Anjos da guarda
Quando um ente querido adoece e precisa de cuidados especiais em casa, nem sempre os familiares sentem-se preparados para tal função. Seja por fatores psicológicos - acompanhar o sofrimento do outro é insuportável - por se julgarem incapazes de desempenhar as tarefas necessárias ou por falta de tempo para se dedicarem integralmente ao doente, muitos preferem os serviços das enfermeiras particulares ou acompanhantes. Elas são responsáveis pela higiene do paciente e pelo cumprimento de determinações médicas, como remédios nos horários indicados, curativos, banhos, soro, alimentação adequada. O serviço inclui, sobretudo, muito carinho e uma forte ligação afetiva, consequência de longos meses (ou anos) de companhia mútua.
O paciente vira uma pessoa da família, uma parte da vida da gente, diz a atendente de enfermagem Elisabete Bondioli Ferraz, 56 anos, que no seu último trabalho como acompanhante também fazia as vezes de cozinheira. Me sinto útil servindo as pessoas, tenho prazer em ajudar os outros, afirma. Segundo ela, o dom da paciência é fundamental nesse tipo de trabalho, principalmente quando o doente em questão é idoso. Alguns viram crianças; eu trato como se fossem bebês, conta.
Sem ter feito cursos específicos - só trabalhou durante seis meses no Hospital Evangélico - Elisabete aprendeu seu ofício com a vida. Cuidou da mãe e do irmão, ambos com câncer, até o fim. Apesar de sempre trabalhar acreditando que o paciente vai se recuperar, pois para Deus nenhuma doença é incurável, ela encara a morte com serenidade. Sou muito realista. Estamos aqui só de passagem, ressalta.
É preciso demonstrar firmeza. Eu sinto, sofro, choro, mas tento passar segurança para a família, diz a auxiliar de enfermagem CarmemPara a auxiliar de enfermagem Carmem Lúcia Coelho, 36 anos, 15 como acompanhante, a vontade de fazer algo para mudar o diagnóstico de uma doença fatal é sempre muito grande. Mas só podemos ficar ao lado, fazendo companhia, lamenta. Isso não é pouco. Além de cuidar do paciente, as acompanhantes acabam apoiando também a família, fragilizada nestes momentos difíceis. É preciso demonstrar firmeza. Eu sinto, sofro, choro, mas tento passar segurança. Diante dessa imagem de fortaleza (nem sempre verdadeira), alguns acabam se confundindo. Pensam que é frieza, conta.
Segundo ela, o primeiro contato com o paciente é a parte mais difícil do trabalho. A pessoa está na cama, sem defesas e, de repente, chega uma estranha que vai passar a cuidar dela todos os dias. É preciso saber como era antes da doença, seus gostos, conquistar sua confiança, observa. Depois de estabelecida a amizade, as demonstrações de afeto do paciente são verdadeiros troféus. Aquele muito obrigado, que sei que é de coração, é gratificante, diz Carmem, que trabalhou de domingo a domingo, sem folgas, durante os últimos quatro meses em que cuidou de uma paciente com câncer.
A falta de segurança e estabilidade desse tipo de trabalho exigiram da auxiliar de enfermagem um emprego fixo. De manhã, Carmem trabalha na Universidade Estadual de Londrina (UEL), reservando o período da noite para seus serviços de acompanhante. É quando o paciente está mais vulnerável, salienta. Para ela, mais do que se responsabilizar pelas necessidades básicas do doente, dar qualidade de sobrevida a ele é a sua principal função. Apesar de afirmar que nenhum médico pode prever a vontade de viver de uma pessoa, ela tem consciência de que haverá um fim. Fico deprimida e me sinto derrotada quando o paciente chega a falecer, mas sei que poucos dias depois terei que estar pronta para começar tudo de novo.Mário CésarMe sinto útil servindo as pessoas, diz a atendente de enfermagem ElisabeteRosângela Vale





