Celso Mattos
O que histórias como ‘‘Tristão e Isolda’’, ‘‘Romeu e Julieta’’ e ‘‘Anna Karenina’’ têm em comum? A resposta não poderia ser outra: o amor vivido em toda a sua intensidade. Esse sentimento oceânico, capaz de mover montanhas, pode estar cada vez mais distante da realidade, mas continua mexendo com o imaginário de muitas pessoas. Mesmo em uma época em que as relações afetivas são bastante descartáveis, o amor romântico é receita de sucesso para filmes, novelas e romances. Em ‘‘Cidade dos Anjos’’, por exemplo, um anjo abre mão de sua imortalidade para viver um grande amor.
Depois de amargar baixos índices de audiência em suas novelas, a Rede Globo resolveu apostar na história de amor de Matheo e Giuliana em ‘‘Terra Nostra’’ para recuperar sua posição na teledramaturgia. Mesmo estando fora de moda, o amor romântico continua arrebatando corações e fazendo muitas pessoas sonharem com o príncipe encantado. Para a psicóloga Sônia Vaz, desde criança somos levados a acreditar que só é possível ser feliz, vivendo um grande amor. ‘‘Histórias como ‘‘Branca de Neve’’ e ‘‘Cinderela’’ reforçam esse pensamento. Todas as expectativas e ideais do amor romântico são passados como única forma de amor e aprendemos a sonhar e a buscar um dia viver esse encantamento’’, explica.
Simbiose Segundo Sônia Vaz, o dilema atual se situa entre o desejo de simbiose com o parceiro e o desejo de liberdade. ‘‘É inegável que a fusão que o amor romântico propõe é extremamente sedutora. Que remédio melhor poderia haver para o nosso desamparo do que a sensação de nos completarmos na relação com outra pessoa?’’, questiona.
Entretanto, a psicóloga ressalta que nesse tipo de sentimento há a idealização da pessoa amada. ‘‘Projetamos nela tudo o que gostaríamos de ser ou como gostaríamos que ela fosse. Não nos relacionamos com a pessoa real, mas com a inventada. O amor romântico não é construído na relação com a pessoa real, mas sobre a imagem que se faz dela, trazendo a ilusão do amor verdadeiro. Deseja-se tanto vivê-lo que, quando alguém o critica, causa grande desapontamento. O amor romântico é um amor de sacrifício’’, avalia Sônia Vaz.
Mas até que ponto vale a pena fugir desse tipo de relacionamento por medo de sofrer? ‘‘É muito difícil dizer o que é certo e o que é errado. Pode-se viver muitas alegrias nesse tipo de sentimento, mas é preciso estar com os pés no chão porque um dia ele vai acabar, trazendo frustrações e decepções. Existem pessoas que sabem lidar com isso, outras não’’, alerta a psicóloga.
Para quem acha que vai perder alguma coisa ao desistir do amor romântico, a cineasta canadense Bonnie Kreps diz que deixar o hábito de ‘‘apaixonar-se loucamente’’ para viver um amor sem projeções e idealizações também tem a sua própria excitação. Segundo a cineasta, é a mesma coisa que experimentar novos músculos que sempre tivemos, mas nunca usamos devido ao nosso estilo de vida. Entretanto, ao começar utilizá-los podemos fazer com nosso corpo coisas que antes nunca conseguimos.
A música de Gilberto Gil, ‘‘O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar; o seu amor, ame-o e deixe-o ser o que ele 钒, passa a idéia de que o verdadeiro ato de amar é o que garante a quem amamos a liberdade de amar, além e apesar de nós e de nosso amor. Para a psicanalista carioca Regina Navarro Lins, no futuro as relações amorosas serão mais livres e, por isso, mas satisfatórias. ‘‘Não alimentando fantasias românticas de fusão com outra pessoa, cada um tem a oportunidade de pretender se sentir inteiro, sem necessitar de outro para completá-lo. Só então será possível descobrir as incontáveis possibilidades do amor e como ele pode se apresentar para cada pessoa em cada momento de diferentes maneiras. Amar e ser amado vai significar muito mais’’, defende a psicanalista.Esse sentimento de projeção, capaz de mover montanhas, está saindo de cena, mas ainda continua mexendo com o imaginário das pessoas
Arquivo Folha‘‘Nesses casos, não nos relacionamos com a pessoa real, mas com a inventada’’, afirma a psicóloga Sônia VazFoto: Carmen Kley; modelos Raquel Torres e Valter Augusto SellaO verdadeiro ato de amar é aquele que garante a liberdade de amar

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