O relato da paulistana Valéria Piassa Polizzi, 26 anos, infectada pela Aids aos 16, é um soco no estômago de quem ainda acha que a doença é restrita a gays, prostitutas e usuários de drogas - ela pegou o vírus HIV na primeira e única transa, sem camisinha, com o primeiro namorado. É também um chute no preconceito e uma homenagem à vida. Como num bate-papo, sem lamentações ou autopiedade, ela conta o drama de uma adolescente de classe média alta que, ao começar a fazer planos para o futuro, deu de cara com a possibilidade da morte.
Ao ler ‘‘Depois daquela viagem - diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com Aids’’, que foi lançado ontem pela Editora Ática, em São Paulo, fica a sensação de que a história poderia ter se passado com um de seus melhores amigos ou com você mesmo. Entre as bagunças da turma no terceiro colegial e as dúvidas sobre que curso prestar para o vestibular, Valéria ambienta os primeiros capítulos de sua autobiografia.
Depois, ela lembra o seu difícil e emocionante aprendizado, desde o tempo em que passou estudando nos Estados Unidos até as internações por causa das doenças oportunistas. Mas até mesmo nos momentos de maior sofrimento, ela não deixa de lado o tom de humor com o qual conduz toda a narrativa. E nem aceita para si o papel de vítima. Para ela, a desinformação é que foi a vilã da história.
‘‘Depois daquela viagem’’ tem essa função: informar, alertar, trazer para o dia-a-dia dos jovens uma doença sobre a qual se ouve falar através de números e estatísticas, mas que está mais perto do que se pode imaginar. Também tem o objetivo de provar que é possível viver com Aids, algumas vezes,‘‘ até melhor’’ do que aqueles não têm a doença. Talvez porque se descubra, como fez Valéria, o real valor da vida. A seguir, os principais trechos da entrevista que ela concedeu à Folha da Sexta:
Folha da Sexta - Como você está encarando a repercussão do seu livro?
Valéria - Estou surpresa porque não imaginei que ia ser uma coisa assim tão grande. Acabei de ler os e-mails que o pessoal tá mandando aqui para a Editora Ática, todos me dando os parabéns. Até agora só tive bons retornos, quer dizer, maravilhosos.
Folha da Sexta - Antes de publicar o livro, você tinha alguma idéia de como ia ser a reação das pessoas? Ficou com medo?
Valéria - Tive um pouco de receio de as pessoas falarem: ai coitada, ela está com Aids.
Folha da Sexta - Você notou alguma mudança no comportamento das pessoas ao seu redor, que não sabiam que você era portadora do vírus?
Valéria - Mudou nesse sentido: todos vêm me cumprimentar, do porteiro do meu prédio até a moça que trabalha lá em casa. Acho que todo mundo estava meio de saco cheio desse enfoque negativo que era dado à doença, e já esperavam alguma coisa nesse sentido.
Folha da Sexta - E a sua família, qual foi a posição dela em relação à idéia do livro?
Valéria - Eu escrevi durante três anos, então, não foi uma coisa que eu decidi da noite para o dia. Foi uma idéia que foi amadurecendo aos poucos. Quando eu falei que ia publicar, eles ficaram preocupados, com medo do preconceito. Mas sabiam que era uma coisa que eu realmente queria e depois aceitaram numa boa.
Folha da Sexta - Você acha que a atitude do brasileiro em relação à Aids está diferente do que na época em que você foi contaminada?
Valéria - Em relação à prevenção?
Folha da Sexta - Ao preconceito também.
Valéria - A gente tem trilhado caminhos melhores apesar de eu achar que aqui no Brasil estamos um pouco atrasados. As campanhas de televisão mudaram bastante. No começo eram muito associadas à morte e isso não era legal para a gente que tinha Aids, e não ajudavam nem um pouco as pessoas que não tinham como se prevenir. Esse ano, eles acertaram, fizeram uma propaganda bem legal, associada a do primeiro sutiã. Isso ajuda a desmistificar. Mostra que pessoas com Aids são pessoas normais. Acho que aos poucos todos estão vendo que é isso mesmo, que a gente é normal e continua vivendo.
Folha da Sexta - Você diz que aprendeu a viver só o presente sem fazer planos a longo prazo. Com a repercussão do livro, não pintou nenhum projeto?
Valéria - Pintou. A gente está pensando em começar a fazer palestras nas escolas no próximo ano. Inclusive, já recebemos convites de outros Estados, parece que o pessoal tá bastante interessado.
Folha da Sexta - O que significa, na prática, viver o carpe diem?
Valéria - Todo dia, quando acordo, eu penso: bom, se hoje fosse o último dia da minha vida, o que eu ia querer fazer? Aí eu vou lá e faço. Este ano eu queria muito publicar esse livro e as pessoas brincavam: nossa, vai ser difícil, tem gente que ficou esperando dez anos para publicar um livro. E eu dizia: eu vou publicar e vai sair na primeira semana de dezembro.
Folha da Sexta - No livro, você conta que descobriu as maravilhas do sexo seguro. O que significa isso na prática, além do uso da camisinha?
Valéria - Sexo tem que começar com o olhar. A gente tem que dar valor a todas as etapas. Tem os beijos, as carícias, os abraços, os amassos, masturbação a dois, sexo oral de Magipack (aquele plástico fininho). Tem que aproveitar tudo isso. Se for transar com penetração, camisinha com certeza.
Folha da Sexta - Você tem namorado?
Valéria - Não.
Folha da Sexta - Mas está aberta a novos relacionamentos?
Valéria - Depende, se eu me apaixonar, seria conversável. Mas eu tenho problemas com namoros mais duradouros pelo seguinte: a sensação que eu tenho é que meu tempo corre diferente do das outras pessoas. Como eu disse, eu vivo muito intensamente e acaba sendo uma coisa meio discrepante. As pessoas que não tem Aids acham que são eternas, então elas deixam para depois tudo o que têm vontade de fazer. Se eu quiser viajar, por exemplo, pego a minha mala, arrumo amanhã e vou amanhã mesmo. É difícil conciliar essas coisas em um relacionamento. Acho até mais difícil que o sexo.
Serviço:
‘‘Depois daquela viagem - diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com AIDS’’, 280 páginas. Editora Ática. R$ 14,90.

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