Basta ligar a TV para se deparar com as cenas do paraíso, ou pelo menos com um modelo de vida perfeito, onde tudo é belo e muito fácil. Roupas da moda, jóias, perfumes, carros e motos superpotentes. Dificuldades sociais, desemprego, falta de dinheiro até mesmo para comer, não existem na TV, a não ser no mínimo espaço dedicado pelos telejornais para notícias desse tipo.
Do outro lado da telinha, entretanto, a realidade é outra para uma boa parcela da população, quase que a maioria. E o que é mostrado diariamente na TV à população jovem como referencial de vida acaba se tornando um problema para os pais e uma frustração para os filhos.
A sociedade de consumo em que vivemos torna os adolescentes cada vez mais insatisfeitos e revoltados. ''Quando percebem que eles não podem ter tudo aquilo que vêem na televisão, se revoltam contra os pais'', diz a médica hebiatra Marília de Freitas Maakaraun, professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte, que esteve recentemente em Londrina para um evento sobre adolescência,
Mais que uma simples revolta doméstica, ''a diferença social'', de acordo com a médica, ''é o que gera a violência''. E, os números da violência, especialmente a que atinge a população jovem, são assustadores. De acordo com Marília, 78% das mortes de adolescentes entre 15 e 19 anos são provocadas por causas externas (homicídios, acidentes e suicídios).
Ela destaca que, ao contrário do que se divulga, os adolescentes pobres são os que mais sofrem violências. Já os jovens das classes média e alta são os que mais praticam a violência, na forma física e verbal. ''A violência não se articula com a pobreza, mas com as classes sociais. O pobre não reage porque aprendeu a ser escravo. Somos escravos de uma nação que nos explora'', enfatiza.
A mudança, na opinião de Marília, se dá a partir do momento em que reagimos e rejeitamos o processo. A reação, segundo ela, deve partir dos pais e da escola, desenvolvendo juntos valores contrários a esse modelo que nos impõe os meios de comunicação. ''Ao invés de atuarmos sobre esse modo de vida, devemos parar para refletir sobre ele. Será que é isso que sonhamos?!''.
Limites A psicóloga Rosely Sayão, em um artigo publicado recentemente no suplemento Folha Equilíbrio, da Folha de São Paulo, diz que a criança não vem ao mundo pronta para a realidade que irá enfrentar. Ela também afirma que cabe aos pais introduzi-la, aos poucos, a esse mundo que ''tem limites e regras, que exige espera para a satisfação dos impulsos, que provoca frustrações e que nem sempre permite que as pessoas tenham boa parte daquilo que está disponível para o consumo''.
O desejo de possuir, para ela, é saudável, desde que tenha uma ''medida da realidade da pessoa e de suas possibilidades'', exemplifica. ''Esse anseio, também não pode tornar-se o aspecto mais importante da vida da pessoa''.
É preciso, de acordo com Rosely Sayão, dar condições para que as crianças e adolescentes aprendam que a pessoa vale pelo que pensa, pela forma que se relaciona com os outros, com a vida, ''e não pelo que ela tem''. Ela admite que o estilo de vida adotado atualmente dificulta esse ensinamento.
A hebiatra Marília reforça que é preciso ter ''consciência do que ocorre com a gente para darmos um mundo melhor''. E a psicóloga também acredita que, mesmo com difuldades, os pais têm chance de ajudar o filho a crescer valorizando o que há de humano na vida. E, principalmente, que as crianças tenham espírito crítico para enfrentar os apelos da modernidade. n

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