Graças à ação bloqueadora da contração muscular, a toxina botulínica tem sido a melhor opção terapêutica não invasiva para alguns problemas neurológicos
Derrames, lesões cerebrais, esclerose múltipla, paralisia cerebral e outras doenças de origem neuromuscular. Todas essas enfermidades têm em comum sequela irreversíveis, como a espasticidade, a mais frequente delas e que até pouco tempo só podia ser amenizada por meio de intervenção cirúrgica. Hoje, vítimas da espasticidade contam com um tratamento terapêutico revolucionário que pode ser obtido gratuitamente nos principais hospitais e centros de reabilitação do Brasil, como o Hospital das Clínicas de Londrina e o Hospital das Clínicas de Curitiba.
Apesar do nome complicado, a espasticidade se resume à rigidez muscular provocada por certas doenças de origem neuromuscular. Certamente você conhece ou já viu uma pessoa vítima de derrame que teve um dos braços ou pernas, ou metade do corpo ‘‘paralisado’’, ou seja, contraído, sem possibilidade de movimentação. Essa paralisia dos membros faz com que as pessoas não consigam se movimentar, o que complica, e muito, a qualidade de vida: a locomoção e os hábitos simples do dia-a-dia, como troca de roupas, ficam absolutamente comprometidos.
Ação temporária Para melhorar a qualidade de vida desses pacientes de forma rápida e simples – já que a maioria das patologias citadas ainda não têm uma cura definitiva apesar de contínuos avanços da medicina – os esforços concentram-se em encontrar modos de reduzir a intensidade de sequelas. Graças à ação bloqueadora da contração muscular, a toxina botulínica tipo A tem sido a melhor opção terapêutica não invasiva utilizada com este fim.
Segundo o médico neurologista Luís Sidônio Teixeira da Silva, doutor em neurologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor adjunto daUniversidade Estadual de Londrina (UEL), a toxina age exatamente na junção muscular onde acontece a liberação da acetilcolina – substância que desencadeia a contração muscular – impedindo-a.‘‘É um tratamento temporário; as aplicações precisam ser repetidas a cada quatro ou seis meses’’, informa ele, que é o responsável, no norte do Paraná, pela aplicação da toxina botulínica pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pela seleção dos casos a serem encaminhados para tratamento gratuito – bancado pela Secretaria de Saúde do Paraná – no Hospital das Clínicas da UEL. Atualmente, há 20 pacientes sendo tratados lá.
O neurologista explica que a substância é indicada, principalmente, para casos de distonia (contrações musculares involuntárias que produzem movimentos e posturas anormais), sobretudo para o blefaroespasmo – que afeta os músculos situados em volta dos olhos, responsável pelo fechamento das pálpebras – e para o torcicolo espasmódico – que envolve os músculos do pescoço. Também para outros músculos da face e para contrações involuntárias das mãos e dos pés. ‘‘São músculos menos potentes, onde pode ser usada uma menor quantidade da toxina com maior sucesso’’, justifica.
Paralisia cerebral A paralisia cerebral é uma lesão neurológica normalmente decorrente da falta de oxigenação cerebral no período do parto. O tipo mais comum de paralisia cerebral é espástico, que corresponde a 75% de incidência da doença. Um grande contingente de crianças portadoras desse problema tem indicação de cirurgias ortopédicas nos membros superiores ou inferiores para melhorar a sua função manual ou a sua locomoção. Porém, as cirurgias podem ser muito traumáticas, principalmente para crianças.
Não invasiva A toxina botulínica entra em cena como uma opção de tratamento não invasiva, uma vez que é aplicada diretamente nos músculos afetados, fazendo com que haja um relaxamento temporário da musculatura, facilitando o trabalho de fisioterapia e permitindo que a criança se movimente melhor à medida em o tratamento avança.
O neurologista Luiz Sidônio avisa, entretanto, que tanto nos pacientes com paralisia cerebral como nos que sofreram derrames, a indicação da toxina é mais restrita. ‘‘Como há vários músculos potentes comprometidos, são necessárias mais aplicações para fazer o bloqueio da contração, uma maior quantidade de remédio e, consequentemente, um maior custo’’, diz, esclarecendo que a toxina botulínica não faz a pessoa readquirir a movimentação plena. ‘‘Ela apenas diminui a contração excessiva em pontos localizados, mas o paciente não vai voltar a andar normalmente’’, ressalta. De acordo com ele, o tratamento é contra-indicado para grávidas e pessoas com doenças musculares, como miastemias graves.
A toxina botulínica é produzida por dois laboratórios: o americano Allergan – que comercializa o medicamento no Brasil com o nome de Botox – e o inglês Porton Down, que batizou o produto de Dysport.

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