A Páscoa na sala de aula
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quinta-feira, 08 de abril de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
A semana começou com uma notícia esclarecedora na fábula da escritora Ruth Rocha para a turminha do pré da Escola O Peixinho: coelho não bota ovo, muito menos de chocolate. ''Só a fábrica faz chocolate, eu vi na televisão'', conta Elora Cunha Maciel, 6 anos, com a frase ensinada pela ''tia'' na ponta da língua: ''Páscoa é vida nova''. Para Ihan Carlos Oliveira, também de seis anos, a função do coelho nessa história ficou clara. ''Ele leva o ovo para a casa das pessoas'', explica, mostrando o desenho inspirado no conto infantil que tinha acabado de ouvir.
Já para os alunos da segunda série do ensino fundamental, as aulas desta semana tiveram uma atividade extra por conta da Páscoa: ensaios para a peça sobre o significado da data, apresentada ontem na escola. Matheus Borreiro Sanches, 8 anos, interpretou Jesus Cristo crucificado. Sobre a razão da celebração mais importante do cristianismo, ele disse saber ''mais ou menos''. ''Não é só ovo de chocolate. É porque Jesus ressuscitou''. Seu colega de classe, João Felipe Guapo Pasquim, 7 anos, lembra de ter lido a história na Bíblia. ''E não tem nada a ver com ovo de chocolate'', concluiu.
Para entender essa relação, ainda sem sentido para João Felipe, é preciso saber que, no período anterior a Moisés, a Páscoa era um ritual que festejava a chegada da primavera entre os pastores nômades. E o ovo estava presente nos rituais de saudação à nova estação, como um símbolo de fertilidade e recomeço da vida. Já a tradição de trocar ovos vem de um hábito chinês.
Os orientais costumavam embrulhar os ovos naturais com cebola e cozinhá-los com beterraba. Ao retirá-los do fogo, ficavam com desenhos mosqueados na casca. Eram, então, oferecidos como presente na Festa da Primavera. O costume chegou ao Egito e, depois da morte de Jesus, os cristãos consagraram o hábito como lembrança da ressurreição e símbolo da Páscoa. Com o desenvolvimento da indústria de chocolate, por volta de 1828, os ovos naturais foram, então, substituídos pelas versões doces.
No Brasil, o coelho passou a ser associado aos festejos pascais só no começo do século 20, após a chegada dos imigrantes alemães ao sul ao País. A explicação é simples: por se tratar de um animal capaz de gerar grandes ninhadas, a sua imagem virou símbolo de fertilidade e da capacidade de a igreja produzir novos discípulos constantemente.
Reflexão A celebração da Páscoa tem a sua origem no Pessach, uma comemoração judaica que recorda a travessia dos judeus do Egito até a Terra Prometida, marcada pela passagem no Mar Vermelho, quando Moisés dividiu as águas. Com a ressurreição de Jesus Cristo, o significado da data passagem da escravidão para a liberdade ganhou um sentido mais amplo para os cristãos passagem da morte para a vida, das trevas para a luz.
Os alunos do ensino médio do Colégio Londrinense lembram que o momento pede reflexão sobre morte e vida, culpa e perdão, penitência e liberdade. E para motivar isso, montaram uma peça teatral, contextualizando a Paixão de Cristo aos dias de hoje. ''Foi nosso pecado que matou Jesus'', observa Fábio Ferreira, 15 anos, intérprete de um dos soldados que pregou Cristo na cruz. Mariana Prado Bravo, 14 anos, avisa que o pecado praticado hoje é o mesmo que causou a morte Dele no passado. ''Tenho que tentar pecar menos, sempre''.
A maior lição, para Diogo Arrebola Pereira, 17 anos, é a de que todo sofrimento encarado de frente será compensado um dia. ''A Páscoa é a vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e sobre a própria morte'', define Rodrigo Jacomini, reverendo da Igreja Evangélica Presbiteriana e capelão do Colégio Londrinense. ''Ele teve o único poder que os outros mártires não tiveram: o de ressuscitar'', argumenta.
Redenção, portanto, é um dos maiores significados da data. ''Cristo morreu por mim, para que eu fosse livre do pecado. E o sacrifício Dele hoje me dá vida em abundância. Isso significa que não preciso levar uma vida medíocre e infeliz, mas que posso viver de forma plena, fazendo tudo para o meu bem e para o bem das outras pessoas'', ensina o professor de formação cristã e autor da peça, Rodrigo Bernardi.
Ação Solidariedade. Esse foi o caminho encontrado pelo Colégio Marista para que os alunos descobrissem e vivenciassem de forma plena o sentido da Páscoa. Desde 1999, a celebração da data passou a ser uma atividade de inserção nas comunidades carentes. Alunos, ex-alunos, professores e pais passam os dias que antecedem a Páscoa alojados em escolas, centros sociais, salão paroquial e creches. Dormem em colchões espalhados pelo chão, dividem os poucos banheiros disponíveis e se alimentam modestamente.
Durante esse período, fazem visitas às famílias, promovem shows e atividades recreativas para as crianças, levam profissionais de diferentes áreas para dar noções de saúde, educação e cultura aos moradores e organizam as celebrações religiosas. Distribuem, ainda, alimentos doados pelos alunos do colégio. O grupo, renovado parcialmente todos os anos, já esteve em Barão de Lucena (área rural de Maringá), no Bairro União da Vitória, em Londrina, no Distrito de Irerê e em Lerroville. Este ano, Tamarana foi a comunidade escolhida. Desde a última quarta-feira, 45 pessoas estão no local. A programação se encerra hoje à noite, quando retornam a Londrina.
Quem já participou do projeto divide a vida em antes de depois da experiência. ''A gente se sensibiliza muito, vê que reclama de tanta coisa. Eles têm tão pouco e estão sempre sorrindo. Parece impossível viver daquela forma e ainda conseguem dar risada'', relata Gabriela Uschida Atahanazio, 16 anos, para quem a Páscoa é tempo de esperança e renovação.
Cidadania O contraste de realidades é o que mais costuma impressionar os alunos.''É chocante'', define Isabella Bandeira, 15 anos, que viajou ano passado achando que ia ensinar e descobriu que tinha muito a aprender. ''Por mais que nós pensássemos que eles nos achariam superiores, fomos acolhidos da melhor forma possível'', conta Mariana de Andrade Faria, 15 anos. Um dos aspectos mais importantes do projeto, segundo ela, é a valorização das pessoas da comunidade visitada. ''Elas se sentem importantes porque alguém se preocupa com elas''.
O ex-aluno André Gustavo Portieri, 17 anos, hoje estudante de Jornalismo e Comércio Exterior, participou três vezes do projeto e se lembra particularmente da visita que fez a uma família de cegos. ''Apesar das dificuldades, eles faziam tudo, parecia que a deficiência não era um problema. Me emocionei muito''. A vivência trouxe uma mudança de hábitos e atitudes. ''Penso duas vezes antes de dizer à minha mãe que o dinheiro não deu''.
Para Antônio Mazzei de Santana, não basta transportar a lição para a esfera do ''eu mesmo''. ''Através da comparação das realidades, se tem um novo juízo de valores, o que nos torna mais justos nas atitudes, mas isso deve extrapolar a esfera pessoal, pois vivemos em sociedade'', argumenta. O descaso e a desatenção com que esses distritos isolados são tratados foram os aspectos que mais chamaram a atenção de Antônio. ''A Páscoa é só mais um momento para lembrar da necessidade de mudanças'', diz.
Missão cumprida pelos idealizadores do projeto, já que o objetivo maior é o despertar da solidariedade para uma prática transformadora, contribuindo para a construção da cidadania por meio da metodologia do próprio Cristo, descrita em Lucas 24,13-35: Ele conheceu a realidade dos homens, ajudou a interpretá-la e, assim, deu novo sentido à vida.


