Amigos na dor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de agosto de 2006
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
As perdas fazem parte da vida. Desde pequenos passamos por elas nas mais diferentes situações. O bebê perde o seio da mãe, a criança perde seus brinquedos quando eles se quebram, o adolescente seguramente vai perder um grande amor e assim por diante. Sejam pessoas, sentimentos, objetos, todo ser humano passa por várias perdas durante a vida.
Embora inevitáveis, nunca nos acostumamos com elas e superá-las é sempre difícil. Pior ainda quando a pessoa se sente sozinha, sem alguém para conversar e incompreendida na sua dor. ''A relevância da dor da perda é muito relativa. Só quem sofre pode mensurar. Perder um namorado ou o emprego pode ser algo facilmente superável para algumas pessoas e muito doloroso para outras'', diz a psicóloga Maria Cecília Malaquias.
Para ajudar a superar esses momentos, ela montou, junto com a psicopedagoga Iara Franco Coutinho, grupos de apoio e tratamento. ''Dessa forma, o paciente pode descobrir que outras pessoas também passam pelo mesmo sofrimento que ela, que essa experiência não é sinal de fraqueza. Isso oferece apoio para facilitar o processo da mudança de comportamento'', explica.
Em reuniões semanais com cerca de duas horas de duração, os participantes trocam experiências e opiniões em dinâmicas dirigidas pelas profissionais. ''Muitas vezes, as pessoas precisam de ajuda para superar momentos de perda, seja pela morte de alguém, por uma separação traumatizante ou perda do emprego. Elas não conseguem superar isso, e a solidariedade encontrada no grupo ajuda bastante'', completa Iara.
Os grupos são formados por seis a dez pessoas, que são selecionadas depois de uma entrevista com as profissionais. ''Nem todo mundo pode participar desse tipo de trabalho. Pacientes que têm distúrbios de origem física, como depressão profunda, ou que somatizam os problemas dos outros precisam de tratamento individualizado'', diz Maria Cecília.
Como os participantes compartilham informações muito íntimas, os grupos são sempre fixos e não é permitida a participação de acompanhantes e visitantes. ''Eles também assinam um termo de compromisso que garante que nenhum deles pode revelar o que for comentado nas reuniões'', revela.
Com o tempo, a intimidade e a semelhância das experiências cria amizades que permanecem fora dos grupos. ''As pessoas acabam se encontrando fora daqui, formando vínculos que se mantêm depois do tratamento. Alguns trazem amigos que estão sofrendo com o mesmo problema para participar do grupo'', afirma Iara.
Além de coordenar as discussões, a função das profissionais é fazer com que todos percebam que toda perda tem também seu lado positivo. ''Faz com que o indivíduo cresça, se transforme. Quando a criança vai para a escola, por exemplo, a mãe perde sua companhia integral, mas o filho ganha independência e novos amigos. A morte de alguém querido pode significar o fim do sofrimento causado por uma doença. Quando a pessoa percebe isso fica mais fácil aceitar'', comenta Maria Cecília.
O período de tratamento em grupo é de seis meses a um ano e dois meses e os indivíduos podem sair ou entrar no grupo durante esse período. ''Costumo dizer que as pessoas chegam aqui com uma mala vazia de ferramentas para lidar com as perdas. Quando conseguem encher essa mala, elas vão embora. Isso depende de cada um. Por isso não dá para todos os participantes encerrarem a terapia ao mesmo tempo'', afirma.
Ela diz que mesmo os mais tímidos, que não conseguem falar em público, podem participar e melhorar com a terapia em grupo. ''Existem pacientes que passam muito tempo sem falar nada durante as reuniões, mas a gente percebe se há melhora ou não. O corpo dá sinais, seja pelo aperto de mão, pela postura'', observa Maria Cecília.
Para participar da terapia, é necessário ter mais de 16 anos e se inscrever para a entrevista. ''Os grupos são heterogêneos, com participantes de idade, sexo, condição econômica e problemas diferentes. São pessoas que percebem que estão sofrendo mais do que o normal e mesmo depois de muito tempo não conseguem superar as perdas'', diz Iara. Serviço: 3324-1023


