Ao mestre com amor
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quinta-feira, 04 de setembro de 2003
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Estórias de alunos que se apaixonam por professores são muito comuns. Na maior parte das vezes, o sentimento é mantido como um amor platônico, mas alguns corajosos chegam a se declarar e a enfrentar os preconceitos e os problemas, como é o caso do personagem Fred, vivido pelo ator Pedro Furtado na novela Mulheres Apaixonadas, da Globo. Vistos como modelos, os mestres causam nos adolescentes uma certa magia, muitas vezes confundida com paixão. Em uma época onde os sonhos e as fantasias são grandes nas cabeças dos jovens, conseguir a atenção e o carinho de um professor representa uma grande conquista.
Para a psicóloga e coordenadora do Colégio Universitário de Londrina, Rosa Maria Cardoso, o professor é aquela pessoa que mostra um mundo novo para o aluno, é um adulto que dá a ele atenção e apoio. ''Essa qualidade na relação entre aluno e professor é fundamental para o aprendizado. É importante que o aluno confie no professor e goste dele, mas é preciso separar as coisas'', afirma. O que ocorre com vários jovens é que a admiração acaba sendo confundida com amor. ''Muitas vezes, o adolescente coloca no professor suas necessidades de relacionamento. Alguns não têm um bom convívio com os pais e descobrem no professor o carinho que precisam'', explica.
No caso da novela global, a relação familiar que o personagem Fred tem com os pais não é boa. A mãe controladora e o pai ausente, além do relacionamento distante do casal, fizeram com que o jovem visse na professora Raquel, interpretada pela atriz Helena Ranaldi, a companhia adulta que lhe faltava. A atenção dada pela professora e os interesses em comum fazem aumentar as esperanças do aluno em relação a um possível relacionamento. A psicanalista Sônia Gaziero explica que a adolescência é uma fase de distanciamento dos pais e de auto-afirmação para os jovens. A possibilidade de proteger Raquel do marido violento dá a Fred a sensação de responsabilidade e maturidade.
Convívio A paixão dos alunos por seus professores ainda é tratada como tabu pela maioria das escolas e considerada destinada ao fracasso pelos psicólogos devido à idealização que o jovem faz da figura do mestre. ''Os alunos vêem no professor um ser perfeito, idealizado. Essas relações tendem a fracassar pela diferença entre os dois e porque elas não passam pelo mundo real'', comenta Sônia.
A estudante Nicole Scripes, 16 anos, afirma que o interesse dos alunos pelos professores vem da sensação de perigo e aventura da relação. Já os meninos afirmam que enxergam nas professoras a possibilidade de sair com mulher sem compromissos. ''Não tem essa coisa de paixão, namoro, como acontece com as meninas. A gente só quer sair mesmo'', observa Renan Garcia Guarezi, 17 anos.
Na verdade, os jovens encontram no amor pelos professores uma maneira de fugir da realidade e da dificuldade de encontrar um companheiro em seu círculo de amizades. ''Muitos adolescentes usam esse sentimento como uma fulga da realidade. Ele não precisará procurar um companheiro porque já ama alguém, só que alguém quase impossível'', afirma Rosa. Para ela, a fragilidade desse tipo de sentimento é tanta que, quando o aluno perde o contato com o professor, o amor acaba. ''O sentimento, na maioria das vezes, existe pelo convívio próximo com os professores. Quando esse convívio acaba, o amor acaba também, não é algo duradouro'', completa.
Problemas O professor de Física Marcos*, 27 anos, já namorou uma aluna por dois anos e meio e diz não entender porque os alunos se apaixonam pelos professores. ''Acho que é porque nós passamos bastante tempo com eles'', comenta. Segundo ele, o namoro com a aluna, cinco anos mais nova, não acabou por causa da relação professor e aluno, mas hoje ele evita relacionamentos parecidos. ''Fica complicado para a escola. Nenhum pai colocaria o filho em um colégio onde os professores namoram os alunos'', justifica.
Casos onde a paixão dos alunos acabaram em confusão não são raros. Antônio* é professor há bastante tempo e já chegou a ter problemas com o noivo de uma ex-aluna quando começou a dar aulas em um colégio de freiras. ''A menina veio e me disse que estava apaixonada por mim. Para não ter problemas, comuniquei a direção da escola e tivemos uma conversa, explicando que ela deveria estar confundido as coisas. Dias depois, o noivo dela me procurou querendo saber o que estava acontecendo. Disse que ele deveria falar com ela, e não comigo'', conta.
Mas são várias as estórias bem-sucedidas entre professores e alunos. A estudante Débora Felippe, 17 anos, encontrou o amor na figura do professor de português. Juntos há um ano, o casal passou por problemas quando o namoro foi descoberto. ''Ele foi despedido da escola onde eu estudava, mas hoje trabalha em outro colégio'', conta.
A iniciativa do namoro partiu de Débora, que afirma ter percebido um tratamento diferente por parte do professor. ''Um dia eu estava em casa com uma amiga e resolvi ligar chamando ele para sair'', lembra. Segundo Débora, o namoro vai bem e a família aceitou o romance, uma vez que o namorado não é muito mais velho do que ela. O único problema é o ciúmes que sente das outras alunas do namorado. ''Tem que pegar no pé, ficar de olho''.n
* Nome fictício


