Programas infantis com verdadeiro cunho educativo são uma raridade na televisão brasileira. Mais difícil é imaginar um deles no rádio, cujo apelo comercial é ainda maior. Em Londrina, felizmente, a realidade é outra. Há três anos, um projeto do Sesc-Aeroporto conduzido por um grupo de pré-adolescentes, sintoniza as crianças em temas atuais e de interesse dos pequeninos. Tudo em uma linguagem especial, como num delicioso bate-papo. Puxando um tema aqui, emendando outro ali, eles vão desenrolando o ''Carretel de Invenções'', programa que vai ao ar na rádio Alvorada (AM 970), no 1º e 3º domingo do mês, das 10h às 10h30.
A pedagoga Renata Moratto, uma das coordenadoras do projeto, explica que o programa original foi criado pela Associação Movimento de Educação Paulo Engleti (AMEP), de Belo Horizonte, e é distribuído para 200 emissoras em todo o País. ''Mas nós, em Londrina, somos os únicos a ter produção local e ações dentro do projeto'', diz. Os quadros produzidos por aqui incluem dicas de brincadeiras populares, curiosidades, experiências, trava-língua, adivinhações, poesias, cantigas de roda, dicas literárias infantis e até culinária.
Brinquedos antigos ''Procuramos dar receitas com ingredientes que todas as crianças tenham acesso e que não precisem de eletrodomésticos, porque nem todas têm um deles em casa'', faz questão de frisar o estudante Fáblio Vanso, um dos integrantes do grupo e especialista em resgatar brinquedos antigos. Na hora de ensiná-los, no ar, o uso de materiais reciclados é sempre reforçado pela turma, composta por 10 pré-adolescentes, com idades entre 13 e 15 anos, a maioria matriculada em escolas da rede estadual.
Em quatro encontros mensais, que duram a tarde toda, eles discutem os temas, criam a própria sonoplastia. Também se aventuram nas ruas fazendo enquetes e entrevistas com profissionais. Os assuntos abordados são diversificados: volta às aulas, amizade e paquera, medo e violência infantis, doação de orgãos, mistérios da lua, planeta Terra, corrupção e adoção foram alguns dos programas já veiculados. Tudo bem temperado com humor, criatividade e um jeitinho especial de encarar as coisas. ''Aproveitamos a pauta sobre a guerra para falar de paz'', conta Stefani Bacarin.
''É um trabalho voluntário. A gente aprende a viver em grupo, a respeitar opiniões diferentes'', observa Fernanda Storto. O objetivo é um só: ''Passar educação e cidadania para as crianças que estão ouvindo'', resume Rosana Daher. Por isso, a idéia é que o projeto não fique restrito apenas ao tempo limitado do programa dominical, mas que se prolongue pela semana, com o apoio e o incentivo de educadores. O grupo criou ótimas alternativas para que isso seja possível.
Instalação lúdica Além de proporcionar o empréstimo das fitas K-7 para auxiliar os estudantes nas tarefas e trabalhos escolares, o projeto oferece ainda a oportunidade de as escolas terem nos seus pátios, por uma semana, a ''Torre Musical do Carretel'', uma instalação lúdica onde as crianças podem ouvir os programas. Renata conta que, em Londrina, cerca de 30 escolas públicas, particulares e estaduais, de educação infantil à 5 série têm utilizado as fitas. O projeto está aberto também às turmas que queiram produzir o próprio programa. Nesse caso, o grupo dá assessoria em todas as etapas, da pauta à locução.
Outro serviço oferecido pela equipe do Carretel é a ''Serenata Radiofônica''. ''Fazemos despedida de professores e criamos homenagens de acordo com o tema sugerido pela escola'', explica Fáblio, revelando que o maior sonho do grupo é transformar o projeto em programa de TV, cujo conteúdo atual eles criticam veementemente. ''Os desenhos de luta estão estragando os programas infantis'', observa Thalita Âlcantara. Para Fáblio, ''A TV dá tudo mastigadinho e a criança não imagina a história e o personagem''. Por isso, mesmo que o sonho vire realidade, abandonar a rádio não está nos planos dessa garotada. n

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