Enquanto a maioria dorme, uma parcela da população está na ativa. Faz academia, limpa a casa, vai ao supermercado, estuda. Tudo depois das 22 horas. Tem gente que pode considerar loucura, mas um grupo de pessoas rende mais no período noturno. São os notívagos. Com um relógio biológico diferenciado, muitas vezes chegam a trocar o dia pela noite. E a agenda invertida nem sempre acontece por necessidade, mas por uma questão de preferência. Eles são verdadeiros amantes da noite.
Apesar de não haver dados oficiais que mostrem o número de notívagos no Brasil e no mundo, pesquisas científicas indicam que cada indivíduo tem seu próprio ritmo biológico. Partindo desse princípio, em 2007 foi criado na Suécia um grupo intitulado ''Sociedade B'' com o objetivo de introduzir horários alternativos de funcionamento para escolas, locais de trabalho e universidades. A primeira instituição sueca a implementar o esquema foi uma escola secundária de Gotemburgo com turnos opcionais entre 20h e 8h.
A ''Sociedade B'' defende que algumas pessoas são mais produtivas no final do dia e têm dificuldade de despertar de manhã. É o caso da estudante Rita de Cássia Fernal, de 26 anos. Ela afirma que realmente 'funciona' melhor à noite. Atualmente, está focada nos estudos, pois quer ser aprovada em um concurso público. Em busca do seu 'sonho', faz cursinho até às 21 horas e depois estuda em casa até duas, três horas da madrugada. ''Depois durmo até meio dia'', conta.
Ela lembra que sempre foi assim. ''Na época da escola e da faculdade estudava para as provas e fazia os trabalhos de madrugada. Consigo me concentrar melhor. É um clima mais tranquilo'', justifica. Durante o período em que morou sozinha em Campos do Jordão (SP) chegava a limpar a casa após a meia noite. ''Não tem jeito. Meu horário biológico é diferente. Prefiro fazer as coisas quando todo mundo está dormindo'', brinca.
Segundo o neurologista Damacio Ramón Kaimen Maciel, para não prejudicar a saúde, toda pessoa tem que dormir pelo menos a quantidade mínima recomendada para a sua faixa etária, independentemente do horário. O sono, de acordo com ele, evolui com o passar dos anos. O recém-nascido dorme praticamente o dia inteiro, o adolescente precisa de cerca de 10h de sono diariamente, o adulto necessita entre 5h e 8h e o idoso não fica na cama mais de 5 ou 6 horas diárias.
''Se ela (Rita) dorme tarde mas acorda no horário do almoço, não será prejudicada. Claro que o seu ciclo será distorcido, mas o problema mesmo é quando a pessoa não dorme o suficiente. A falta de sono acarreta em alterações metabólicas profundas, diminuição do sistema imune, quadros de infecção frequentes, entre outros malefícios'', aponta.
No que diz respeito ao sono, o médico destaca que existem dois tipos de pessoas. De um lado os madrugadores, que dormem e acordam bem cedo - às vezes ainda de madrugada - e são mais produtivos de manhã. A característica é mais comum, e acentuada, em indivíduos acima dos 60 anos. Do outro tem-se os notívagos que, exatamente como prega a ''Sociedade B'', produzem melhor a partir do final do dia e têm dificuldades para levantar cedo.
O casal Debora Gomes Leme Lisboa e Joel Sousa Lisboa é outro exemplo de notívagos. Desde que casaram, há mais de 17 anos, frequentam o supermercado no período da noite. Atualmente só vão às compras após às 21h30. ''A gente se sente melhor nesse horário. Sem contar que é muito mais tranquilo, não enfrentamos fila e não temos dificuldade para encontrar uma vaga no estacionamento'', explicam, ressaltando que diversas vezes estavam no supermercado no horário de fechamento, por volta da meia noite. ''Optamos por esse Muffato (da Avenida Madre Leônia Milito) justamento porque fecha esse horário'', destacou o casal que reside na Vila Nova (Área Central de Londrina).
Além dos hábitos noturnos do casal, Joel trabalha durante a madrugada. ''Sou técnico em enfermagem e meu plantão é das 19 às 7 horas. Durmo durante o dia. Já acostumei com essa vida, tanto que quando estou de folga vamos fazer compras e cumprimos com os nossos compromissos durante a noite'', ressalta.
O neurologista Kaimen Maciel alerta que o sono noturno em quantidade insuficiente é a principal causa de sonolência diurna, o que pode gerar acidentes de trânsito, por exemplo. Por isso, é necessário tentar dormir as horas recomendadas, mesmo que durante o dia.


Imagem ilustrativa da imagem Amantes da noite
| Foto: Cesar Augusto - moça estudando
‘‘Não tem jeito. Meu horário biológico é diferente. Prefiro fazer as coisas quando todo mundo está dormindo’’, afirma Rita Fernal, que passa as madrugadas estudando para concursos públicos
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| Foto: Celso Pacheco - casal no supermercado
Desde que se casaram, Debora e Joel Lisboa preferem resolver questões da rotina, como ir ao supermercado, tarde da noite