Adeus à menopausa
A terapia de reposição hormonal diminui os sintomas e previne doenças como o infarto e a osteoporose

Celina Alonso Az

Fotos: Marcos Negrini
‘‘Não é porque entrou na menopausa que a mulher deve, necessariamente, tomar hormônios’’, diz a médica Maria Beatriz AlbinoQuando nossas avós começavam a entrar na menopausa, as comadres suspiravam de solidariedade e diziam ‘‘Fazer o quê? É a velhice chegando. Coisas da idade’’. Só que a mulher às vésperas do terceiro milênio não tem mais essa postura de conformismo. Em vez de ficar resignada com a chegada do outono ao seu corpo, a mulher arregaça as mangas e combate ferozmente a velhice com exercícios aeróbicos, livros de auto-ajuda, cosméticos, e encontra na terapia de reposição hormonal sua forte aliada. Com ela, os sintomas da menopausa estão com os dias contados.
Há aproximadamente duas décadas, uma mulher de 40 anos era considerada quase velha. Hoje, aos 60 anos, muitas estão caminhando nos parques, nadando, trabalhando ativamente e, a cada dia, mais jovens e bonitas. A menopausa, considerada o pesadelo da maioria das mulheres - com sua chegada vinham também os ai-ai-ai da idade -, está sendo encarada de frente pelos especialistas. Em palestra durante o recente Congresso Brasileiro de Endocrinologia, realizado em Maringá, a médica Maria Beatriz Albino mostrou que a terapia de reposição hormonal está sendo cada vez mais aceita pelas mulheres.
O ginecologista Adilson Carlos Gomes alerta: ‘‘Reposição hormonal só com prescrição médica’’
A visão da Medicina mudou em relação à longevidade da mulher. Se antes ela caminhava para a senilidade aos 60 anos, hoje isso ocorre por volta dos 80, principalmente nos países de Primeiro Mundo. Atualmente, a mulher passa a viver mais um terço de sua vida após a menopausa, que acontece por volta dos 40/55 anos. Com isso, esta fase da vida está sendo mais valorizada e estudada pelos cientistas que buscam dar melhor qualidade de vida à mulher.
Hormônios A entrada na menopausa, realmente traz uma série de problemas, mas ao contrário do que ocorria no tempo de nossas avós, a terapia de reposição hormonal previne e acaba com a maioria deles. E o que é mais importante: nessa fase, a mulher perde muitos hormônios e fica mais propensa ao infarto e a osteoporose que a terapia hormo
nal previne. Ela funciona como fator de prevenção destas doenças e de todos os sintomas decorrentes desse período. Antes tratava-se a menopausa somente quando já existiam os sintomas, hoje nem se permite que eles apareçam.
Quando estiver entrando na menopausa, a mulher deve, como primeiro passo, procurar um ginecologista para fazer uma série de avaliações. Mesmo que não tenha os sintomas, deve fazer um controle para que não os tenha no futuro. Uma da grandes vantagens da terapia de reposição é de diminuir o risco de doenças cardiovasculares e da osteoporose. O organismo da mulher, com a queda do nível hormonal, e depois dos 40 anos, vai gradualmente ficando mais parecido com o do homem, ou seja, mais propenso ao infarto. Antes dos 40 anos, o risco cardiovascular é de 1,8 em cada mil mulheres. Depois da chegada da menopausa, esse risco sobe para 8,6 casos em mil. É que os hormônios fazem uma proteção do organismo da mulher também neste sentido.
Avaliação Mas, por mais benefícios que a terapia possa trazer, os médicos são categóricos. Antes de pensar em uma terapia de reposição, a mulher deve estar em dia com suas avaliações médicas, que devem ser frequentes - exames anuais de prevenção contra os cânceres de colo e de mama. Também deve-se fazer avaliações metabólicas (colesterol, triglicérides e glicemia) e ainda análise clínica do risco cardiovascular, em especial as obesas, hipertensas, fumantes e que levam uma vida sedentária. E também uma avaliação do risco de osteoporose - mulheres com histórico familiar, sedentarismo, tabagismo e dieta pobre em cálcio. A massa óssea que a mulher ganha na juventude vai sumindo rapidamente na menopausa. ‘‘Não é porque entrou na menopausa que a mulher deve, necessariamente, tomar hormônios. Se ela não tem estes fatores de risco e não tem os sintomas, apenas ficará sob observação médica’’, diz a médica ginecologista Maria Beatriz Albino.
Ela informa que 70% das mulheres que estão na menopausa se queixam dos sintomas mais comuns como calor intenso, irritação excessiva, dificuldade de se concentrar, distúrbios do sono, diminuição da lubrificação vaginal, que acaba dificultado e até provocando dores e desconforto no ato sexual, entre outros incômodos. Com esses sintomas a mulher fica insegura, com dúvidas na sua performance profissional e sexual, sentindo-se mais insatisfeita e emocionalmente instável.
Depois de todas as avaliações pode-se dizer se a mulher deve ou não iniciar a terapia. Um alerta da médica: esse tratamento é extremamente prejudicial, e por isso contra-indicado, a pacientes que tenham tido câncer ginecológico e de mama e ainda, trombose ou infarto agudos.
‘‘Já nos primeiros 30 dias de terapia - à base de comprimidos orais tomados diariamente, ou com selos adesivos (transdérmicos), a mulher já deixa de ter os sintomas. Pode ocorrer um desconforto nas mamas, similar ao causado inicialmente pela pílula anticoncepcional, mas diante dos benefícios, essa dorzinha inicial, segundo as pacientes, é quase imperceptível’’, informa Maria Beatriz Albino. Segundo a médica, a terapia melhora a qualidade de vida da mulher, torna o envelhecimento melhor e mais saudável. ‘‘Mas como cada caso é diferente do outro, e os hormônios interferem no organismo, a reposição exige um controle médico’’, adverte. Ela diz que o tratamento hormonal deve ser balanceado de acordo com as alterações no quadro da paciente e, por isso, é necessário o controle médico periódico.
Riscos Nos Estados Unidos, a reposição hormonal pode ser feita de outras maneiras, como através de um gel e outras substâncias. No Brasil, o preço do tratamento fica em torno de R$ 40,00 mensais (sem incluir os exames prévios nem a consulta médica). Por enquanto, quem utiliza esse tratamento no Brasil ainda são mulheres de classe média e mais esclarecidas, mas a tendência é a propagação. ‘‘Não há dúvidas que a falta de hormônios que ocorre na menopausa prejudica mulher’’, afirma o ginecologista Adilson Carlos Gomes. Ele explica que a saúde da vagina depende do hormônio que a jovem tem. ‘‘Na juventude, a parede vaginal é enrugada, elástica e espessa; na menopausa fica brilhante, fina e lisa. Por esta razão, a mulher está mais propensa a ter dores na relação sexual, e essas alterações aumentam risco de infecções’’.
Mesmo sendo favorável ao método, o médico faz um alerta. Ele diz que existem muitos interesses de fabricantes de hormônios e que, no futuro, se não houver controle, podem pôr em risco a saúde da mulher. Isto, caso a terapia seja difundida como a pílula anticoncepcional e acabe virando um modismo sem os devidos cuidados profissionais. ‘‘Os benefícios da terapia hormonal são indiscutíveis. Com o uso cada vez mais frequente pode haver uma diminuição do preço - a maioria desses medicamentos tem preço relativamente alto -, ocorrendo o risco de uso incorreto, sem prescrição e acompanhamento médico’’, adverte Adilson Carlos Gomes.
‘‘Não basta só usar e pronto. É preciso que a mulher - que nesta fase tende a se isolar da sociedade -, se integre e que tenha atividades que promovam a saúde, como natação, hidroginástica, dança, caminhadas. Ela precisa ter a certeza que ainda faz acontecer. O bem-estar provém de um conjunto de atividades que dão prazer e, consequentemente, saúde‘‘, diz médico.
Outro ponto importante é esclarecer àquelas mulheres que acham que somente a terapia vai transformá-las em Barbies do dia para a noite. Muitas delas, que ainda estão longe da menopausa, procuram médicos para fazer a reposição como se isso pudesse retardar seu envelhecimento, precocemente. Segundo o ginecologista, isso é falta de informação e pode trazer problemas no futuro.

mockup