Apenas o primeiro passo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de janeiro de 2003
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Ser abordada por um scouter não é um indício de que a carreira de modelo vá deslanchar. Quem avisa é Benê Bastos, presidente da Associação Brasileira de Caça-Talentos (Abracaça), com sede em Minas Gerais. ''A garota costuma ficar toda empolgada com a situação, acha que já vai começar a ganhar dinheiro. Mas, com raras exceções, a coisa não acontece rapidamente. É um processo que pode durar de seis meses a dois anos'', esclarece.
Tudo depende de uma série de fatores. ''Tem que ver se ela vai dar conta de ficar longe da família, se o mercado vai absorver o seu tipo físico, se ela vai ter todos os atributos psicológicos necessários à profissão'', diz Benê. De acordo com ele, é impossível fazer uma avaliação imediata da garota. ''A última palavra não é a do scouter, mas do cliente'', afirma. Como o mercado muda sempre, as agências têm que manter, em seus castings, uma ampla gama de ofertas, o que significa que muitas garotas podem ficar ''na geladeira'' por algum tempo. ''Hoje, não dá para descartar ninguém'', diz.
A exemplo da Associação Brasileira das Agências de Manequins e Modelos (Abamm), a Abracaça foi fundada para regularizar e moralizar o setor. Enquanto a primeira entidade age no eixo Rio-São Paulo, a segunda dá suporte para agências do interior do País. ''Tem muita gente trabalhando clandestinamente'', observa Benê.
A Íps, de Londrina, é filiada à Abracaça como uma das agências de garimpo do sul do País, região reconhecida como celeiro de beldades. ''O Paraná está em terceiro lugar no ranking dos Estados que mais mandam modelos para o mercado'', garante o empresário Aguimário Alves, que trabalha há 20 anos na área e há dois anos conseguiu o certificado de scouter, emitido pelo International Modeling Association, de Nova York.
Para descobrir beldades, Aguimário treina seus assistentes quinzenalmente, passando noções de legislação e normas da profissão de modelo, além de contar com palestras de olheiros de várias partes do mundo. ''Eles passam o perfil, o tipo físico em voga a cada temporada'', explica. Nos colégios e nos shoppings, os scouters nomeados por Aguimário se apresentam como caça-talentos, entregam um cartão de visitas da agência e marcam um horário para a menina ir até lá, de preferência acompanhada da mãe. ''Na agência, a garota passa por uma análise completa: medidas, fotogenia... Só depois é que se pode dizer se ela tem ou não o perfil de modelo'', avisa Aguimário.
Outras meninas chegam até a agência por conta própria, atrás do sonho de uma carreira internacional, inspiradas em histórias como a de Gisele Bundchen. A grande maioria, segundo Aguimário, não tem as medidas e a altura exigidas para o trabalho em passarela, mas vez ou outra surge alguma exceção. Foi o caso de Rossana Niero dos Santos, 15 anos, 1.78m, que resolveu se matricular no curso de modelo para corrigir a postura. ''Andava curvada porque minhas amigas eram mais baixas do que eu. Queria ser como elas'', lembra Rossana, que em breve deve embarcar para Nova York. n


