A aposentada Ivanilde Aparecida Fernandes, 56 anos, passou 21 anos de sua vida amamentando os sete filhos que teve e outras crianças que precisavam de leite materno. ''Amamentei meus filhos até no mínimo os três anos de idade. Minha caçula mamou até os sete. E também dei de mamar para outros bebês, quando estava no hospital, depois dos partos. Fazia isso porque sempre tive muito leite e as pessoas pediam minha ajuda'', explica.
Além da solidariedade, Dona Ivanilde acredita que o leite materno seja uma ótima opção para alimentar as crianças. ''Ele já vem na temperatura certa e tem muitos nutrientes. Meus filhos são muito saudáveis até hoje e acredito que seja por causa da amamentação'', afirma.
E o hábito de amamentar por muito tempo passou de uma geração à outra. A demonstradora Angela Aparecida Fernandes, 25 anos, filha de Ivanilde, amamentou até 5 anos de idade a filha, Maria Eduarda Fernandes, hoje com 6.
''Eu também tinha muito leite e ela não aceitava a mamadeira com leite de vaca, por isso continuei dando o peito. Muitas amigas dizem que não vão amamentar porque têm medo de o peito ficar flácido e de doer, mas eu nunca me preocupei com isso e nunca tive problemas. Resolvi tirar o peito porque ela já estava muito grande. Hoje, a Maria Eduarda toma leite de vaca, mas ela ainda pede para mamar no peito'', diz Angela.
Inimigo no peito
Em alguns casos, o leite materno pode representar um perigo à saúde das crianças. Isso acontece quando o bebê tem alguma alergia a determinado alimento e a substância causadora é transmitida pelo leite da mãe. ''Cerca de 2% a 7% das crianças do mundo têm predisposição genética à alergia alimentar. A mais comum é a alergia ao leite de vaca e, em situações mais graves, quando a mãe ingere o leite e seus derivados, ela é transmitida para o filho durante a mamada, causando a reação alérgica'', afirma a pediatra Ana Paula Juliani.
Segundo ela, existem dois tipos de mecanismo para a alergia. O gerado por anticorpos é o mais comum e também o mais perigoso. Os sintomas, que podem ser surgir na boca e outras regiões do corpo, vômito e inchaço, aparecem minutos após a ingestão. ''Existe o risco de um choque anafilático que pode causar até a morte do bebê'', alerta. O outro tipo de alergia é gerado pelas células, que tem a diarréia e a dermatite como sintomas mais comuns, que costumam aparecer horas depois da ingestão. ''Nesses casos não há risco de vida, mas a diarréia pode levar à desnutrição'', completa a médica.
De acordo com a pediatra Heloísa Simonini Delfino, as alergias alimentares surgem ainda na primeira infância e tendem a desaparecer com o tempo, por volta dos dois ou três anos, em aproximadamente 80% dos casos. ''Geralmente, as mães procuram o médico já com o diagnóstico e os testes são apenas para confirmação. Em famílias com casos de alergias, independentemente do tipo, a chance de surgir alergia alimentar é maior. E crianças que têm problemas com o leite normalmente têm alergia a outros alimentos. Cerca de 50% delas têm alergia ao ovo, por exemplo'', afirma.
A solução para a alergia ao leite, tão fundamental para o desenvolvimento das crianças, é a utilização de um produto com fórmulas especiais de hidrolizados protéicos. ''Mas é necessário recomendação médica, e esses produtos são caros, custam entre R$ 150 e R$ 300 e duram apenas três ou quatro dias. O ideal continua sendo o leite materno, mas aí a mãe precisa abolir o leite e seus derivados de sua alimentação porque a proteína é transmitida durante a amamentação. Depois que a criança completar um ano de vida, os pais podem tentar introduzir o leite de vaca novamente'', lembra Heloísa.
As médicas observam que é importante que os pais suspendam o uso de leite de vaca ou qualquer outra substância que cause alergia ao bebê. ''As pessoas tendem a acreditar que o organismo vai se acostumar e ficam oferecendo a comida para a criança. Isso é perigoso porque pode causar reações cada vez mais graves, mesmo ingerindo esses alimentos de vez em quando porque atrapalham o organismo a criar tolerância, uma vez que a criança fica o tempo todo gerando anticorpos'', comenta Ana Paula.
Outro erro é substituir o leite de vaca ou materno pelo leite à base de soja. ''A soja é um alimento forte para bebês e pode dar alergia também. Existem alguns produtos à base dessa oleoginosa que podem ser usados por crianças acima de seis meses de idade, mas eles são receitados por médicos. Esses produtos encontrados em mercados não devem ser usados'', completa Heloísa.

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