A razão do nosso desafeto
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Uma grande preocupação dos pais é ensinar seus filhos a se defender, a competir no mercado de trabalho, a ter sucesso e conquistar bens materiais. Atitude completamente compreensível em um mundo com cada vez menos oportunidades. Mas nessa corrida pela perfeição profissional, muitas crianças estão deixando de aprender algo básico das relações humanas: o afeto.
Segundo o psicólogo clínico e psicoterapeuta Ivan Roberto Capelatto, professor e autor de vários livros, entre eles ''Diálogos da Afetividade - O Nosso Lugar de Cuidar'', essa falta de afeto da sociedade em todas as suas esferas pode trazer consequências sérias. Mas também, de acordo com ele, ainda é possível ensinar às crianças e aos adolescentes a ter esse sentimento pelos outros e, dessa forma, viverem uma vida mais alegre e com menos drogas, violência e tristeza.
Capelatto esteve em Londrina para dar uma palestra para pais e professores e deu uma entrevista exclusiva para a FOLHA sobre como o afeto foi desaparecendo e de que forma podemos resgatá-lo.
Qual a diferença entre a afetividade que existia antigamente entre as pessoas e a que existe hoje? Diminuiu mesmo?
Capelatto -Bem, antes de mais nada é importante lembrar que afeto é uma mistura estranha entre amor e medo de perder o ser amado. O que existe hoje é que o medo ficou maior que o amor, e isso nos tornou mais descrentes quanto ao amor e nos tornou mais agressivos com o ser amado. O que diminuiu foi a crença que o amor pode tudo, vence tudo, como tínhamos antigamente. As gerações do presente se tornaram céticas, principalmente com a facilidade do ''ficar'', que torna o amor secundário.
As maiores mudanças se deram entre familiares ou entre estranhos? Um é consequência do outro?
Capelatto - Digamos que foi uma mudança que envolveu a tudo e a todos: envolveu a família, que hoje tem os pais se separando com facilidade; envolveu as instituições, como a igreja, a política etc.; envolveu os estranhos, pois é possível estar com alguém sem precisar saber quem é e, muitas vezes, sem saber o nome. A sociedade adoeceu tanto, que o afeto começou a ser tratado como algo pertinente ao sofrimento (amar alguém é estar condenado ao sofrimento).
Como os pais devem agir para ensinar e transmitir afetividade para seus filhos?
Capelatto - Mostrando aos filhos - sempre - os dois lados do afeto: o amor e o medo. Como se faz isso? Afeto é a maneira humana de apego. Nós nos apegamos pelo amor e pelo medo da perda, misturados sem medida certa: às vezes o amor é o elemento de maior peso e, às vezes, o medo-da-perda. O amor isolado, sem o medo-da-perda é aquele amor que sentimos pelo amigo, por Deus, pelos parentes (que gostamos) que vemos de tempo em tempo - é o amor da liberdade, mas o afeto é o amor que prende, que amedronta. Por isso é que brigamos tanto com as pessoas que dizemos que amamos.
A escola tem seu papel nessa função também? Um dos maiores problemas do ensino hoje é a violência de alunos com professores. Isso acontece por falta de afetividade nas crianças?
Capelatto - A escola passou a ser uma espécie de ''terceirização'' de cuidados, pois os pais passaram a imaginar que uma das funções da escola seria também a educação informal. Os alunos, que vão para a escola sem limites, quando recebem algum limite de um professor, diretor ou mesmo de um funcionário da escola, reagem agressivamente pois não estão ''acostumados'' a obedecer ordens. Sentem a escola como ''estorvo'' em seus prazeres e, o pior é que muitas vezes os pais os apóiam. Temos que inverter essa equação, pois a escola é a única e a última instituição que ainda pode nos ajudar a cuidar de nossos filhos; se a destruirmos, não temos substituto.
Como essa mudança na afetividade abala a vida das pessoas?
Capelatto - A descrença no afeto traz o empobrecimento nos vínculos e isso traz relacionamentos superficiais; assim, as pessoas não colocam, uma às outras, suas angústias, o que é sagrado no vínculo afetivo e, assim, adoecem. O vínculo afetivo é a forma humana de nos fazermos diferentes dos animais, de nos fazermos saudáveis, de nos comunicarmos de verdade. Sem o afeto, precisamos de álcool, drogas, remédios e mentiras.
A gente aprende afetividade só em casa ou em outros ambientes e com outras pessoas também?
Capelatto - Às vezes aprendemos a ser afetivos com os avós, com bons vizinhos, com os pais de amigos, com os pais da namorada ou namorado, com o chefe, com o amigo. Sempre há uma chance de termos, em nosso caminho, uma empregada doméstica afetiva que ensina o vínculo ou o jardineiro da escola que nos marca na infância com sua fala e sua atitude. Enfim, há muitas chances. Mas, hoje, essas gerações têm tido o azar de não darem muita chance às pessoas afetivas com quem convivem. Por quê? Porque já se contaminaram com a idéia de que ser afetivo é ser ''nerd'', é ser ''emo'', é ser ''babaca'' e outras agressões que, infelizmente, receberam por muitos meios. Precisam urgentemente de cuidados.


