Amigos
para
sempre

O homem é um ser social. É através do outro que o indivíduo se conhece e se estabelece como um ser diferenciado. O outro propicia nosso desenvolvimento como pessoa. Nesse aspecto, o olhar do outro é sempre produtivo, no sentido de nosso próprio crescimento. Por que algumas pessoas causam uma empatia tão forte em nós e outras não? Segundo a psicóloga Sônia Lunardon Vaz, já foram realizados vários estudos sobre o assunto; um deles revela que essa empatia acontece, simplesmente, porque nosso inconsciente reconhece no outro algo que nos agrada.
De acordo com ela, o ser humano se relaciona muito por projeção, é por causa disso que acontecem as decepções. Se a pessoa for madura, mesmo percebendo que a projeção feita no outro não foi correspondida, ela vai acabar acolhendo-o mesmo assim. ‘‘E quando se acolhe a diferença do outro, isso já é afeto, é amor. O afeto se dá pelas diferenças, não pelas semelhanças. Pelas semelhanças nascem as relações narcísicas’’, revela Sônia.
Para Sônia, as amizades não precisam ser necessariamente eternas para ser verdadeiras, até porque as pessoas estão (ou pelo menos deveriam estar) em constante transformação, fazendo com que suas vidas tomem direcionamentos diferentes em vários momentos. Para a psicóloga, o importante é que a amizade seja enriquecedora e, para isto, basta haver o acolhimento.
Senha A amizade tem papel importante em várias fases da vida. ‘‘Na infância, a socialização faz com que a criança comece a estender suas possibilidades fora do útero da mãe. É através desse processo que a criança começa a ter noções de limites. Ela aprende a adiar desejos, sublimar impulsos, regular emoções, descobrir seu poder de fogo, suas potencialidades’’, explica.
Uma criança, dependendo da idade e de características de sua personalidade, pode ter dificuldades em fazer amigos sozinha. Aqui, cabe ao educador intervir com cuidado para ajudá-la. ‘‘Qualquer grupo, mesmo de crianças, possui um ritual de passagem não expresso. Para fazer parte dele é preciso descobrir o código de entrada, caso contrário há rejeição. Isso é mais complicado na infância. Já na adolescência, o jovem conhece os códigos e sabe como armar estratégias’’, lembra Sônia.
Se para a criança a amizade serve como um aprendizado das possibilidades e limites, para o adolescente, ela é a chave para a individualização. Nessa fase, os laços são reforçados pelo desejo, às vezes inconsciente, de estabelecer a diferença entre o jovem e a família. Os amigos, então, funcionam como aliados que vão ajudar na descoberta de novos valores. Isso faz com que eles estabeleçam uma cumplicidade. ‘‘A amizade aqui ganha um sentido profundo e forte. Por isso, elas têm grande chance de ir mesmo até o final da vida’’, diz a psicóloga.
Influência Quando os pais ou educadores em geral sentem nos filhos dificuldades de relacionamento, é necessário orientar essa criança ou esse jovem de acordo com o conteúdo emocional dela. Procurar entender o que há por trás do comportamento. Se os filhos estão andando com pessoas com comportamentos impróprios é importante, e bem mais eficaz, os pais dialogarem com o jovem fazendo com que ele perceba a emoção que aqueles colegas estão tendo por trás do comportamento que assumem.
Para Sônia, se os pais conseguirem alertar os filhos mostrando os motivos, os impulsos escondidos, eles estão permitindo a esses jovens adquirirem uma potência em relação aos colegas. ‘‘Dessa maneira, o pai consegue educar porque a criança consegue ser crítica. E nessa situação, os pais podem ficar mais tranquilos porque os filhos conhecem esses impulsos, sabem do que se trata e vão buscar atender a suas necessidades emocionais de maneira consciente. Dessa forma, se tornam mais potentes, inclusive no sentido de influenciar esses amigos ‘perigosos’. O jovem se sente livre para continuar tendo afeto por esses amigos, embora esse sentimento possa ser crítico’’, avalia.
Segundo Sônia, a desonestidade nas relações é o que acaba impedindo as pessoas de crescer. ‘‘O que é de fato que eu sinto em relação à determinadas situações? O que eu quero? O que não quero? O que faço só para agradar? Essa honestidade nas relações, desde cedo, permitiria relações mais sinceras e produtivas, no sentido de permitir o crescimento das pessoas envolvidas. A começar pela relação entre pais e filhos, inclusive para que os primeiros tenham mais condições de educar os jovens. A influência é uma sedução; é preciso entender que quanto menos identidade tiver uma pessoa, mais passível de ser influenciada ela serᒒ, explica.

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