Antes da hora
Apesar da maior difusão de conhecimentos sobre o assunto, cerca de 45% a 60% dos adolescentes brasileiros iniciam a vida sexual sem nenhum método contraceptivo, conforme dados do Ministério da Saúde. A falta de motivação e de um projeto de vida são apontados hoje, por especialistas, entre os principais motivos que levam à gravidez na adolescência.
O tema foi abordado no 60º Curso Nestlé de Atualização em Pediatria, semana passada, em Gramado (RS). Organizado em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, contou com participação de especialistas de todo o País.
''Hoje se chega à adolescência com muito mais informações sobre sexo do que há duas décadas e existe uma grande variedade de métodos contraceptivos. Mesmo assim, a ocorrência de gravidez nesta faixa etária é um problema que atinge todas as classes sociais'', destaca a médica Isabel Freitas, especializada no atendimento a adolescentes.
Segundo ela, o que se constata é que a gravidez acaba sendo utilizada como forma de auto-afirmação, resposta a conflitos, para preencher carências e chamar atenção dos pais para a desestruturação da família, entre outros motivos. ''O planejamento familiar é consequência de um projeto de vida e não apenas fruto de informações'', observa.
Para a médica, um meio importante para tentar diminuir o problema é melhorar a qualidade de assistência ao adolescente, com a criação de serviços especializados para essa faixa etária, envolvendo uma equipe multidisciplinar de profissionais de saúde, com pediatra, psicólogo, enfermeira, assistente social, urologista e ginecologista.
''É necessário entender a situação do adolescente, ajudá-lo a superar suas dificuldades e a vislumbrar possibilidades de executar seus projetos'', acredita a médica. Ela cita o exemplo dos Estados Unidos, que tinha uma das mais altas taxas de mães adolescentes do mundo e a reduziu, nos últimos cinco anos, com um trabalho voltado para a promoção da saúde psicológica e social destas jovens.
''A responsabilidade dos profissionais na saúde reprodutiva dos jovens transcende a prática da contracepção. A educação sexual deve ser entendida como um processo de construção da cidadania, do cuidar-se e do cuidar do outro, respeitando-se a autonomia individual'', explica a médica. Ela ressalta que não adianta proibir o namoro. É necessário que o adolescente reconheça sua responsabilidade.
Riscos Além das dificuldades emocionais, a idade materna menor que 16 anos é considerada de risco obstétrico, o que é agravado pela idade ginecológica inferior a dois anos. Desta forma, a adolescente grávida tem maior propensão à doença hipertensiva específica de gestação, eclampsia, depressão, anemia, desnutrição, hemorragia e mortalidade materna, entre outros problemas.
Os filhos de adolescentes, por sua vez, apresentam problemas como maior incidência de baixo peso, prematuridade e mortalidade perinatal. Costumam ser desmamados mais cedo, são menos imunizados, têm mais risco de desnutrição, sofrem mais violência física e psicológica, podem apresentar déficit cognitivo, problemas escolares e propensão para também se tornarem pais muito cedo.
O encaminhamento precoce da adolescente para o serviço de pré-natal pode ajudar a minimizar riscos biológicos e psicossociais. Ela precisa de uma orientação especial com relação à imunização (para evitar doenças que possam prejudicar o bebê), alimentação (pois suas necessidades calóricas costumam ser maiores do que de mulheres adultas), cuidados com o bebê e com o preparo do peito para amamentação, entre outros.
Mas esse encaminhamento nem sempre ocorre, porque o diagnóstico da gravidez nesta idade também é um desafio constante ao profissional de saúde. Os sintomas podem ser vagos, apenas 68% das meninas relatam atraso menstrual e grande parte reluta em revelar a atividade sexual.
Entre os métodos anticoncepcionais, Isabel afirma que as pílulas, nesta idade, constituem-se na forma mais eficaz e, atualmente, não comprometem o crescimento da adolescente. Além disso, é necessário o uso de preservativo masculino ou feminino para evitar as doenças sexualmente transmissíveis. n





