O que você faz quando tem dor de cabeça frequente? Provavelmente vai ao neurologista ou ao oftalmologista. E quando tem muita dor de ouvido? Procura um otorrinolaringologista. Para problemas de coluna? Uma visita ao ortopedista. Mas muitas vezes a solução para problemas de dores de cabeça, ouvido e nas costas está dentro da boca. Nesse caso, o especialista mais indicado é o dentista.
Isso porque, em grande parte das vezes, o responsável por todos esses incômodos é um distúrbio conhecido por Desordem Temporo-Mandibular (DTM). De acordo com a cirurgiã-dentista Elza Nakamura, a DTM é um funcionamento anormal da articulação temporo-mandibular, em que ossos, ligamentos, músculos da mastigação, dentes e estrutura de suporte dentário estão envolvidos. ''O que mais causa esse problema é a má oclusão dos dentes, que não se tocam corretamente e forçam o osso da mandíbula a se deslocar para compensar a mordida errada'', explica.
Alguns hábitos ruins também são responsáveis pelo desenvolvimento da DTM. Os mais comuns são roer unhas, mascar chicletes, morder objetos estranhos, dormir de bruços, bruxismo (ranger os dentes), apertar os dentes, trauma, e fatores relacionados ao estresse, depressão e ansiedade. ''A agitação da vida moderna é um agravante para o surgimento da DTM. Para aliviar a tensão, as pessoas acabam usando a boca e passam a ranger e apertar os dentes ou a fazer outra atividade maléfica para a saúde bucal'', afirma o cirurgião-dentista e diretor do Centro de Ensino e Pesquisa Odontológica, Pedro Sperandio Lopes Morales.
Como sintomas da DTM, Elza diz que o paciente pode passar a sentir dor de cabeça, dor de ouvido, zumbido no ouvido, dor ou cansaço dos músculos da mastigação, ruídos e estalos nas articulações, dificuldade de abrir a boca, dores no pescoço e nas costas e desgaste dos dentes. ''Quando a mandíbula se desloca, esse movimento compromete a musculatura de outros órgãos próximos, causando a dor. Mas nem todas as pessoas que têm DTM apresentam dor e precisam de tratamento. De acordo com a Academia Americana de Dor Buco-facial, as disfunções atingem até 80% da população, mas apenas 5% precisam de tratamento'', afirma.
O tratamento da DTM pode ser feito de várias maneiras, dependedo do grau de comprometimento e do motivo desencadeador. Segundo a especialista, o mais comum são a utilização de placas miorrelaxantes e aparelhos ortodônticos para correção da má oclusão. ''Também recomendamos técnicas de relaxamento e alongamento e orientamos o paciente para os maus hábitos. Em casos mais graves, pode-se necessitar até de cirurgia. Para definir o melhor tratamento, é necessário uma avaliação criteriosa com um profissional. Dependendo da causa da DTM, é possível recomendar o trabalho de outros profissionais, como psicólogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos.''
Elza lembra também da importância de se procurar um dentista o quanto antes, para facilitar o tratamento. ''Na maioria das vezes, o problema surge ainda na infância, mas as pessoas não percebem, porque as crianças têm uma grande capacidade de adaptação e não apresentam dor. Por exemplo, se uma criança que tem um dente torto, fazendo com que a mandíbula seja jogada para frente para compensar a mordida, esse osso vai crescer errado. Quando essa criança for adulta ela vai perceber o problema, que será mais sério para se tratar. A chupeta também deve ser permitida só até os dois anos e meio, porque pode comprometer a oclusão dos dentes'', alerta.
Segundo o cirurgião Pedro Morales, outro problema nos tratamentos da DTM é a desinformação dos dentistas e médicos. ''Muitas vezes os médicos recebem um paciente com DTM mas não sabem diagnosticar o problema para encaminhá-lo para o dentista. Até os dentistas que trabalham com ortodontia se esquecem de, antes do tratamento estético para alinhar os dentes, recomendar um exame de função da mordida. Apesar da disfunção ser bastante séria para a qualidade de vida, as faculdades não oferecem a preparação adequada dos alunos e o sistema de saúde pública não tem tratamento. Hoje vários otorrinolaringologistas e neurologistas encaminham seus pacientes para uma avaliação com o dentista, mas ainda precisamos avançar bastante'', comenta.

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