A VIRILIDADE É AZUL
Da cor do céu e simples como uma aspirina, o remédio que devolve a potência sexual está garantindo o prazer ao homem
Rosângela Vale
Com o surgimento do Viagra, que já está sendo chamado de ‘‘a pílula milagrosa’’, um assunto delicado e ainda envolvido por tabus veio à tona, revelando a real amplitude do problema. A procura pelo medicamento superou as previsões e engrossou as estatísticas sobre a impotência sexual. O que antes era reservado às conversas em tom confessional nos consultórios médicos, hoje virou manchete constante nos jornais, acendendo a discussão em torno do que acontece - ou deixa de acontecer -, na cama de cada um.
O Viagra contribuiu para tirar os homens impotentes da redoma, ainda que parcialmente: segundo relatos de vendedores de drogarias nos Estados Unidos, ao comprar o remédio os clientes se justificam dizendo que se trata de uma encomenda para parentes ou amigos. Assumir a impotência é, em suma, uma ameaça à masculinidade.
Conversas sobre o assunto são difíceis até mesmo com os amigos. ‘‘O homem quase nunca admite que está com o problema, sente-se humilhado ao confessar para outro que falhou alguma vez’’, diz o funcionário público Augusto (nome fictício), 58 anos, revelando que a sua preocupação com o desempenho sexual já existia mesmo quando desfrutava do vigor da juventude. ‘‘Eu era assíduo frequentador das zonas de meretrício, e fazia parte da filosofia boêmia achar que se um homem não transasse duas ou três vezes por noite não era macho o suficiente. Ser bom de cama era a propaganda do homem entre as mulheres’’, conta. Quando completou 50 anos, e o problema se tornou real, ele passou a procurar formas de saná-lo.
‘‘Tomei ioimbina, um dilator de vasos sanguíneos, que só funcionou na primeira vez; também tentei a injeção de prostaglandina, aplicada no pênis, mas ela é tão doída que até perdi a vontade de transar. O melhor que já experimentei foi o supositório Muse, que deve ser introduzido na uretra, mas o custo é alto: R$ 60,00 cada aplicação’’, relata, garantindo que trocar de parceira não resolve o problema. ‘‘Transar fora de casa deixa o homem mais ansioso, com medo de ser pego em flagrante e com um temor ainda maior de não ter ereção’’, confessa.
Segundo ele, falhar na hora H destrói a auto-estima masculina. ‘‘O homem impotente se sente destruído, não tem disposição para nada, perde a vontade de trabalhar’’. Para Augusto, a melhor arma contra o problema ainda é a criatividade. ‘‘Certa vez, em um show no Canecão, Tom Jobim perguntou a Vinícius de Moraes, que completava 60 anos, sobre sua performance sexual, e ele respondeu: ‘‘Enquanto eu tiver língua e dedo, mulher não me mete medo’’. A mulherada aplaudiu de pé, como se dissesse: use o seu corpo, entre quatro paredes tudo é permitido. Portanto, eu não passo vergonha, sempre me viro. O problema é que a idade chega e contra ela não dá para lutar’’.
Contra-indicações Augusto ainda não experimentou o Viagra, mas o executivo Sérgio (nome fictício), 59 anos, já usa o novo medicamento há cerca de um mês, e está mais do que satisfeito. ‘‘Os outros remédios não são naturais. Com a prostaglandina o efeito é muito prolongado: às vezes a ereção se mantinha por cinco, seis horas; era muito desconfortável e desagradável. O Viagra é mais natural. Se você tomá-lo e não criar o clima, ele não faz nenhum efeito. É preciso ter o desejo, gostar da parceira’’, observa ele, que diz ter problemas apenas nas primeiras relações sexuais com as eventuais amantes. ‘‘Quando eu tenho um novo caso amoroso, a ansiedade atrapalha’’, justifica. Atualmente só é possível comprar ‘‘a pílula milagrosa’’ em importadoras mediante receita médica.
Augusto não contou para a esposa e nem para as outras parceiras que está tomando o Viagra, mas já se encarregou de repassar o remédio para vários amigos. Um procedimento perigoso, segundo o médico urologista Lauro Brandina, que alerta para as contra-indicações do medicamento. ‘‘O diagnóstico preciso é de extrema importância porque, apesar de poder ser indicado para pacientes com diferentes causas de disfunção erétil (termo técnico para a incapacidade de ereção), há os que não podem tomar o Viagra, como os cardíacos em tratamento com remédios que contêm nitratos e nitritos, e os que apresentam anemia fauciforme, mieloma múltiplo e leucemia: nestes casos, há o risco de priapismo, ereção prolongada que pode levar à lesão dos vasos do pênis’’, explica.
O Viagra também não é indicado para pacientes com doença de Peyronie, uma espécie de endurecimento em uma das camadas que envolvem os corpos cavernosos, formando

‘‘O homem impotente
se sente destruído,
não tem disposição
para nada’’
‘‘Não é aconselhável
tomar mais do
que uma dose
diária do Viagra ’’
’’


uma cicatriz no local (como consequência, no momento da ereção há um curvamento do pênis que dificulta e até impede a relação sexual). O urologista lembra ainda que o medicamento não tem efeito em homens com fibrose (cicatriz) nos vasos do pênis e nem em portadores de diabetes não controlado e de longa duração. ‘‘Muitas pessoas têm ligado para a minha casa pedindo a receita do remédio, mas só posso fornecê-la depois de um exame clínico’’, avisa Brandina.
No exame são verificadas as histórias clínica e sexual de cada paciente. ‘‘Quando se observa o aspecto sexual, uma das etapas mais importantes é saber se há ereções noturnas. Normalmente, o homem tem de três a cinco ereções durante o sono. Quando ele apresenta esse comportamento, já é possível dizer que não há nenhuma disfunção grave, porque os vasos do pênis estão suficientemente bons’’, esclarece.
Pecado Para entender os fatores de risco que levam à disfunção erétil, é importante saber como funciona o mecanismo da ereção. ‘‘Na forma natural, ela é iniciada no sistema nervoso central, ao receber estímulos psíquicos, táteis ou visuais que são encaminhados ao pênis, onde então são liberadas substâncias que dilatam as artérias do interior, aumentando a pressão e determinando a ereção. Quando o suprimento do sangue é crítico, e os vasos do pênis são comprometidos por alguma doença, a qualidade da ereção é afetada’’, explica Brandina.
Ao contrário do que se imaginava até a década de 60, a maioria dos casos de disfunção erétil tem origens orgânicas e não meramente psicológicas. ‘‘Em grande parte das vezes, elas não estão separadas, mas coexistem. A causa orgânica acaba desencadeando fatores emocionais que contribuem para piorar a situação’’, ressalta o médico. Segundo ele, muitas vezes o problema se resume à desinformação total sobre sexo, principalmente em decorrência de concepções religiosas, como por exemplo, a de que transar é pecado. ‘‘Observa-se isso principalmente nas camadas mais pobres da população’’, diz.
As causas orgânicas geralmente acometem indíviduos a partir dos 40 anos, manifestando-se de maneira progressiva: há o desejo sexual, mas o homem não consegue ter ereção. Já as causas psicológicas atingem pacientes mais jovens. Nestes casos, o problema costuma ser intermitente - algumas vezes há ereção e outras não -, e está associado à perda de libido. ‘‘A disfunção erétil tem aumentado entre os adolescentes por vários fatores da vida moderna, como
stress, excesso de valorização do sexo pela mídia e temor do desempenho sexual’’, observa o urologista.
Os principais fatores psicológicos que determinam a impotência são a depressão, a ansiedade, os problemas no relacionamento com a parceira, a perda da auto-estima e o temor de doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids. Entre os fatores orgânicos, os mais frequentes são o diabetes, principalmente o não controlado e de longa duração. Em um estudo realizado nos EUA, verificou-se que o diabetes é responsável por 40% dos casos de impotência física.
Ainda entre as causas orgânicas estão a hipertensão (e as doenças vasculares que podem ocasioná-la), as doenças neurológicas (trauma de coluna, comum entre os paraplégicos, derrame e alcoolismo crônico, que afetam a inervação peniana), além das doenças urológicas, das quais a mais frequente é a de Peyronie. Os medicamentos para pressão, tratamento de úlcera, antidepressivos e diuréticos também podem ser responsáveis pela disfunção erétil. O tabagismo é outro fator de risco que deve ser levado em conta, pois acentua problemas como pressão alta e doenças vasculares.
Processo mecânico Brandina salienta que apenas há oito anos descobriu-se a existência de uma substância chamada óxido nítrico, liberada no pênis a partir de estímulos sexuais e responsável pela dilatação das artérias. Com base nesses estudos é que se chegou às drogas atuais. Antes do advento do Viagra, já considerado o maior avanço da medicina no tratamento da impotência, as drogas mais utilizadas eram a papaverina e a prostaglandina, além das cirurgias e das próteses.
De acordo com o urologista, as cirurgias são pouco recomendadas hoje. Indica-se apenas para pacientes jovens, cujas artérias do pênis foram seccionadas em acidentes. A prótese peniana é o melhor recurso para aqueles pacientes que têm lesão irreversível nas artérias dos corpos cavernosos - cilindros por onde passa o sangue dentro do pênis, permitindo a ereção. E também para os homens que já tentaram, sem sucesso, outros tratamentos. ‘‘A prótese ainda vai continuar tendo o seu lugar no tratamento da impotência’’, afirma.
Atualmente, a prostaglandina é utilizada de duas formas: através de injeção, que deve ser aplicada no pênis pelo próprio paciente - conhecida comercialmente como Caverject -, e em minisupositórios introduzidos na uretra, comercializados como Muse. Ambos devem ser aplicados de 20 a 30 minutos antes da relação sexual. ‘‘Com esses métodos vai existir ereção, independentemente de estímulo sexual. Por ser um processo mecânico, muitos pacientes desistiam do tratamento. A esperança de todos era que surgisse um remédio que pudesse ser usado via oral, e que tivesse efeito somente quando houvesse o interesse sexual’’, relata Brandina.
Cautela Ao que tudo indica, as preces de milhares de homens em todo o mundo foram devidamente ouvidas - só nos EUA estima-se que 10 a 30 milhões de homens sofram de impotência. ‘‘O Viagra é eficiente em 77% dos casos’’, afirma Brandina, que 15 dias após o medicamento ser aprovado nos EUA (no início de março), já começou a receitá-lo a seus pacientes em Londrina. Vinte deles tomam o remédio atualmente, e a maioria se diz satisfeita com os resultados. Ele deve ser tomado uma hora antes da relação sexual e seu efeito dura até quatro horas. Mas o Laboratório Pfizer (que lançou a ‘‘pílula milagrosa’’), já anunciou o desenvolvimento do Viagra em pastilha, com resultado quase imediato: apenas dez minutos.
‘‘Os efeitos colaterais que os meus pacientes relataram foram congestão nasal, vermelhidão nos olhos e sensação de cansaço, (como se fosse um processo gripal), que desapareceram depois de algumas horas. Nos estudos feitos nos EUA, os principais efeitos foram dor de cabeça, diarréia, enjôo, dificuldade de diferenciar a cor azul da cor verde e queda de pressão’’, diz o urologista.
Apresentado em caixas de 30 comprimidos de 25, 50 e 100 miligramas, o Viagra custa cerca de R$ 380,00 em importadoras de São Paulo. No Paraguai está sendo
vendido em unidades: o preço de cada comprimido chega a R$ 17,00, mas há o perigo da falsificação. Em algumas regiões do Brasil é possível comprar o Viagra contrabandeado, através de classificados de jornais, com direito à entrega em domicílio. Oficialmente, o remédio só poderá ser comprado nas farmácias brasileiras a partir de junho.
Tamanha empolgação é justificável: a promessa de um desempenho sexual satisfatório e a reconquista da auto-estima parecem não ter preço para os homens. O médico, entretanto, recomenda bom senso. ‘‘Não é aconselhável mais do que uma dose por dia. E pacientes acima de 65 anos devem tomar doses menores’’. Para os que não têm o problema e querem apenas melhorar o desempenho sexual, Brandina adverte que há o risco de se tornarem dependentes psicologicamente, passando a ter ereções somente com o remédio.
Apesar de reconhecer a importância do novo medicamento, o urologista é cauteloso. ‘‘Nunca vai existir uma droga que trate todas as causas da disfunção sexual, mas nessa área o Viagra é o remédio que mais deu certo na história da humanidade. Ainda é cedo, entretanto, para tirar conclusões definitivas sobre o real valor do tratamento e suas consequências. É preciso um tempo maior de observação’’.

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