Ai que preguiça!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de maio de 2000
Liliam Rana Agência Estado 
Não se sabe exatamente a origem da preguiça, mas uma recente descoberta pode ter contribuído, pelo menos, para acabar com algumas brigas entre pais e filhos. O conhecido relógio biológico dos adolescentes muda e eles realmente precisam dormir até mais tarde. A preguiça na adolescência pode não ser a mesma que caracteriza a lerdeza ou a indolência.
Estudos realizados na Universidade de São Paulo, sob orientação de Luiz Menna Barreto, mostram que o ciclo vigília-sono apresenta um atraso, relacionado à entrada da puberdade. O afloramento de novos hormônios nessa fase modicam o relógio biológico, alterando os ciclos do organismo, ou seja, o mecanismo que sinaliza quando precisamos acordar, dormir, comer e etc.
Geralmente, quando o jovem passa a estudar no período da manhã, sofre uma diminuição no tempo de sono. Ele perde as duas últimas horas importantes do sono, conta Luciana Mello, que defendeu em sua tese de mestrado o sono em adolescentes, seus ritmos biológicos e os horários escolares. O número de cochilos aumenta durante o dia e diminui o acordar espontâneo. Essas alterações também influenciadas por fatores sociais, estão em conflito com os horários escolares.
Nos finais de semana, quando o jovem tenta recuperar o sono dormindo até mais tarde, na verdade, está recompondo estágios essenciais que perdeu ao longo da semana. E não adianta mandar seu filho mais cedo para a cama, pois esse atraso de ritmo no organismo pode deixá-lo sem vontade de dormir no início da noite.
A temperatura também contribui para as oscilações do relógio biológico. Nas regiões centrais do organismo humano, a temperatura do sangue varia cerca de um grau. Pode parecer pouco, mas representa muito no funcionamento interno do corpo. Durante a noite a temperatura declina, causando sonolência. Quando o nosso corpo tende a despertar, a temperatura está mais alta.
Genética Cientistas da Universidade de Glasgow, na Escócia, Reino Unido, defendem a teoria que a causa da preguiça é, quem diria, genética. Entretanto, pesquisadores ressaltam que fatores externos, como o meio ambiente e a rotina também podem influenciar o nosso ritmo. Numa primeira etapa, os médicos irão estudar o comportamento de crianças, para tentar identificar um elemento genético comum entre as que toleram a prática de exercícios. Ao detectar esse padrão genético, acredita-se ser mais fácil tratar dos problemas de saúde decorrentes da falta de atividades físicas.
A polêmica que cerca as características humanas como hereditárias ou comportamentos adquiridos apenas começou. O Projeto Genoma, nos Estados Unidos, já tem cerca de um terço do padrão genético humano mapeado. Até 2003 acredita-se que será conhecida toda a sequência de DNA que compõe cada célula no corpo do homem. Creio ser bastante discutível essa conexão direta entre um aspecto do comportamento humano tão eivado de preconceitos, como a preguiça, e um gene, explica Luiz Menna Barreto, do Instituto de Fisiologia da Universidade de São Paulo.
Workholic A preguiça também pode revelar-se uma simples reação. O adolescente pode sentir-se tão deslocado com as diversas atividades que pode fazer e experimentar na sociedade, que acaba optando por não fazer nada. É importante saber o que está por trás da preguiça. O modelo que mais define a sociedade atual é do homem que faz tudo em ritmo frenético.
A supermotivação aos jovens acusa o estereótipo social. Tornar o jovem um futuro workholic, um viciado em trabalho, pode até torná-lo infeliz, mas ele estará mais adaptado com a ideologia contemporânea. Por outro lado, a desmotivação também pode estar escondida em forma de preguiça. A população tem dificuldades de se envolver socialmente. Um exemplo comum é o desempregado que sofre com as exigências do mercado de trabalho e acaba encontrando obstáculos para uma recolocação social.
A depressão, conhecida como a doença desse século, pode ser facilmente confundida com a preguiça porque uma pessoa triste não segue em busca de seus objetivos. A maioria dos deprimidos, com a chamada depressão branca, não sabe que esta é a causa de se sentirem tão infelizes e pacatos. Por isso, as pessoas que presenciam essa impotência perante a vida podem confundi-la com a preguiça.
O biotipo das pessoa também deve ser levado em conta. Existem pessoas que fazem tudo num ritmo mais lento, ou porque são mais estratégicas e detalhistas. Isso não serve para desqualificar ninguém a realizar determinadas atividades. Às vezes, os apressados podem deixar de concluir suas tarefas, enquanto que, num ritmo mais lento, certas pessoas podem terminá-las.


