Aflições digitais
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quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Uma das notícias mais impressionantes da semana norteia ainda mais uma das grandes preocupações dos pais de crianças e adolescentes. É que foi divulgado que o Brasil se tornou, no final de julho, a maior comunidade do mundo de usuários do sistema de trocas de mensagens instantâneas da Microsoft. São cerca 30,5 milhões de brasileiros conectados ao bem-sucedido MSN - algo que significa que de cada quatro internautas do País, três têm um endereço de Messenger. E desse total, quase a metade tem entre 6 e 24 anos.
Não por acaso, o tal MSN tem destaque na pauta de discussões de pais e profissionais ligados à educação. No final da semana passado, a vinda do psiquiatra gaúcho Daniel Spritzer colocou o assunto ainda mais em evidência com a palestra ''Na onda dos adolescentes - MSN, Orkut e Second Life. Pais, o que fazer? ''.
Aos 29 anos, Spritzer não só é um dos pioneiros como também é um dos poucos no País a estudar o assunto com mais afinco. É coordenador do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas (Geat) e veio a Londrina a convite do Instituto Bio Brasil.
Já incorporado ao vocabulário tanto de estudiosos quanto de leigos, o termo adição é relacionado ao uso excessivo. Tanto que também se utiliza cada vez mais a palavra adicto para tratar do viciado, principalmente em jogos e internet (como muitas das palavras ligadas às novas tecnologias, os termos vêm do inglês, no caso, a palavra-chave é addict). ''Ainda não se pesquisou os resultados disso no comportamento de uma geração. Os estudos ainda são muito recentes'', explica o psiquiatra.
''O adolescente gosta dessa situação prazerosa, mesmo sabendo que vai ser prejudicial mais tarde. É importante que o adulto esteja por perto para dizer 'está um pouco demais''', ensina Spritzer. Na palestra, o especialista, que já abordou o assunto em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, costuma iniciar explicando porque os adolescentes se sentem tão atraídos pela troca de mensagens instantâneas, sites de relacionamentos e o mundo virtual paralelo.
''O adolescente tem fissura por novidades e por isso é atraído por elas. Há também a questão de se 'independizar' dos pais com a ajuda do grupo de amigos. E aí, o MSN dá acesso rápido e fácil a esse grupo'', diz. Para o psiquiatra, uma conversa via MSN ''não tem as ansiedades normais de um encontro cara a cara e isso o ajuda a se soltar'', avisa. Já o Orkut (site de relacionamentos que tem os brasileiros como maioria dos usuários) também ''auxilia na construção de identidade. Tem o jeito dele ser, além do status, conforme o número de amigos''.
Se para o jovem são apenas percebidas vantagens, especialistas como Spritzer sabem bem o quanto muitas horas em frente ao computador podem ser perigosas. ''Ele não treina a habilidade de relações interpessoais no mundo real. Também não tolera frustrações'', conta. ''Entre 5% a 10% dos jovens têm problemas no presente. O quanto isso vai gerar no futuro só mesmo acompanhando nos próximos anos'', avisa o psiquiatra. ''Os pais se preocupam, principalmente porque não entendem. Isso não existia na época deles'', diz Spritzer.
Para o psiquiatra, o papel dos pais é tentar se aproximar dos filhos. ''O diálogo ajuda a melhorar o relacionamento'', ensina. De acordo com o especialista, não é preciso impor limites logo de cara. ''Mas se o filho estiver tendo prejuízo, como piora no rendimento escolar, os pais precisam de uma atitude mais firme como negociar melhores notas e atividades físicas'', completa.


