Adeus à mesada
Rosângela Vale
Enquanto parte dos amigos curte os embalos da adolescência, tempo em que as responsabilidades são mínimas e o futuro ainda pode esperar, eles arregaçam as mangas e pegam no batente. Resolveram intercalar os estudos com o trabalho e não sentem nem um pingo de saudades da época em que precisavam pedir dinheiro aos pais. Hoje, o gesto ainda se repete, mas só em situações de emergência.
Já perdi o costume, conta Luciana Rugila de Andrade, 17 anos, que desde os 13 frequentava com assiduidade o escritório de advocacia do pai. Bancava a secretária, lembra. A experiência serviu de base para a decisão sobre a carreira que pretende seguir. Mas o Direito anda junto com o Marketing nos seus planos. As noções práticas da profissão, ela está tendo desde o final do ano passado, quando o pai ampliou os negócios da família: abriu uma loja de roupas masculinas e colocou Luciana à frente da empreitada.
Responsável pela parte administrativa, ela dedica boa parte de seu tempo à tarefa, mas tem total liberdade para cumprir seus compromissos de estudante, que não são poucos. Preparando-se para o vestibular, Luciana faz diversos cursos de reforço. E paga tudo com seu salário. Dá para guardar bem pouco, diz. Com tanto corre-corre ela só chega em casa para dormir será que não pinta uma saudade de ficar estirada no sofá, curtindo um dolce far niente? Já acostumei tanto a estar fora que dá desespero ficar em casa, garante.
Rodrigo Pires, 17 anos, também não gosta de ficar parado. Aos 12 anos, já ajudava o avô em um estacionamento. Depois, virou o braço direito da mãe na escola de informática que ela abriu em São Paulo. Fazia os serviços de banco durante a semana e estudava computação aos sábados. Em pouco tempo, já dava aulas e ajudava na manutenção das máquinas. De volta a Londrina, conseguiu um emprego de office boy em uma farmácia, mas por pouco tempo. Suas habilidades com o computador foram logo percebidas e não deu outra: teve duas promoções em menos de dois anos.
Hoje, Rodrigo é auxiliar administrativo, prepara-se para o vestibular de Ciência da Computação e acha que ganha bem para a sua idade. Com R$ 400,00 mensais, banca suas saídas nos finais de semana e ainda financia uma casa, para a surpresa da mãe, que só ficou sabendo quatro meses depois de fechado o negócio. Mas dinheiro nunca foi a sua principal motivação. Quando trabalho me distraio, é como um hobby, define.
Mesma opinião tem Roberta Peixoto Silveira, 17 anos, que considera seu ofício de maquiadora um hobby com recompensa, pois já chegou a faturar R$ 300,00 em um só final de semana. Para ela, o maior barato de trabalhar não é apenas a relativa independência financeira, mas a sensação de saber que o dinheiro foi conseguido por mérito próprio. E também o gostinho de poder contribuir, vez ou outra, com as despesas de casa. Me tornei mais responsável porque hoje sei o valor do dinheiro, diz.
Interessada em pintura desde criança, Roberta nem imaginava que um dia transformaria a paixão em profissão e ainda por cima, de forma tão precoce, aos 14 anos. Quando minhas amigas vinham em casa, eu pedia para maquiá-las. Elas achavam que iam sair com cara de palhaças, mas acabavam gostando e me pediam para fazer a maquiagem delas em ocasiões especiais, lembra. O talento nato a tornou maquiadora oficial da fotógrafa Carmen Kley. Com o tempo, fui me aperfeiçoando. E o público, gostando, observa.
Desde então, Roberta vem maquiando noivas, debutantes, formandas e modelos em desfiles de moda. Um monte de gente pede para eu dar cursos, conta, com indisfarçável orgulho. Agora, ela se prepara para o seu primeiro emprego com carteira assinada: vai fazer parte do staff do salão de beleza paulistano Beka, que abrirá suas portas brevemente em Londrina. Trabalhando das 14h às 18h, dará continuidade aos estudos preparatórios para o vestibular de Direito. E até a formatura, não pretende largar seus pincéis.Aprendendo desde cedo noções de responsabilidade e profissionalismo, adolescentes descobrem no trabalho uma fonte de prazer
Fotos: Paulo WolfgangRoberta considera seu trabalho de maquiadora um hobby com recompensaJá acostumei tanto a estar fora que me dá desespero ficar em casa, diz Luciana, que comanda uma loja de roupas masculinas





