A tradição acima de tudo
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quinta-feira, 17 de agosto de 2006
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Noivos que não se vêem durante parte da cerimônia, festas que acontecem separadamente para homens e mulheres, aulas obrigatórias para quem decide se casar. Parece estranho, mas todos esses costumes são parte dos rituais de casamento em diferentes religiões.
Em qualquer parte do mundo, seja na América, na Europa, na Ásia ou África, o casamento é criteriosamente planejado e importante na vida das pessoas. Mas a forma como ele acontece e as regras para o relacionamento homem-mulher mudam para católicos, judeus, muçulmanos, hindus ou evangélicos. Conhecer cada uma dessas culturas mostra que fundamental em todas elas é encontrar a melhor maneira de começar um bom relacionamento com o companheiro até que a morte os separe, independentemente da crença e do lugar onde se vive.
Cerimônia evangélica Muito parecido com o ritual católico, o evangélico é realizado com a presença do pastor e de duas testemunhas. A troca de alianças, leitura da palavra, conselhos sobre a vida conjugal e juras de fidelidade e respeito mútuos também fazem parte.
Ao contrário dos católicos, os evangélicos aceitam que pessoas divorciadas se casem na igreja. Mas é preciso que a pessoa tenha se divorciado antes de se converter para nossa religião. Jesus Cristo dizia Vinde a mim como estáis e isso significa que antes de conhecer a palavra a pessoa pode cometer erros, explica o pastor Gustavo Joseph Schick. Porém, depois do casamento na igreja evangélica não é permitido um outro casamento caso o primeiro se desfaça. Para dar entrada no casamento religioso, os noivos precisam também estar com o casamento civil marcado ou já feito. Dessa forma sabemos se a pessoa já não é casada com outra, explica. E se um dos noivos for evangélico batizado, não é necessário o batismo do parceiro.
Simplicidade muçulmana O casamento muçulmano é feito durante uma cerimônia rápida e simples. Mas tem regras de cerimônia e de conduta dos noivos durante a vida a dois. Para fazer o casamento bastam duas testemunhas, podendo ser realizado em qualquer lugar, afirma o sheik Yamani Abdul Nur Muhammad.
Na cerimônia é perguntado aos noivos se querem realmente se casar e se o pai da noiva permite o casamento. A leitura do Alcorão lembra ao casal a necessidade do temor a Deus. Depois acontecem duas festas, uma entre os homens e outra entre as mulheres, revela o sheik.
O rapaz pode se casar com uma jovem que não muçulmana desde que ela seja cristã ou judia, mas um homem não muçulmano precisa se converter para se casar. Isso porque é a mulher que segue o marido e é preciso que haja um entendimento de costumes. Quando as religiões são diferentes, a possibilidade de ocorrer brigas entre o casal aumenta, explica.
Não existe uma idade mínima para o casamento, e o namoro acontece na casa da moça sem nenhum contato físico entre o namorado. Eles podem namorar quanto tempo quiserem, mas para ter contato físico é preciso se casar primeiro. E nenhum dos dois é obrigado a casar com quem não quer, garante.
A poligamina é permitida para o homem, mas Muhammad lembra que no ocidente é muito raro acontecer. As pessoas aqui não entendem, mas são poucos os homens que se casam mais de uma vez, e em qualquer lugar ele só pode se casar com mais mulheres se tiver condições de cuidar bem de todas e se elas aceitarem essa condição, afirma o sheik.
Alegria hindu Conhecidos pelo colorido das roupas, os hindus comemoram com três dias de festas até a cerimônia final de união dos noivos.
Com a abertura dos países orientais, alguns costumes antigos começam a desaparecer até mesmo na Índia, país de origem, mas nas vilas e pequenas cidades elas se mantém. Alguns casamentos são arranjados, os pais escolhem alguns pretendentes e os filhos elegem o parceiro por fotografia. O encontro entre os noivos acontece alguns dias antes do casamento em uma reunião com as duas famílias e não é permitida a mistura de castas (classes sociais e religiosas indianas), diz a professora indiana Shubha Metha.
No primeiro dia de celebração, a família do noivo vai à casa da noiva presenteá-la com um sari (roupa típica indiana). No dia seguinte, é a vez da família da noiva retribuir a visita e o presente, neste caso, um terno. Em algumas castas existe um terceiro dia, em que a família da noiva vai jantar a do noivo. Depois do casamento, os pais da noiva não podem mais comer na casa dela, por isso se faz esse último jantar, explica Shubha. A cerimônia religiosa acontece sob uma tenda montada no local. Os convidados, que são muitos, ficam ao redor.
O costume diz que a noiva deve vestir vermelho, que é a cor da fertilidade. Depois dos mantras, ela amarra seu sari em um chale que o noivo carrega e os dois devem dar sete voltas ao redor de uma chama colocada entre eles, proferindo as palavras: amor, respeito, amizade, prosperidade, bondae, confiança e lealdade.
Obrigação judaica Para os judeus, o casamento é praticamente uma lei religiosa. Um judeu não pode ficar sozinho, ele precisa sair da casa dos pais e se casar. Deus criou o homem e a mulher para sua companhia, explica Abraham Shapiro, diretor do Centro de Difusão da Cultura e Religião Judaica para a América Latina.
Como o judaísmo considera que apenas a mulher pode gerar filhos judeus, a conversão feminina é necessária para o casamento. Shapiro lembra também da importância dos casamenteiros. São pessoas que se encarregam de unir pessoas e incentivar o casamento entre judeus. Mas nenhum é obrigado ou arranjado e a maioria dos casamentos hoje é monogâmico, garante.
Para a cerimônia, a primeira exigência é que ela se realize embaixo do huppá, espécie de cabana onde ficam os noivos, que chegam ao local acompanhados pelos pais. Num primeiro momento, a noiva dá sete volta ao redor do noivo segurando uma vela. Em seguida os dois lêem sete bençãos e o Ketubá, que funciona como um contrato de casamento que descreve as obrigações de cada um, diz.
Os judeus não costumam usar aliança, mas um aro é colocado no dedo indicador da mão esquerda da noiva durante a cerimônia. Para finalizar, o noivo bebe um cálice de vinho e quebra um outro cálice embrulhado em um pano. Essa quebra representa Jerusalém e a dor que nosso povo sente pela destruição da cidade, explica Abraham.
Terminada a cerimônia, é hora da festa, com muita música e comida. Mas seguramente o ritual mais conhecido pela população é a dança das cadeiras, onde os noivos dançam suspensos pelos convidados. É uma tradição que simboliza a elevação dos noivos, comenta.


