O estilista mineiro Ronaldo Fraga diz que vida e morte são irmãs xipófogas. Quem ganha uma, recebe a outra, não há como escapar. Mas bem-humorado como ele só, tratou o assunto no seu desfile como uma festa no céu. Na moda, a vida e a morte se revezam em altíssima velocidade. Para os fashionistas, o verão 2006 é passado remoto. O inverno é mais ou menos o presente porque muitos já pensam mesmo é no próximo verão.
Quarenta e seis desfiles depois, a São Paulo Fashion Week apresentou seu outono-inverno nos tons fechados de preto, cinza e grafite. São nuances urbanas de asfalto e concreto. Mas a inspiração vem da Renascença e da era vitoriana. A cartela de cores é austera, às vezes melancólica. O contraponto vem da amplidão das formas, da generosidade dos volumes do balonê. Não só nas saias como nos shorts e mangas.
Em passarelas contrastantes, a SPFW também aposta no ''slim fit'', a modelagem ajustadíssima tanto para elas quanto para eles. As calças coladas no corpo são quase leggings. É a inspiração rocker que bate à porta do inverno. A jaqueta Perfecto se transforma até em micro-coletes. De lã, couro ou alfaiataria, o colete volta a aparecer e deve ser um dos resgates do guarda-roupa de inverno.
Os vestidos longos que tanto agradaram nos dias quentes vão seguir firmes no dias frios também. Mas quem gosta da praticidade da peça única pode pensar em encurtar o comprimento e aderir ao charme dos modelos na altura do joelho. O perfume retrô dos anos 1950 e 1960 embala a modelagem, que sobe e marca a cinturinha de pilão. Nesse caso, o vestido (ou a saia) tanto pode ser evasê ou mesmo a justa saia lápis.
O balonê 2006 é bem mais discreto do que o dos anos 1980. O que não impede as mangas se ''inflarem''. Laçarotes continuam dando seu toque romântico porque tanto as vitorianas quanto as roqueiras são apaixonadas. E também sabem ser sexies quando precisam. Em um país tropical como o Brasil, a brincadeira do esconde-e-mostra tem muita razão de ser no inverno. Como? Já que não faz tanto frio, o truque é usar peças levíssimas sob casacos com cara de pesados, austeros, mas não tão invernais. Trench-coats 7/8 aparecem como companheiros inseparáveis.
O preto volta em grande estilo e está presente em quase todas as coleções. Depois de muitas estampas orgânicas e psicodélicas, o xadrez também faz seu retorno e vem acompanhado de padronagens clássicas como a elegante combinação de preto-e-branco do pied-de-poule. Mas não se desespere quem não quer saber só de tons escuros. Há os que renegam o monocromático e avançam generosamente na cartela de cores. O laranja, o dourado e o azul são os que mais aparecem.
A jornalista Karla Matida viajou a São Paulo a convite da organização do evento

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