A responsabilidade dos pais
A responsabilidade dos pais
Dorico da SilvaSegundo a psicóloga Silvia Murari, antes de matricular um filho numa academia, é preciso que os pais pensem no contexto familiar e escolar dessa criança
Se um pai coloca o filho para aprender arte marcial com o objetivo de dar-lhe um instrumento de defesa diante da violência lá fora, ou mesmo para que pare de apanhar e chorar por qualquer coisa na escola, ou ainda porque o filho é agressivo e pretende-se canalizar essa agressividade, na opinião da psicóloga infantil Silvia Murari, docente do departamento de Educação da UEL, há um grande equívoco por parte deles. Se o filho é chorão ou agressivo, o que ele está precisando é que sua auto-estima seja melhorada. E não vai ser dessa forma que isso vai ocorrer. Diante da violência de hoje, esse tipo de atitude passa, inclusive, a ter uma conotação perigosa, explica Silvia.
Para aumentar a auto-estima do filho, antes de mais nada é necessário que os pais revejam o relacionamento que mantêm com essa criança. Há uma infinidade de coisas a ser feitas sem que se esteja estimulando ou instrumentalizando a violência. Conversar mais com o filho é uma delas; se for para colocar em alguma atividade, música ou escolinha de artes plásticas podem ajudar muito mais do que um esporte de luta, alerta.
Motivos errados Silvia questiona muito essa postura do tipo meu filho apanha e então tem que aprender a bater. Os bandidos lá fora estão usando fuzil AR-15, então todos têm que se armar de AR-15? Não adianta. Violência gera violência e não leva a lugar algum, avalia. Como mecanismo de fuga de sua responsabilidade, por falta de tempo ou de condições, os pais, muitas vezes, quando encontram algum problema no filho acham que precisam buscar soluções lá fora. Mas as soluções começam em casa, reavaliando, principalmente, as relações que se mantêm ali, às vezes com ajuda de profissionais, mas sem perder a idéia de que os resultados só podem ser obtidos pelas pessoas envolvidas, nunca por outros.
Para a psicóloga, é necessário ter consciência que cabe aos pais orientar e dar suporte emocional à criança para que ela possa desenvolver-se plenamente, com condições de enfrentar as dificuldades lá fora. Silvia lembra que o ser humano, em qualquer fase de sua vida, sempre vai estar sujeito a situações de medo, frustrações, humilhações, dificuldades diversas e até uma certa oscilação na sua auto-estima. A forma como saberá trabalhar ou não tudo isso dependerá, em grande parte, de como se deu o seu desenvolvimento emocional e psicológico, do amor e da relação que conseguiu estabelecer com seus pais na infância. As crianças que encontram essa base em seus lares, vão saber enfrentar muitas situações adversas lá fora, sem que lhes cause danos porque terão sempre um contraponto em casa, acredita.
O papel dos pais Por causa da correria e das próprias dificuldades que enfrentam no dia-a-dia, os pais acabam esquecendo do quanto é importante solidificar sua relação com os filhos. O quanto esses precisam deles. Esquecem também o quanto sua própria forma de ser e agir está servindo de modelo para os filhos. Se a violência existe, a preparação para enfrentar isso vem dos pais. É fundamental ter essa consciência. Não adianta buscar recursos lá fora, tentando esquivar-se da responsabilidade que cabe a eles, afirma Silvia.
A arte marcial, se for orientada por profissionais competentes, que respeitem a própria filosofia do esporte e saibam orientar os alunos sem incentivar a violência, é uma atividade física como outra qualquer, contribuindo com uma série de benefícios. Porém, segundo a psicóloga, antes de matricular o filho numa academia, é preciso que os pais pensem no contexto familiar e escolar dessa criança, e questionem se é o momento adequado.





