A aura vanguardista que existe em torno da Semana de Moda não se justificaria se ela se limitasse a acolher apenas nomes que já despontaram no cenário fashion nacional. Por isso, nasceu o projeto Lab, que pretende ser um espaço para o lançamento de jovens talentos no mercado. A segunda edição do evento manteve os mesmos participantes da primeira e revelou uma boa evolução no trabalho de cada um deles.
O maior destaque foi Gisele Nasser, ex-assistente de Icárius, que hoje desenvolve a linha de tricô e couro feminino da Ellus. Prestes a abrir seu próprio show-room, ela apresentou um impecável trabalho de alfaiataria, com uma modelagem primorosa. Inspirada nos personagens femininos do escritor tcheco Milan Kundera, a coleção explora a fluidez dos recortes em ondas, emoldurando a silhueta com tiras de tecidos, que também aparecem como estampas no tricô.
Samuel Cirnansck, cuja maior experiência com moda foi na área de figurinos, buscou nos princípios da arte gótica da Idade Média e no movimento gótico dos anos 80, as referências para o seu inverno 2001, que tem pinceladas sado masô. O ponto alto são as belas estampas pintadas e bordadas artesanalmente. Já Erica Ikezili trouxe suas origens orientais para a passarela, apresentando um ótimo trabalho com o jeans, que ganhou nervuras e aspecto matelassê.
Único carioca entre a turma de paulistanos, André Camacho faz uma sátira aos programas de auditório infanto-juvenis da TV brasileira. Abusa das transparências em vestidos justos, inventa um terno Chanel masculino, mas o resultado mais parece um figurino de escola de samba.
Apresentando no evento a sua grife Superonic, Marcos Nasci explora o lúdico com uma coleção baseada nos uniformes de escolas tradicionais, nos filmes infantis de Hollywood e nas roupas dos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Jardineiras, estampas de toalha de mesa, gravatinhas de laço e saias volumosas sobre leggings são algumas propostas. Assumindo o tricô como especialidade, Emilene Galende – que já comercializa sua marca na Loja.com – faz misturas com o jeans, a malha e a sarja e abusa das estampas de correntes, gotas e fitas. A silhueta é justa, a mistura de cores é intensa, e as sobreposições ganham força.
Esses estilistas têm participação garantida na próxima edição do projeto Lab. Depois, o evento abre as portas para novos nomes, oferecendo toda a estrutura para o desfile e disponibilizando patrocinadores para as matérias-primas das coleções. Os demais custos correm por conta de cada estilista. A boa notícia é que o governo do Estado de São Paulo passa a apoiar o evento, com um programa de incentivo profissional aos criadores: o projeto SP Design, desenvolvido pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, em parceria com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). O apoio se estende também aos participantes da Semana de Moda.
* A jornalista Rosângela Vale viajou a São Paulo a convite da organização da Semana de Moda.

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