Amélias modernas
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quinta-feira, 06 de março de 2008
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Desde que a revolução feminina mudou a maneira como as mulheres encaram a vida e seu papel na sociedade e na família, a imagem da dona de casa dedicada exclusivamente aos cuidados domésticos e dos filhos vem ficando cada vez mais rara. A maioria das mulheres pós anos 60 foram criadas para estudar, conseguir um emprego e ter sucesso profissional. Igualzinho ao que se espera dos meninos.
Mas, depois de conquistar espaço, igualdade e dinheiro, muitas estão fazendo o caminho de volta e se dedicando mais ou até integralmente aos afazeres do lar. São as donas de casa do século 21: mulheres com formação universitária, mais de um idioma no currículo, carreira promissora e, ainda assim, decididas a educar os filhos como as mães de antigamente e enfeitar a casa com bordados, tricôs e pinturas feitas por elas mesmas.
Mas o retorno às origens não é tão fácil como parece. Muitas meninas recém-casadas e cheias de boa vontade se vêem encurraladas por um detalhe importante: a maioria delas não sabe ser dona de casa. ''Elas não sabem fazer nada. Não sabem cozinhar, lavar, passar, limpar a casa. São mulheres geralmente com uma bela carreira, mas que querem também cuidar das suas casas. Não que elas queiram limpar, lavar e cozinhar. Mas a falta de conhecimento impede até mesmo de determinar ordens para empregados'', diz a administradora de empresas Carmem Cecília de Campos Fragata, que há dois anos dá aulas de como cuidar da casa, no curso Casatrativa.
Segundo ela, a idéia do curso surgiu pela necessidade das próprias amigas, que não se sentiam realmente donas de suas casas. ''São mulheres que durante a adolescência não precisavam fazer nada em casa e, portanto, nunca aprenderam. Aí, quando elas se casam, querem cuidar do marido, dos filhos e da casa. Isso é algo quase que inerente à mulher, por mais moderna que ela seja. E vários maridos cobram isso de suas esposas, que procuram o curso para aprender a administrar seu lar'', explica.
Com quatro aulas de uma hora e meia de duração, as alunas aprendem a organizar os serviços domésticos, desde executar faxina e manter a casa em ordem, produtos e método de lavanderia, cozinha e recepção. ''Já formei cerca de 60 alunas. Algumas me procuram depois, felizes da vida, dizendo que a rotina em casa melhorou muito, que agora elas se sentem realmente donas da casa onde moram.
Para Carmem, é possível que a mulher de hoje faça essa volta ao passado sem deixar de lado a carreira e nem se sobrecarregar. ''Quando você sabe como a casa funciona e o que precisa ser feito, fica fácil lidar com empregados e manter as coisa sob controle. É isso que elas aprendem aqui.''
Serviço: Curso Casatrativa: fone 3323-9315
Me formei em relações-públicas há cinco anos e, quando estava na faculdade, meu objetivo era trabalhar em empresas. Mesmo quando me casei, no último ano do curso, pensava em seguir minha carreira. Na verdade, fiquei um tempo trabalhando, mas, quando engravidei resolvi parar porque queria aprender a ser mãe de verdade, me dedicar aos meus filhos Rafaela, 3 anos, e Davi, 2.
Gosto muito de aprender e queria passar pela experiência de amamentar, trocar fraldas, dar banho. Tenho uma babá que me ajuda, mas faço muita coisa sozinha. Minha mãe ficou em casa comigo quando eu era criança e acho que isso foi muito importante para minha formação. Quero estar com meus filhos para transmitir a eles os valores que eu e meu marido acreditamos.
No início tinha pensado em ficar em casa até que completassem três anos de idade, mas agora acho que vou ficar com eles até os dez. Estudos mostram que a personalidade de uma pessoa se forma até os sete anos, e eu quero que meus filhos sejam cidadãos de verdade, corretos, felizes. Morávamos em um apartamento e resolvemos vir para um condomínio de casas com mais espaço. Aqui eles têm uma horta, parquinho, piscina; a casa é toda planejada para eles.
Algumas pessoas acham alienação da minha parte, mas eu sou feliz como dona de casa. Tenho orgulho disso e, sinceramente, acho trabalhar fora mais fácil do que ficar em casa. Educar, impor limites e controlar a casa é difícil. Por isso, muita mulher prefere ter um emprego fora.
Juliana Ribas Alves Dinardi, relações-públicas
Desde pequena, sempre gostei de trabalhos manuais. Com seis anos de idade já fazia os vestidos das minhas bonecas e roupinhas para os meus gatos. Minha mãe era costureira e me ensinou a fazer praticamente tudo. Hoje eu costuro, bordo, faço crochê, tricô, ponto-cruz, pintura. Mas eu nunca quis fazer isso como profissão. Meu sonho era ser advogada.
Tenho minha profissão e trabalho no escritório o dia inteiro. Os trabalhos manuais eu faço como forma de relaxar, de me desligar dos problemas do dia-a-dia. Na adolescência, até usava isso para ganhar um dinheiro, mas hoje faço porque gosto. Todas as peças são feitas para meu uso pessoal e para dar de presente a amigos e parentes.
Meu enxoval foi todo feito por mim, e, quando me mudei para o apartamento novo fiz outro. Na minha casa não tem uma peça de cama, mesa ou banho que não tenha um detalhe meu. Não consigo sentar na frente da TV e ficar sem fazer nada. Enquanto estou sozinha em casa, estou o tempo todo com algum trabalho na mão. Se meu marido chega, aí eu paro para ficar com ele.
Minhas amigas acham muito legal eu fazer tudo isso e me perguntam como eu encontro tempo para trabalhar e ainda me dedicar aos trabalhos manuais. Faço todos os presentes que eu dou e as pessoas adoram recebê-los porque são peças únicas, feitas com muito carinho. São coisas que têm um valor especial porque quando faço penso na pessoa que irei presentear.
Para encontrar inspiração, fico o tempo todo observando desenhos, formatos. Esses dias fui a uma pousada e vi um jogo de 5 Marias (saquinhos de arroz ou areia usados por crianças para brincar). Resolvi fazer para presentear sobrinhos e vou dar um jogo para cada pessoa da família e amigos porque todo mundo que vê fico louco para ter um. É muito gostoso as pessoas ficarem felizes com as coisas que a gente faz.
Maria Tereza Navarro, advogada


