Afinal, quem paga a conta?
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quinta-feira, 06 de março de 2003
Célia Polesel<br>Reportagem Local 
A mulher lutou muito para ter sua independência, mas isso também trouxe algumas desvantagens como a cansativa dupla jornada de trabalho, a eterna preocupação com os filhos, a divisão ou o pagamento total das contas. Será que homens e mulheres consideram esta última sinônimo de independência feminina?
Para a socióloga Ileizi Fiorelli Silva, 35 anos, a divisão de contas é, sim, uma conquista da mulher. ''Ela pode escolher a companhia, ficar junto somente de quem gosta e não de quem paga as despesas. Se não estiver satisfeita tem a possibilidade de ir embora, coisa mais difícil quando é dependente financeiramente do parceiro'', avalia. Ileizi diz que o fato de as mulheres ganharem menos que os homens, dado demonstrado em pesquisas, é um complicador, mas a cota maior que recai sobre elas não é financeira e, sim, a do trabalho doméstico que, muitas vezes, não é dividido.
Segundo a socióloga, trabalhar fora é um ganho, uma conquista. O fator complicador da divisão de contas é o abuso: quando o parceiro é aproveitador da situação tanto homem quanto mulher. Outra questão é a manutenção de valores machistas, um problema da nossa sociedade. De acordo com ela, tem aumentado a divisão de contas em todas as classes sociais. ''O problema é que a maioria dos casais não senta para fazer um acordo sobre o assunto, deixa a coisa correr. Quando acontecem as brigas, isso se torna motivo para ataques e, nas separações, acaba se tornando causa de ferrenha disputa, mesmo que os bens sejam poucos'', afirma. As pessoas não discutem a questão financeira porque relacionam o namoro e o casamento apenas ao amor e ao prazer, mas esse aspecto mais prático também precisa ser negociado.
O casal de namorados Lilian Koga, 31 anos, arquiteta, e Carlos Grade, 28 anos, marqueteiro, costuma dividir contas e até revezam os carros para sair. Para eles, a divisão de contas deve acontecer de forma espontânea. ''Não deve ser aquela coisa de dividir meio a meio, mas rolar de forma natural'', afirmam. Para Lilian, ajudar nas despesas é um ponto positivo porque trata-se da conquista da independência feminina, no entanto, ela faz um parêntese: todas as mulheres gostam de ser paparicadas, ter alguém que cuide delas e pague as contas, mas hoje a sociedade quase exige a divisão.
Grade acredita que o cavalheirismo pode ficar no abrir a porta, tratar a mulher como ela merece, em vez de pagar a conta. Ele conta que foi Lilian quem fez questão de dividir as despesas, o que ele achou legal, porque no começo do relacionamento o homem fica constrangido de falar no assunto. ''O legal é quando a iniciativa parte da mulher. Quando o relacionamento tem mais tempo, essa conversa ocorre de forma mais natural mas, no início, é difícil propor a divisão'', diz o marqueteiro. Segundo o casal, no namoro deles, às vezes, quem tem menos grana paga menos. A situação financeira, hoje, é complicada, por isso, não é certo só um pagar''. Nas viagens, eles também ''racham'' as despesas. A filosofia do casal é a seguinte:. ''Se a gente divide os bons e os maus momentos por que não dividir também as contas?''
O promotor de vendas Robson Ranieri, 33 anos, está sem namorada, mas sempre dividiu as contas com elas. Por considerar ''uma coisa normal'', já está acostumado à situação e nem precisa comentar o assunto elas sempre tomam a iniciativa de abrir a carteira. Mas ele acredita que, de vez em quando, é legal ser cavalheiro: convidar para jantar e pagar a conta cria um clima romântico. Para Robson, a situação econômica tornou a divisão de contas um hábito. ''As mulheres não querem ficar apenas em casa, e nem podem por causa do custo de vida muito alto'', observa. Ranieri acredita que o trabalho de casa também precisa ser dividido. Ele conta que mora sozinho e costuma limpar a casa. ''Quando eu me casar, pretendo dividir também o trabalho doméstico. Mas é claro que vai ser legal chegar em casa e ser recebido por minha mulher com um jantarzinho gostoso. Não por ser obrigação, mas para fazer um agrado''.
A relações públicas Fernanda Guerra, 29 anos, acha que a divisão de contas é legal quando os salários são equivalentes. ''Quando um ganha mais, deve se comprometer com as contas, seja o homem ou a mulher.'' Para ela, o trabalho de casa também teria que ser dividido. ''A mulher acaba sobrecarregada, pois todas as tarefas domésticas ficam para ela. O homem acaba ajudando somente naquilo que ele gosta, não no todo'', diz. Segundo Fernanda, é importante que, de vez em quando, os homens tomem a iniciativa e banquem o programa, pois isso cria um clima romântico na relação. ''A mulher se sente lisonjeada quando o parceiro toma a iniciativa e paga a conta do bar ou do restaurante.'' n


