De um lado, aparelhos fantásticos que devassam o corpo humano e funcionam como vitrine de uma área da medicina preventiva que salva milhões de pessoas no mundo todo. Do outro, o alto índice de mortalidade causado pela sepse inflamação generalizada que afeta o funcionamento de vários órgãos e é a principal causa de morte nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).

No Brasil, estima-se que hoje 30% dos leitos de UTI sejam ocupados por pacientes com sepse grave, resultando em taxa de mortalidade que ultrapassa os 50%, enquanto a média mundial é de aproximadamente 40%.
Somente em 2003 ocorreram no País 398.325 casos e 227.045 mortes por choque séptico, números considerados abaixo da realidade, pois nesse levantamente não estão incluídos os óbitos fora dos hospitais. Mas já se sabe que o número absoluto da mortalidade supera os de infarto do miocárdio e até mesmo aqueles relacionados à Aids e alguns tipos de câncer.
Nos EUA, onde o acompanhamento é mais sistematizado, ocorrem 750 mil novos casos de sepse por ano, a um custo de US$ 17 bilhões com o tratamento e um índice de mortalidade próximo a 40%. Em outras palavras, no mundo todo, a sepse significa riscos demais, mortes demais e dinheiro demais para pouco resultado.

Campanha Dados superlativos como esses acabaram atraindo a atenção de profissionais da área de saúde sobre a necessidade de diminuir a taxa de mortalidade, através da padronização no tratamento da sepse em hospitais públicos e privados no mundo todo.

Nascia assim a campanha ''Surviving Sepsis Campaign'' (Sobrevivendo à Sepse), criada em 2002, durante o Congresso Europeu de Medicina Intensiva, com diretrizes de um grupo de especialistas de 11 organizações mundiais. A campanha chegou à America Latina em 2004, quando um grupo de médicos criou um órgão específico, o ILAS Instituto Latino-Americano de Sepse , sem fins lucrativos, para estudar a doença e disseminar a campanha entre as instituições e a população. O objetivo é diminuir a taxa de mortalidade em 25% nos próximos cincos anos. A participação dos hospitais é gratuita e a adesão, voluntária.

Até o momento, quatro hospitais chilenos e 19 brasileiros aderiram, sendo quatro do Paraná: Hospital Universitário de Londrina, Hospital Regional de Cascavel, Hospital do Trabalhador e Hospital das Clínicas, de Curitiba, que também fazem parte do Programa de Otimização do Tratamento da Síndrome Séptica (POTSS), lançado mês passado pela pela Secretaria de Saúde do Paraná.

Impacto Social ''Não é possível admitir que uma doença tão grave, que ocupa tantos leitos de UTI e provoque tantas mortes seja tão desconhecida'', disse o presidente do ILAS, Eliézer Silva, da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein e da Divisão de Cardiopneumologia do Instituto do Coração da USP, durante o workshop ''Impacto Social da Sepse no Brasil''. O evento, exclusivo para a imprensa, foi realizado dia 8, no Rio de Janeiro, e contou ainda com a presença de Álvaro Réa Neto, do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal do Paraná e diretor do Centro de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas; Marcelo Diniz e Rubens Costa Filho, coordenadores das Unidades de Emergência e de Terapia Intensiva do Hospital Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro.

Lançada no País no ano passado, a campanha ''Sobrevivendo à Sepse'' quer agora alcançar o maior número de hospitais, conscientizando profissionais de saúde, agentes governamentais e a população para um problema que nunca ganhou a repercussão que deveria, como acontece com outras doenças como Aids, câncer, insuficiência cardíaca, que têm o respaldo de campanhas periódicas e bem-sucedidas. ''No Brasil, cerca de 400 mil novos casos de sepse são diagnosticados por ano e a taxa de mortalidade pode chegar a 60%, enquanto que todos os tipos de cânceres somados atingem 450 mil casos'', revela o presidente do ILAS, Eliézer Silva, acrescentando que os gastos dos hospitais brasileiros com a doença atingem cerca de R$ 17 bilhões anuais, sendo R$ 10 bilhões com pacientes que não sobrevivem. ''Custa caro, sobrecarrega leitos de UTI, usa recursos extremos com resultados desanimadores devido ao alto índice de mortalidade'', analisa.

A lógica da campanha de ''sobrevivência'' é simples: seguir as orientações que incluem diagnóstico precoce, rapidez no tratamento, medicação adequada, entre outras 50 diretrizes básicas e universais, resultado do consenso de um grupo de especialistas internacionais em medicina intensiva. Em síntese, a receita do ILAS combina remédios potentes, condutas adequadas e maior rigor nos procedimentos.

* A jornalista Angela Raizer Barbosa viajou a convite da organização do evento

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