguma menina que não valha a pena, ela vai falar’’, acredita. ‘‘Falo mesmo’’, responde, enfática, Katherine. Os dois costumam se encontrar todos os finais de semana, quando colocam os assuntos em dia. A sinceridade e a confiança, são, para eles, o melhor dessa amizade. ‘‘Sei que se precisar vou poder contar com ela em qualquer situação’’, afirma Gustavo.
‘‘Tem coisas que eu não conto para meus amigos. Eles zoam, as meninas não.’’
(Gustavo Carneiro, 14 anos)
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Sabe aqueles sintomas de convívio intenso, como adivinhar o que o outro está pensando e falar a mesma coisa ao mesmo tempo? É o que sempre rola entre Marina Esteves Beloni e Roberto Murawski Rabello Jr, ambos de 19 anos, amigos há quatro. ‘‘Temos afinidades em quase tudo’’, conta ela. Confidentes, conversam por telefone ou pela Internet praticamente todos os dias. Nos finais de semana, o programa inclui os outros amigos da turma, mas eles não se desgrudam. ‘‘Nossa amizade é muito descontraída, damos muita risada juntos’’, diz Roberto. No bate-papo, surgem os mais diversos assuntos, mas quando pinta interesse por outra pessoa, a coisa não é tão aberta assim. ‘‘Preferimos não falar para não magoar o outro. Eu sinto bastante ciúme’’, revela Marina. Desde que ficaram amigos, eles não namoram ninguém. ‘‘A nossa amizade é até um motivo para não ter rolado nada sério com outras pessoas’’, entrega Roberto. Com tanto grude, é claro que não faltam suspeitas alheias sobre um ‘‘algo mais’’ entre os dois. ‘‘É difícil as pessoas entenderem que entre um menino e uma menina possa haver só amizade’’, retruca Marina. Mas será que a possibilidade nunca passou pela cabeça dos dois? ‘‘Até passou, mas depois vimos que não ia dar certo’’, justifica ela. Para Roberto, não vale a pena correr o risco de perder a amiga. ‘‘A partir do momento que se passa para uma coisa afetiva, perde-se muito da sinceridade’’. O que, para eles, é o bem mais precioso da relação. ‘‘Não é fácil encontrar uma pessoa verdadeira, que fala as coisas na cara, não embroma e te entende’’, resume Marina.
‘‘Amizade com menino é mais sincera. Não tem inveja, nem competição’’.
(Marina Esteves Beloni, 19 anos).
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As primeiras lembranças que Emanuel Catori, 18 anos, tem da amiga Carolina Peixoto, 20 anos, não são lá muito agradáveis. ‘‘Eu batia nele, dava porrada mesmo’’, conta ela, explicando que essa era a sua reação quando eram crianças e ele não lhe dava a atenção desejada. ‘‘Tenho ciúmes dele desde pequena’’. Ao que tudo indica, as ‘‘surras’’ infantis funcionaram. ‘‘Se estiver em algum lugar com uma menina que não gosta que eu converse com a Carol, largo a menina para ficar com a Carol’’, garante Emanuel. Com total liberdade para entrar, sair e dormir na casa do outro – afinal de contas, foram vizinhos a vida inteira – eles aproveitam a intimidade para trocar figurinhas sobre o modo de pensar e agir do sexo oposto, esclarecendo dúvidas e conflitos comuns nos relacionamentos amorosos de cada um. Ciúmes, eles garantem, surgem exclusivamente pelo medo de perder a amizade do outro. E por nada mais. A possibilidade de um outro tipo de envolvimento nem é cogitada. ‘‘Não dá liga’’, justifica Carol, que considera Emanuel seu terceiro irmão. ‘‘Ele é todo preocupado comigo. Quando me encontra com uma garota que acha não ser boa companhia para mim, diz na cara dela para eu cortar a amizade’’.
‘‘Nas amizades entre meninas rola muita comparação. Uma quer ser melhor que a outra’’. (Carolina Peixoto, 20 anos).

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