Quando o assunto é nome, Shakespeare nem sempre tem razão. Para muitas pessoas, a forma como são chamadas define e espelha suas personalidades. Em alguns casos, essa marca pessoal é tão significativa que têm o poder de agregar valor a produtos. É o caso de alguns apresentadores de TV, como Gugu e Xuxa, que transformaram seus apelidos em verdadeiros patrimônios.
Seus registros, entretanto, não se alteraram. O máximo que Xuxa conseguiu na Justiça foi incorporar o apelido ao seu nome (Maria da Graça Xuxa Meneghel). Até a semana passada, a lei proibia a troca do primeiro nome, a não ser em caso de grafia errada ou de ser objeto de ridículo. Mas agora as coisas mudaram.
Arquivo FolhaPara o deputado estadual eleito Antônio Carlos Belinati, chamado de Doia pela família e pelos amigos mais íntimos, a troca do nome só vale a pena quando há uma identidade muito grande com o apelidoO presidente Fernando Henrique Cardoso aprovou, no último dia 18, lei que permite a substituição do prenome por um apelido notório. ‘‘Não existe mais a imutabilidade do nome, mas permanece a necessidade de decisão judicial. A pessoa que desejar substituí-lo deverá provar, através de prova testemunhal ou documental, que o apelido é a forma pela qual é conhecida’’, esclarece o juiz Marco Antônio Massaneiro, da Primeira Vara de Família de Londrina.
A novidade não chegou a animar os donos de alguns apelidos famosos. ‘‘Não trocaria meu nome porque estaria desprezando o carinho dos meus pais ao escolhê-lo’’, diz o apresentador Marcos Antônio Castri, mais conhecido como Marcão Kareca. Para ele, os apelidos são convenientes ao momento. ‘‘Se eu deixar crescer o cabelo, posso virar Marcão Cabeludo’’, brinca, lembrando que só é Marcão Kareca no Paraná. ‘‘Fora do Estado, sou cabelo de ovo, bola de cristal, pouca telha’’, enumera.
O apelido apareceu na época em que Marcos notou que tinha tendência à calvície. Achou que ficaria ridículo calvo, e então, resolveu raspar totalmente os cabelos, hábito que mantém há 15 anos. ‘‘Tirei proveito de uma anomalia, de uma adversidade pessoal, para me beneficiar’’, observa. Para ele, trocar o nome pelo apelido é vantagem somente para aqueles que não dão valor às suas raízes ou têm nomes muito feios.
Cesar AugustoExatamente por ser aceita por todos como Gigi, a professora de inglês Maria Regina não vê necessidade de adotar o apelido legalmenteO deputado estadual eleito Antônio Carlos Belinati (PSB) acredita que a troca do prenome só vale a pena quando há uma identidade muito grande com o apelido. Não é o seu caso. Em casa, na igreja e entre os amigos mais íntimos, ele é chamado de Doia, apelido que ganhou da irmã mais velha durante a infância. ‘‘Mas, em alguns lugares, as pessoas me chamam pelo primeiro nome; em outros, pelo último. Tenho até que pensar onde estou para saber como devo me identificar’’, conta.
Para a professora de inglês Maria Regina Filgueiras dos Reis, a partir do momento que um apelido vira nome, perde o significado. Chamada de Gigi desde criança - por causa do filme estrelado por Audrey Hepburn nos anos 50 - ela adotou o apelido para o resto da vida. ‘‘É doce, carinhoso, gostoso de pronunciar. Tem tudo a ver com a minha personalidade. Regina é mais sério, mais autero. Gigi é sinônimo de mulher moderna, arrojada’’, define.
O apelido foi incorporado de tal forma por ela que muitas pessoas a seu redor não sabem o seu verdadeiro nome. ‘‘Na época em que fui professora da Universidade, as minhas correspondências não chegavam até a mim





porque ninguém sabia quem era a Maria Regina’’, lembra. Exatamente por ser aceita por todos como Gigi, ela não vê necessidade de adotar o apelido legalmente. ‘‘Todo mundo diz que o nome faz a pessoa, mas o inverso também é verdadeiro. É de dentro para fora’’, observa.

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