Levar a obsessão pelo corpo magro até as últimas consequências não é um comportamento exclusivo do mundo moderno. Por mais que atualmente exista uma reprovação da gordura, parar de comer até morrer é um fenômeno registrado desde o Egito Antigo, que aparece na Antiguidade Clássica, se torna uma epidemia na Idade Média e ressurge urbanizado no século 19, até ser compreendido, hoje, como doença psiquiátrica.

''Porém, estímulos sociais e valorização da magreza exercem um efeito em adolescentes, contribuindo para aumentar os casos na última década'', afirma a psicanalista Cybelle Weinberg, do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (Ambulin) do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenadora da Clínica de Estudos e Pesquisa em Psicanálise da Anorexia e Bulimia Nervosa (Ceppan). Autora de uma pesquisa sobre a história da anorexia, ela lançou, em parceria com o psiquiatra Táki Córdas, coordenador-geral do Ambulin, o livro ''Do Altar às Passarelas - Da anorexia santa à anorexia nervosa'' (Editora Annablume).

Na última década, a anorexia passou a despertar atenção da sociedade, associada sempre aos padrões de beleza da moda. É uma doença nova?
Cybelle Weinberg - Não. Hoje, as adolescentes anoréxicas perseguem um ideal estético. Na Idade Média, mulheres paravam de comer e morriam em busca de um ideal ascético, de santidade. Era um desprendimento do corpo, e nesse ponto entra a questão da negação do feminino e da sexualidade, que também está presente nas meninas de hoje. Ou seja, as motivações são distintas, mas tanto hoje como naquela época, essas mulheres perseguiam um ideal valorizado pela sociedade.

Isso começou em qual período exatamente?
Cybelle - O primeiro relato de uma mulher que jejuou até a morte e foi santificada aparece no século 8. Mas a epidemia do jejum ascético foi entre os séculos 14 e 17. E esse comportamento só acabou à medida que a Igreja passou a valorizar mais a caridade, o ensino, ou seja, começou a fornecer e a esperar um papel diferente da mulher, restringindo também sua autonomia.

A anorexia teve diversas interpretações?
Cybelle - São momentos muito delimitados onde há um surto que depois desaparece. Há cerca de uma década vivemos um outro momento desses. E aí volta a questão da sexualidade e da dificuldade de entrar no mundo adulto. Mesmo hoje, com o apelo do corpo, por que essas meninas optam por ficar igual à modelo da capa da revista de moda e não como a boazuda da capa da revista masculina? Elas querem apagar do seu corpo as marcas da idade adulta.

E quando a doença aparece depois de adulta? Ou em homens?
Cybelle - São muito raros casos na idade adulta. Quando se identifica na mulher adulta ela desenvolveu na adolescência e já tem um histórico longo com a doença, crônico. Com os homens, há uma proporção de um caso em homens para cada 9 em mulheres. Neles, também mexe com o desenvolvimento sexual, com a perda da libido, ficam muito magros.

E qual a grande dificuldade para lidar com isso hoje?
Cybelle - É a resistência ao tratamento. Assim como as mulheres santas paravam de comer, as meninas de hoje não aceitam que estão doentes. Elas, em ambos os casos, pensam que é um estilo de vida. E é um comportamento valorizado culturalmente. A menina fica magrinha e todo mundo elogia, as amigas sentem inveja. A doença fica mascarada pela cultura.

Hoje vivemos um novo surto?
Cybelle - Não só aumentou a incidência, mas a doença surge numa idade precoce. Antes, começava nos 15 anos. Agora, atendemos meninas com 12, 13 anos. Tive uma paciente de 10 anos.

Alguém simplesmente decide parar de comer?
Cybelle - Ela decide que precisa emagrecer e começa uma dieta.

E o que faz com que continue?
Cybelle - Até agora ninguém provou que há causa orgânica. O que existe é um perfil psicológico: meninas muito perfeccionistas, com controle de grande rigidez, geralmente são boas filhas, boas alunas, meninas meigas e com dificuldade de extravasar sentimentos como raiva. Elas se assustam com adolescência, quando começa a se formar o corpo de mulher, os seios crescem, o quadril ganha forma. A sexualidade assusta muito as meninas que desenvolvem anorexia.

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