Estudos apontam que três em cada 10 crianças podem passar por uma fase curiosa, de brincadeiras e conversas com um amigo imaginário. São diálogos, risadas e até mesmo discussões travadas com o amiguinho invisível. Em alguns casos, a imaginação da criança vai tão longe que o amigo é chamado pelo nome, tem lugar no carro e na mesa na hora das refeições.
Para a maioria dos pais, observar o filho falando sozinho causa algum desconforto, mas não deve ser motivo de preocupação, avisa a psicóloga Fernanda Brandão, especialista em terapia cognitiva comportamental. ''É um processo frequente na infância, que aparece por um período na vida da criança e depois passa naturalmente'', explica a especialista.
A sugestão da psicóloga aos pais é não punir a criança pelo comportamento, e ao mesmo tempo não valorizar o amigo invisível criado pelo filho. ''Trate como algo comum, sem dar ênfase ou proibir'', explica Fernanda. Outra recomendação é propor outras atividades ao filho, como sair para tomar um sorvete ou marcar um dia de brincadeiras com os primos e amigos.
O comportamento só deve ser considerado preocupante quando a criança começa a se isolar por mais tempo, deixando de brincar com os colegas da escola e de realizar atividades corriqueiras para ficar com o amigo invisível. ''Se atrapalhar o dia a dia, se ela deixar de fazer tarefas importantes, é recomendado procurar ajuda de um profissional'', avisa a psicóloga.
Segundo Fernanda Brandão, a fase do amigo imaginário é vivida dos quatro aos oito anos de idade. A especialista explica que o comportamemto não é exclusividade de filhos únicos. Ele pode aparecer nos casos da chegada de uma criança na família, em que o filho mais velho se vê tendo de dividir as atenções com o caçula, ou em crianças que apresentam dificuldades de se relacionar com outras pessoas. ''Depende da história de cada um, não é possível apontar um perfil. Atendi vários casos em consultório, e cada um deles tinha suas particularidades'', assinala.
Timidez
Na escola O Peixinho, situações de crianças brincando sozinhas são raras, conta a psicóloga e diretora da escola, Daniele Zoega Della Barba. ''O que observamos são crianças brincando com os heróis que gostariam de ter por perto, mas o imaginário faz parte da infância de qualquer pessoa'', conta. ''Situações mais evidentes de amigos imaginários nunca tivemos''.
Nos casos em que o aluno apresenta problemas de socialização, a diretora explica que a escola está preparada para orientar os pais sobre como encaminhar a questão. ''Algumas famílias nos procuram preocupadas com a timidez dos filhos. Muitas vezes, os próprios pais se dizem retraídos, e confessam o receio de que os filhos sofram pelo mesmo motivo'', conta Daniele. ''Orientamos para que deixem a criança tomar as iniciativas, a não falar por ela''.
O isolamento da criança, na opinião da diretora, é mais preocupante que os problemas de aprendizagem, por isso a proposta da escola é estimular o convívio social em todas as séries. ''Quanto mais cedo for detectado o problema de socialização, mais rápida é a resposta da criança. De qualquer forma, é possível reverter a situação'', ressalta.

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