O que você, que é míope, acha mais fácil: acordar pela manhã superatrasado e, mesmo assim, enfrentar o rotineiro ritual de lavar e colocar as lentes de contato, sair de casa, enfrentar o risco de sentir que uma delas se deslocou e, muitas vezes, chegar às lágrimas com a entrada de um cílio ou poeira trazida por uma ventania inesperada? Ou você prefere colocar as lentes à noite, dormir tranquilo, retirá-las ao acordar e sair sem nada nos olhos, enxergando tudo?
Quem usa lentes e já passou pela primeira situação pode dizer sim à segunda opção muito mais cedo do que imagina, graças à ortoceratologia, técnica inovadora que permite o uso de lentes especiais à noite. Durante o sono, essas lentes provocam o aplanamento da córnea e, ao serem retiradas pela manhã, permitem 100% de visão. Antes de deitar repete-se a operação, uma espécie de ''cirurgia sem cortes'', com efeitos curativos momentâneos: basta suspender o uso das lentes para retornar ao quadro anterior.
O procedimento que elimina a miopia durante o dia dispensa incisões, mas não substitui a cirurgia de correção a laser, que é definitiva. Também não é tão simples assim, conforme explica o oftalmologista oftalmologista Nicomedes Ferreira Filho, presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, Córnea e Refratometria e professor na Universidade Federal de Minas Gerais. Ele esteve em Londrina no final do ano passado, num evento científico, onde falou rapidamente sobre a nova técnica e, agora, em entrevista à Folha da Sexta por e-mail, deu mais detalhes.
Indicações Introduzida há cerca de cinco anos nos Estados Unidos, Canadá e Austrália, a ortoceratologia foi implantada no Brasil pelo oftalmologista Orestes Miraglia Júnior, de Belo Horizonte. ''É um procedimento que envolve vários exames e atendimentos médicos para se obter bons resultados. Não se trata apenas de adaptação de uma lente de contato, como tem sido apregoado por pessoas não qualificadas em contatologia, geralmente ligadas a óticas'', afirma o professor, alertando que o método é limitado. ''Pode ser usado em pessoas com até -4,00 graus de miopia e no máximo até -1,50 de astigmatismo. Para altos astigmatismos e hipermetropia não há disponibilidade no momento, mas novas técnicas estão sendo estudadas para sua implantação nestes casos''.
Nicomedes Ferreira revela que a técnica hoje é indicada para pacientes que não toleram lentes de contato e não podem fazer a cirurgia a laser por algum motivo. ''Por exemplo, adolescentes cuja miopia ainda não se estabilizou e não podem fazer a cirurgia a laser, pacientes que têm medo de fazer a cirurgia de miopia ou aqueles cuja córnea é muito delgada e, portanto, o laser é contra-indicado''.
Conforto total Essas lentes são fabricadas com matéria-prima chamada XO, que possui alto grau de permeabilidade ao oxigênio. São muito confortáveis e fabricadas sob medida para cada cliente. Durante o sono, o paciente nada sente porque, com as pálpebras fechadas, não há toque nas lentes e o conforto é total. Devem ser usadas sempre, pois nesse procedimento não há cura definitiva da miopia, e o controle do tempo de uso deve ser feito pelo médico através de exames oftalmológicos periódicos. ''É um método absolutamente reversível; basta suspender o uso das lentes para retornar ao quadro anterior. Esta é a sua principal e grande vantagem''.
O desenvolvimento dessa técnica no Brasil depende muito da aquisição de aparelhagem especial, cujo prazo de entrega é demorado (em torno de 3 a 5 meses após a compra). ''Em Belo Horizonte já estão programados dois centros de ortoceratologia, cada um deles formado por vários colegas. Orestes Miraglia, que adquiriu a aparelhagem logo no início, já fez várias adaptações em Belo Horizonte com muito sucesso'', garante Nicomedes.
Além dos equipamentos importados, é necessário que o oftalmologista participe de cursos especiais. A empresa Mediphacos, de Belo Horizonte, que comprou da empresa australiana o direito de fabricar as lentes de ortoceratologia, oferece cursos regulares e só vende as lentes de contato para os oftalmologistas que já fizeram o curso. Recentemente, a empresa patrocinou um desses cursos durante o Simpósio da Associação Paranaense de Oftalmologia (APO) em Curitiba, ministrado por Miraglia que, na ocasião, realizou a adaptação ao vivo de três casos de clientes de Curitiba.
Em Londrina Se depender do oftalmologista William Procópio dos Santos, essa técnica deverá ser introduzida em Londrina nos próximos meses. Aparentemente simples, a ortoceratologia é, na definição do oftalmologista londrinense, um processo especial com algumas restrições ao paciente que se submeter a ela. ''Além dos limites de grau de miopia e astigmatismo já citados, o procedimento depende de cálculos prévios para verificar se a curvatura tem parâmetros adequados para receber as lentes, que são um pouco rígidas, mas muito confortáveis'', garante. Isso requer um acompanhamento médico no período de adaptação, para ajustar as lentes, que também precisam ser trocadas se houver aumento de grau, como qualquer outra lente.
A técnica é nova, utiliza equipamentos sofisticados, mas o princípio de aplanamento da córnea foi utilizado há mais de mil anos na China, como lembra William Procópio, que faz parte do corpo clínico do Hospital de Olhos de Londrina-Hoftalon. Segundo ele, os chineses com problemas de miopia dormiam com saquinhos de areia nas pálpebras para achatar a córnea e acordar com uma visão melhor''. n

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