Ação mais eficaz
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quinta-feira, 08 de junho de 2000
Celso Mattos Enviado a São Paulo 
Os portadores de doenças inflamatórias crônicas conhecem muito bem os efeitos colaterais provocados pelos antiinflamatórios. Além de sofrerem com a patologia propriamente dita, são acometidos por problemas gastrointestinais tão graves que podem levá-los à morte. Entre essas enfermidades está a artrite, que consiste na inflamação das articulações, provocando dor, limitação de movimentos e deformidades. É uma doença que pode afetar crianças e adultos em qualquer idade.
O grande desafio dos pesquisadores era descobrir um antiiflamatório que atacasse a doença sem causar danos gastrointestinais ao paciente. Há um ano encontra-se no mercado o medicamento Vioxx, um antiinflamatório não-esteróide que é indicado para o tratamento de osteoartrite (forma mais comum de artrite), alívio de dor aguda e cólicas menstruais. O Vioxx vem sendo considerado pelos especialistas em gastroenterologia como o único antiiflamatório que não causa problemas gastrointestinais graves.
EstudoDurante a Digestive Disease Week, encontro anual de especialistas em gastroenterologia, realizado em San Diego, Estados Unidos, no dia 24 de maio e transmitido via satélite para a imprensa em São Paulo foram divulgados estudos realizados com oito mil pacientes que usaram o medicamento no período de nove meses. O estudo, denominado VIGOR (Vioxx Gastrointestinal Outcomes Research), mostrou que esta nova droga reduz em 54% os efeitos colaterais graves como, por exemplo, os riscos de úlceras, perfurações, obstruções e sangramento gastrointestinal.
Esta pesquisa mostrou que o Vioxx reduziu a probabilidade de efeitos colaterais, tais como úlceras e hemorragias decorrentes da lesão ulcerosa, afirma o médico Loren Laine, professor de medicina da Universidade da Califórnia e membro do comitê de revisão do estudo VIGOR. O risco foi reduzido em cerca de 50% em comparação a outros antiinflamatórios, acrescenta. Ele diz ainda que os efeitos colaterais gastrointestinais graves causados pelos antiiflamatórios não-esteróides são responsáveis por mais de mil hospitalizações e mais de 16 mil mortes anuais nos Estados Unidos.
Enzimas gêmeas A médica Claire Bombardier, professora de medicina da Universidade de Toronto e presidente do comitê de revisão do estudo VIGOR, explica que o Vioxx representa uma alternativa melhor tolerada aos antiinflamatórios tradicionais e com eficácia equivalente. Agora dispomos de um estudo controlado e consistente, mostrando que existe um antiinflamatório que, além de reduzir os casos de úlceras, evita em mais de 60% a incidência de sangramentos gastrointestinais graves, garante.
O médico João Carlos Brenol, professor de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e chefe do serviço de reumatologia de Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que participou do encontro com a imprensa em São Paulo, afirma que duas enzimas gêmeas são responsáveis pelo processo inflamatório: a Cox1 e a Cox2. A Cox1 funciona como protetora do estômago, intestino e função renal, já a Cox2 é responsável pela inflamação, dor e febre. Como elas são muito parecidas, acreditava-se que era apenas uma enzima. Sendo assim, quando o paciente tomava um antiinflamatório para inibir a Cox2, o medicamento bloqueava a atuação da Cox1, provocando os efeitos colaterais.
O especialista informou que só em 1991 descobriu-se que, na verdade, a Cox eram duas enzimas: uma boa e outra má. Com essa descoberta, que levou 20 anos, o desafio era encontrar um antiinflamatório que agisse somente sobre a enzima Cox2, deixando a Cox1 livre para proteger o estômago, o intestino e a função renal. É desta forma que age o Vioxx, por isso, seus efeitos colaterais são menores, diz.
FN27>Crianças João Carlos Brenol ressalta que o Vioxx não pode ser usado para medicar crianças com artrite. O uso desse medicamento em dose infantil ainda encontra-se em fase de estudo. Infelizmente, as crianças portadoras dessa doença ainda precisam tomar os antiinflamatórios tradicionais, sujeitando-se aos efeitos colaterais que os mesmos causam, destaca.
Segundo o médico Adil Samara, professor de reumatologia da Universidade de Campinas, a artrite é uma doença de origem desconhecida. Existe uma predisposição genética, geralmente, mais de um membro da família tem o problema. Ela não mata, mas incapacita, paralisa. Se não for controlada, a pessoa passa a depender de seus familiares até para escovar os dentes. Ele salienta ainda que as mulheres são mais acometidas pela doença. A porcentagem é de três mulheres para um homem.
Ao contrário do que muitos pensam, Adil Samara disse que a doença não é mais comum em idosos. A artrite é uma patologia do adulto jovem, entre os 20 e 40 anos. É preciso ficar claro que existem vários tipos de artrite, sendo que apenas algumas são mais comuns em idosos, como a artrose, por exemplo. Além disso, a doença também pode aparecer em crianças de forma ainda mais grave, diz o médico, ressaltando que é uma patologia que não tem como ser prevenida. Calcula-se que mais de 15 milhões de brasileiros sofrem de osteoartrite e quase dois milhões têm artrite reumatóide.
* O jornalista Celso Mattos viajou a São Paulo a convite do Laboratório Merk Sharp & Dohme.


