Mario CesarMarco Cesar Melo, 18 anos, apresentador de TV‘‘Pretendo crescer em todos os sentidos. Na área profissional, pensei fazer vestibular para Comércio Exterior e Artes Cênicas, mas acabei optando por Relações Públicas. Acho importante para a felicidade pessoal estar com quem se gosta e ter sucesso profissional. Sou do tipo de pessoa que faz projetos para o futuro’’.Apostando no coração
Encontrar alguém, amar e ser amado é sinônimo de felicidade pessoal para a maior parte dos jovens
Francelino França
Paulo WolfgangThaís Machado, 14 anos, estudante em Andirá (em primeiro plano).‘‘Não tenho namorado, mas acho importante para a felicidade estar com quem se ama. Penso primeiro em me formar para depois pensar em casamento, lá pelos 27 anos. Por enquanto, penso em ser médica pediatra. Daqui a 10 anos, acho que não vou estar na minha cidade, Andirá, mas quero estar com minhas amigas’’.Com que sonha o jovem brasileiro? O que ele prioriza para o futuro? O que será que realmente se passa na cabeça e nos corações dos adolescentes neste final dos anos 90? O que será felicidade para eles? Uma pesquisa comportamental realizada pela filósofa e pesquisadora Tânia Zagury responde a esses questionamentos e revela as principais preocupações do adolescente brasileiro em relação ao futuro.
Vários aspectos da vida foram abordados nos dois anos de duração da pesquisa: escola, vida profissional, família, sexo, lazer, Aids, drogas, política e religião. Como no Brasil há carência de dados estatísticos em todas as áreas, notadamente a comportamental, o trabalho se tornou referência para estudiosos da área. O resultado desmontou vários medos e mitos sobre o adolescente brasileiro.
Paulo WolfgangErasto Higashi Jardim, 20 anos estudante de Economia; Ingrid Manoela Matos Martinez, 19 anos, estudante de cursinho pré-vestibularErasto: ‘‘Para a realização pessoal acho importante estar com a pessoa que se gosta. Não sou de fazer muitos planos para o futuro, não dá para programar. No campo profissional, penso em atuar na área de consultoria’’.
Ingrid: ‘‘Também não sou de me programar para o futuro, mas a decisão de fazer Enfermagem foi natural. Penso principalmente na responsabilidade que a profissão exige’’.Na contagem regressiva para o início do próximo milênio, o jovem pensa no futuro, e muito. E inclui entre os itens para sua felicidade pessoal, primeiramente, ficar com a pessoa amada. O joven continua colocando o amor como base para a felicidade. Em seguida, ele prioriza construir ou pertencer a uma família que se entenda bem, e assim, poder viver harmoniosamente. Também aparece como destaque da pesquisa possuir um trabalho que remunere bem. Neste ponto, ele é bem pragmático, pois a realização financeira engole a realização profissional (14,1% contra 0,4%). Só assim ele pode se considerar realizado.
Paulo WolfgangCristiana Zanin, 21 anos, estudante de Odontologia na UEL‘‘Ainda estou no primeiro ano da faculdade de odontologia e sempre pensei em fazer isso. Sou do tipo de pessoa que batalha pelo que quer, por isso tentei por três anos o vestibular, até passar. Profisionalmente, eu acredito que não existe mercado saturado, e sim, profissional competente. Para realização pessoal, não adianta estar realizada só profissionalmente, quando não está bem amorosamente ou no relacionamento familiar’’.No capítulo ‘‘O adolescente e a felicidade’’, Tânia Zagury questionou, entre outras coisas, o casamento. Será que ele está incluído nos planos dos jovens de hoje? O resultado foi conclusivo, sendo que 71,7% dos entrevistados incluem o casamento nos planos futuros. Mas isso ocorre dentro de uma visão mais flexível de relacionamento.
Casamento ‘‘Até que a morte nos separe’’ é uma expressão excluída do vocabulário dos jovens. Mas o estudo demonstrou que à medida que o nível socioeconômico baixa, vai diminuindo a adesão à instituição. Ainda relacionado ao casamento, quase a metade dos garotos entrevistados não acha relevante se a mulher escolhida para um relacionamento é virgem. A virgindade é um valor em queda nesta geração.
Paulo WolfgangCleber Yamashita, 20 anos, trabalhador no Japão‘‘Fui para o Japão com o objetivo de ganhar dinheiro, comprar apartamento, carro e guardar uma grana. Ainda não atingi esse objetivo. Por isso, vou voltar e ficar mais cinco anos. Espero que no futuro eu esteja com outra cabeça, pois a vida lá não é fácil. Por enquanto, não tenho esperança em montar alguma coisa que dê certo no Brasil. A concorrência aqui é muito grande’’.O estudo revela um jovem brasileiro equilibrado em relação à parte afetiva. Para viver um grande amor, o mais importante é a confiança mútua, seguido de fidelidade e simplesmente amor. Este resultado, de acordo com as conclusões de Zagury, é sinal de maturidade. Por outro lado, o jovem brasileiro mostrou o desejo de preservar a relação e desvendou um traço bem nítido de romantismo em sua maneira de pensar, quando acredita que para um grande amor dar certo é importante ‘‘simplesmente amor’’ (24,2%).
‘‘Acho muito importante, saudável e positivo que os jovens continuem a sonhar, a desejar encontrar a sua cara-metade, alguém com quem dividir todas as coisas, a vida, os sonhos, os desejos, os pensamentos’’, destaca Tânia Zagury, que apresentou os resultados de sua extensa pesquisa no livro ‘‘O adolescente por ele mesmo’’ (Editora Record).
A linha que separa amor e paixão revelou-se bastante nítida, de acordo com o ponto de vista dos entrevistados. ‘‘Eles demonstraram equilíbrio e sensibilidade ao diferenciar amor e paixão, pois 55,9% mostraram compreender que a combustão fantástica dos primeiros momentos de uma relação não dura para sempre, colocando o amor num plano mais complexo e amplo’’, reitera a pesquisadora. Para ela, as uniões da nova geração possuem grande possibilidade de se concretizar de forma mais duradoura, pois não se revestem de demasiadas ilusões.
A questão relacionada à felicidade pessoal aponta que 55,5% dos jovens continuam inserindo o amor como base para a felicidade. Ficar com quem se ama é a meta de mais da metade dos entrevistados. Neste item, o bem-estar do homem é fator fundamental. Seguindo esse raciocínio emocional, quase 30% dos adolescentes ouvidos acreditam que para a felicidade ser completa, a família deve se manter unida.
Outra surpresa revelada na pesquisa: o jovem opta primeiro pela realização financeira e depois pela profissional. Uma boa remuneração é mais importante do que trabalhar no que se gosta. ‘‘Se tiverem que escolher entre a profissão dos sonhos e uma outra que ofereça maiores chances de sucesso financeiro, muitos optariam pelo segundo’’, diz Tânia Zagury.
Profissão A psicóloga Celi Lovato, que atua como orientadora educacional no Colégio Maxi, de Londrina, afirma que, dentro dos planos e expectativas dos jovens que a procuram, aparece em primeiro lugar o investimento na área profissional. O oposto do resultado da pesquisa. Celi Lovato credita essa diferença, talvez, ao ambiente escolar em que a escolha profissional é premente. ‘‘Mas eu os vejo muitas vezes confusos em escolher entre a profissão que mais gostam e aquela que remunere melhor’’, constata.
O futuro causa muita angústia para quem está passando por momentos decisivos na vida. Principalmente quando a escolha profissional está em jogo. De acordo com Lovato, até a globalização da economia causa temor. ‘‘Como isso vai nos afetar?’’, questionam frequentemente os adolescentes.
‘‘Percebo que a maioria dos jovens que atendo pensa em constituir família, casar, ter filhos. A afetividade para eles é muito importante. Por outro lado, o ‘‘ficar’’ angustia também, porque ninguém acaba sendo de ninguém. Nessa história, alguém sempre sai machucado’’, pondera Celi Lovato.
O treinador de tênis londrinense José Guilherme Danelon trabalha com quase 100 atletas adolescentes. Alguns nomes como Miguel Rosa, Ana Paula Moris, Carlos Albertoti e Pedro Garcia Lopes estão estudando nos Estados Unidos ou já se formaram, graças ao esporte. José Guilherme observa, no entanto, que no esporte essa opção pela profissionalização varia, porque muitos entram para o tênis em função dos benefícios que o esporte traz para a saúde.
De acordo com sua experiência, é por volta dos 15 anos, quando o atleta começa a se destacar, que ele decide fazer do esporte um meio de vida. ‘‘Daí muitos percebem que o esporte abre as portas. Mas antes, o jovem precisa se destacar pelo talento, depois ele faz planos para o futuro’’, considera o treinador.

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