Com a chegada do verão e o calor aumentando, refrescar-se na piscina ou no rio é sempre uma idéia atraente. Só que nem sempre se tomam os devidos cuidados antes de mergulhar, principalmente em águas desconhecidas. No início do mês, o Hospital das Clínicas de São Paulo divulgou um dado alarmante sobre os acidentes com mergulhos no Brasil. Segundos as estatísticas do HC, dez pessoas ficam paralíticas por semana ao bater a cabeça durante mergulhos. E a maioria é formada por jovens - cerca de 90% dos acidentados têm entre 10 e 25 anos.
O resultado de um mergulho malcalculado pode ser a paralisia, seja por causa da paraplegia (paralisação das pernas) ou a tetraplegia (braços e pernas), mais comum neste tipo de acidente. O choque da cabeça em local raso ou mesmo com uma pedra no rio, leva o pescoço a se dobrar e fraturar uma ou mais vértebras da coluna cervical.
Um caso que ficou célebre em todo o Brasil, foi o acidente do escritor Marcelo Rubens Paiva, que há quase 20 anos ficou paraplégico ao mergulhar em um lago raso. Universitário na época, Paiva transformou a experiência no livro ‘‘Feliz Ano Velho’’, um best-seller no País. Hoje, o escritor continua advertindo para o mergulho com ‘‘sua voz da experiência’’. Mas lembra que ‘‘ficar paraplégico não é nada agradável, mas também não é o fim do mundo’’. Para Marcelo Rubens Paiva, o que faltam no Brasil são locais de mergulho com sinalização e avisos com as medidas de profundidade, como existem na Itália, onde a associação de portadores de deficiências é a responsável pelas campanhas de prevenção.
E prevenção neste caso é mesmo o melhor remédio. Segundo o neurocirurgião e professor da Universidade Estadual de Londrina, Wander Miguel Tamburus, após a lesão medular, não há reversão. ‘‘E não há perspectivas de cura’’, explica Tamburus, que participou neste ano do Congresso Internacional do Lesado Medular em Foz do Iguaçu. De acordo com o neurocirurgião existem três possibilidades de tratamento para quem sofre uma lesão medular: a biomecânica, os medicamentos e a eletrônica. ‘‘A biomecânica é a que mais tem mostrado melhoras, e no Brasil, 48 pessoas já utilizam as órteses, aparelhos desenvolvidos em Oswestry, Inglaterra, permitindo que paraplégicos e tetraplégicos andem. Claro que não é uma caminhada normal, mas já é uma grande esperança’’, diz Tamburus.
Em Londrina, os acidentes por mergulho em águas rasas contabilizam 10% dos atendimentos do ambulatório interdisciplinar ao lesado medular traumático do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina (UEL), segundo o neurocirurgião Wander Miguel Tamburus, idealizador do projeto. Funcionando desde 86, o ambulatório conta com a participação, além do neurocirurgião, de ortopedista, urologista, fisioterapeuta, enfermeiro, psicólogo, ortotista e assistente social.
Em 12 anos, o ambulatório já atendeu 228 novos casos de pacientes. Deste número, em primeiro lugar estão os acidentes de trânsito; em segundo, as agressões com armas de fogo; em terceiro, os acidentes de trabalho em que estão incluídos os mergulhos em águas rasas.
O caso mais recente de atendimento no ambulatório é de um rapaz de 21 anos, que teve fratura medular ao mergulhar na barragem do Lago Igapó, há cerca de três meses. ‘‘Lá deve ter no máximo um metro de profundidade’’, diz Tamburus, que lembra que nas piscinas dos clubes é obrigatória a sinalização de profundidade. ‘‘Mas nos rios não tem isso, e por isso, a maioria dos casos no ambulatório é de pessoas da zona rural’’, explica o neurocirurgião. Para Tamburus, a necessidade de se aprender a nadar é essencial. ‘‘Você aprende que tem que pular com as mãos à frente da cabeça’’. Tamburus também lembra que é importante checar a profundidade do local, pulando pela primeira vez em pé, o que não causa danos à coluna cervical.
E como todo o cuidado é pouco com alguém que sofre um acidente de mergulho, o neurocirurgião adverte para os primeiros socorros. Para tirar o acidentado de dentro da água, ‘‘é preciso fazer isso em bloco, com a ajuda de várias pessoas e depois de colocá-lo em um local plano e duro, chamando rapidamente o atendimento médico’’, ensina Tamburus, que elogia o trabalho do Siate no Paraná.

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