O terceiro milênio já chegou e, como se imaginava, trouxe uma evolução tecnológica sem precedentes na história da humanidade. Não vivemos propriamente no mundo dos Jetsons, mas já podemos entrar em qualquer museu do mundo sem sair de casa e falar com pessoas de todos os cantos do planeta pelo computador. Imagens de amigos distantes cabem no visor do celular e, nos hospitais, mãos de robôs substituem as dos médicos em algumas cirurgias. No guarda-roupa, entretanto, parece que pouca coisa mudou, já que a moda insiste em invocar o passado. Mas as aparências enganam...
A verdade é que as roupas não estão refletindo visualmente as grandes mudanças vividas hoje pela indústria têxtil. Uma verdadeira revolução silenciosa que já caminha a passos largos. ‘‘Os efeitos visuais continuarão a ser importantes, mas as maiores diferenças entre o guarda-roupa do passado e do futuro serão sentidas na pele’’, informou Nelson Favilla, consultor da Fibra DuPont, em uma palestra sobre fibras, tecidos e tendências de mercado e moda, realizada mês passado, em São Paulo.
De acordo com ele, as roupas terão que estar associadas a alguma função, principalmente de proteção contra os efeitos nocivos do meio ambiente, que devem se intensificar nas próximas décadas. Favilla explica que os fabricantes de tecidos terão que levar em conta uma série de fatores como o efeito estufa – a temperatura na Terra vai estar cinco graus mais alta em 2100, o aumento do buraco na camada de ozônio – as roupas virão com proteção contra os raios ultravioleta, e a escassez de água e energia – as peças deverão ser mais fáceis de lavar e secar. ‘‘O mundo vai começar a cobrar isso’’, profetiza.
Bem-estar Atualmente, o mercado já conta com produtos que trazem embutidas algumas dessas preocupações. É o caso do Tactel, marca mundial de poliamida de alta tecnologia, produzida e comercializada na América do Sul pela Fibra DuPont, uma joint-venture 50% nacional (do grupo Vicunha) e 50% internacional. Conforme explica Favilla, o tactel aero – usado principalmente na moda praia – possui filamentos ocos de modo que o ar funciona como um isolante térmico. O tecido conta também com sistema ultravioleta, proporcionando quase 100% de proteção. Outra característica do tactel é o baixo consumo de energia na lavagem, quando comparado ao algodão. O tempo para secar também é bem menor: oito minutos contra 120 minutos do algodão.
O tactel é ainda 24 vezes mais leve, seguindo uma tendência irreversível. ‘‘Apesar de terem várias funções de proteção, os tecidos serão cada vez mais finos e compactos, evidenciando a liberdade e o conforto’’, afirma o consultor. Para criar produtos com funções ativas, os pesquisadores da área têxtil contam com a técnica das microcápsulas, que possibilita a fabricação de tecidos antitranspirantes, antibactericidas e com outras particularidades, como a meia-calça com cápsulas de hidratante e as calcinhas com cheiros diferenciados. Ambos já estão no mercado. O primeiro foi lançado pela Açoflow e o segundo, pela Triumph.
Segundo Favilla, bem-estar é a máxima nos laboratórios têxteis atualmente e em breve será uma exigência do mercado. As roupas cada vez mais assumirão funções inimagináveis até há pouco tempo. ‘‘Tecidos com microships e microsensores, que possibilitarão o controle dos batimentos cardíacos, já estão em fase de pesquisa’’, informa.
Jaqueta high tech Mas não é preciso esperar tanto para apreciar os primeiros resultados da parceria entre moda e tecnologia. Pelo menos os europeus já podem conferir, ao vivo e em cores, um bom exemplo do que as vitrines exibirão nos próximos tempos. Trata-se de uma jaqueta que vem acoplada a um telefone celular e um Rush MP3 Player. Os dois aparelhos são ligados por um painel de controle instalado dentro do tecido, que pode ser retirado quando a roupa for lavada.
Todas as conexões são feitas por fibras do próprio tecido, que conduz a informação digital. O microfone é ligado ao colarinho, caixas de som estão no gorro e o teclado/display fica na manga. O lançamento da Levi’s em parceria com a Philips, foi batizado de ICD+ (Industrial Clothing Design Plus) e custa entre US$ 600,00 e US$ 900,00. É o primeiro produto do gênero que chega ao mercado em larga escala.
E no que depender da Levi’s – que compara a jaqueta high tech a sua maior invenção, o jeans – os chamados ‘‘trajes inteligentes’’ serão mesmo o futuro da moda. A empresa é uma das que mais investem no instituto de pesquisas Starlab, de Bruxelas, na Bélgica, patrocinado pela Nasa e responsável pelo desenvolvimento de roupas com funções especiais: monitorar batimentos cardíacos, gravar sons, armazenar imagens e até funcionar como um microcomputador.
Camada de ozônio Nas passarelas, os efeitos dessa revolução têxtil também já podem ser constatados. E nem é preciso atravessar as fronteiras tupiniquins. Na sua última coleção, Alexandre Herchcovitch apresentou peças sensíveis à radiação ultravioleta (raios UVA e UVB), que mudam de cor durante o dia conforme a luz que recebem. A idéia é que o tecido indique onde a radiação é mais forte e, portanto, prejudicial às pessoas, tendo em vista a destruição da camada de ozônio.
Não se trata propriamente de um tecido, mas de um beneficiamento. Para chegar ao resultado que queria, Alexandre contou com três empresas: a química para o beneficiamento foi desenvolvida pela Croma Microencapsulados; a Pettenati o aplicou na malha e a Werner, no georgette de seda. A coleção arrancou elogios da poderosa jornalista Suzy Menkes, do International Herald Tribune, que definiu as criações do brasileiro como ‘‘revolução têxtil’’. Nada mais natural para um criador de vanguada que já percebeu os sinais dos novos tempos.
Fonte: Texlínea (www.texlinea.com.br)

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