A teoria do Cascão
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quinta-feira, 02 de junho de 2005
Angela Raizer Barbosa<br> Enviada a São Paulo 
Uma criança descalça, suja de barro, ou um bebê engatinhando pelo chão, todo melecado, são imagens que assombram as novas gerações de pais, sempre preocupados em manter os filhos em ambientes assépticos e seguros, seja em casa ou fora dela. Esse comportamento, tão comum na vida moderna, está sendo questionado por especialistas que estudaram a relação entre a sujeira e a saúde das crianças e concluíram que o excesso de limpeza interfere no sistema imunológico, resultando em mais doenças, principalmente alergias.
Com o aprofundamento dos estudos sobre o desenvolvimento infantil, uma das teses mais aceitas hoje garante que o aumento das doenças respiratórias é reflexo da falta de imunidade, não adquirida no processo de formação do sistema imunológico da criança. Esse processo inclui a criação de anticorpos que permitam fortalecer o organismo contra doenças.
À primeira vista, até parece conversa de guru de auto-ajuda, mas não é, até porque antigamente era assim. E agora, a brincadeira ao ar livre, em meio à sujeira inofensiva, tão antiga quanto a história da humanidade, está sendo redescoberta. A teoria não é nova surgiu há 20 anos, no Reino Unido, com o nome de Hipótese da Higiene , e foi discutida no 2º Fórum de Desenvolvimento da Criança, promovido no mês passado pela Unilever, em São Paulo. Com o tema ''A sujeira que faz bem'', o evento reuniu profissionais de saúde e imprensa de todo o País.
Sujeira passada a limpo''Há evidências convincentes de que a maior parte das epidemias alérgicas, principalmente no mundo desenvolvido, é causada em parte pela falta de exposição a patógenos, especialmente em bebês. Isso acontece pelo fato de nossos ambientes estarem 'limpos demais' e nossos organismos terem sido sistematicamente 'higienizados' com o uso de antibióticos''. A afirmação é do psicólogo e pesquisador britânico John Richer, responsável pelo departamento de Psicologia Pediátrica do Hospital John Radcliffe, em Oxford. Convidado para abrir o evento, Richer já trabalhou com o zoólogo Niki Tinbergen, vencedor do Prêmio Nobel e co-fundador da ciência conhecida como Etiologia (estudo biológico do comportamento).
O Fórum contou ainda com as palestras do psiquiatra Içami Tiba, da pediatra e imunologista Ana Paula Castro e da assistente social Marilena Flores Martins, presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar (IPA).
Por que faz bem? Normalmente, a sujeira é vista como portadora de doenças, porém, segundo Richer, a maioria das bactérias não é realmente patogênica para os seres humanos. ''Mas algumas são. Podem ser encontradas normalmente no vômito, nas fezes e fluídos corporais, na comida estragada, no esgoto a céu aberto, no lixo hospitalar, nas doenças levadas por animais (ratos, por exemplo). Nesses casos, devemos manter as crianças distantes.''
Na opinião dele, sujar-se durante brincadeiras, esportes, jardinagem e outras atividades corriqueiras é saudável para o corpo e a mente, faz parte de uma vida integral em contato com o mundo real. ''Não estou dizendo: suje-se que é bom, mas, sim, desenvolva atividades em que possa se sujar dentro de limites seguros. Crie um antídoto para esse mundo virtual e higienizado em que vivemos'', enfatiza.
O psicólogo inglês lembra que as brincadeiras de rua praticamente sumiram do cotidiano infantil. Culpa a falta de segurança e o excesso de brincadeiras virtuais, no computador e no videogame. ''As máquinas fazem as brincadeiras e os playgrounds são tão seguros e limpos que se tornam chatos'', afirma.


