Agonia e alívio
O encontro com Flávio (nome fictício), 20 anos, para a entrevista, aconteceu numa ensolarada manhã de inverno. Ele vinha cabisbaixo, meio que tropeçando pelo centro de Londrina, quando começou a falar. ‘‘Fiz o teste do H.I.V’’. O tom de desabafo e desespero se confundiam. Não é a primeira vez que Flávio enfrenta a escadaria do Centro de Saúde de Londrina. ‘‘De repente eu estava fazendo o exame’’.
O sentimento de derrotismo se apossou dos pensamentos do rapaz. ‘‘Se der positivo, minha vida vai virar de cabeça para baixo’’. Assim como ele, muitos daqueles que tomam uma injeção de coragem e resolvem fazer o exame sentem a nuvem pesada do pessimismo se instalar.
Na sala de espera da entidade, o constrangimento é visível naqueles que estão para fazer a entrevista e pegar o resultado do exame. As portas do imaginário se escancaram naquele ambiente. Não é a simples presença naquela sala que denuncia uma vida sexual desregrada e promíscua ou um apego desenfreado a drogas injetáveis. Mas muita gente que passa por aqueles bancos se sente assim. Isso é uma espécie de autoflagelação psicológica.
Desde o momento em que a pessoa decide fazer o teste, todos os sentidos ficam alterados. Com Flávio também. Sua visão dos acontecimentos tomou outra dimensão. Muitas vezes, ele nem ouve o que acontece ao seu redor.
O resutado do exame do rapaz ainda não saiu. Esses dias de espera serão de agonia, angústia e padecimento. Até findar esse prazo, ele vai viver de aparências. Não pode dar bandeira no trabalho, nem em casa. A pressão é muito grande, quase insuportável. Até o resultado sair, a vida vai passar como num filme.
Vinte dias de agonia Com José (nome fictício), aos 28 anos aconteceu um acidente. A camisinha estourou e bum!, o mundo desabou. Noites maldormidas, um cigarro atrás do outro e frequentes bebedeiras se tornaram rotina. Para ele, seu corpo estava sujo. A repulsa ao sexo se tornou crescente. Também com José, a sentença de morte estava declarada, mesmo antes de fazer o exame. Um sentimento de finitude se apossou dele.
Depois de transpor a barreira da escadaria do Centro de Saúde, José recorreu aos amigos para suportar existir. ‘‘Não foi fácil’’, desabafou. Um dia ele acordava sincero e dava lição de moral em todos. No outro, não falava uma palavra. Vegetava em função do resultado. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça... Não chegava o dia D.
Até que numa manhã gelada de agosto, José segurou o resultado. Unhas roídas e o tremor nas mãos denunciavam o nervosismo. Aos 28 anos, José foi ao fundo do poço e voltou. O teste de H.I.V. deu negativo. O mundo voltou ao seu ritmo normal. Sexo seguro virou obsessão. Mas a cada vez em que ele se rende aos prazeres do sexo, um terceiro elemento ocupa sua cama. É o fantasma da Aids que ainda ronda seus pensamentos. Como se livrar dele?

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