Médicos de todo o Brasil participaram recentemente, em Porto Alegre, do I Curso Avançado de Tratamento da Obesidade, evento que discutiu os tratamentos do excesso de peso no País. Mais de 200 substâncias têm sido prescritas para pacientes que procuram um tratamento médico para emagrecer. Entre elas, apenas sete têm alguma comprovação científica de eficácia. E entre as sete, somente duas são recomendadas como medicamentos de primeira linha no tratamento da doença. O uso de hormônios tiroideanos para tratar a obesidade é condenado de forma unânime pelas sociedades científicas de todo o mundo. No Brasil, entretanto, eles ainda têm sido frequentemente utilizados em fórmulas para emagrecer.
Cerca de 60% dos brasileiros na faixa etária dos 50 a 60 anos estão acima do peso saudável. Entre crianças e adolescentes, a obesidade também tem crescido de forma alarmante. Enquanto nos Estados Unidos ela aumentou 66% nas duas últimas décadas (15,4 para 25,6%), no Brasil o aumento foi de 240% (4,2% para 14,3%). Associações médicas calculam que a obesidade cause cerca de 300 mil mortes por ano nos Estados Unidos, 200 mil na América Latina e 80 mil no Brasil (20 vezes mais do que a Aids).
Contrastes Após constatar que a maior parte dos brasileiros com excesso de peso tem sido tratada de forma inadequada, o endocrinologista Walmir Coutinho, um dos maiores especialistas do País em obesidade, decidiu criar um curso para que profissionais de saúde de cinco capitais brasileiras tenham acesso a conhecimentos atualizados e referendados por consensos médicos sobre o tratamento da doença. ''A educação médica continuada é essencial para que se trate corretamente os pacientes obesos'', explica o médico, que é coordenador da Força-Tarefa Latino-Americana de Obesidade, que realiza campanhas para a promoção do peso saudável na América Latina, com a participação de sociedades científicas e ministérios de diversos países
''A obesidade no Brasil vive uma situação contrastante. Por um lado, somos um dos países mais avançados do mundo em medidas de prevenção da doença. Por outro, em relação ao tratamento, a situação é bastante complicada. Cerca de 80% dos obesos não fazem nada para emagrecer. E os que procuram orientação médica, na maioria das vezes, não recebem um tratamento adequado'', afirma Coutinho.
Hormônios Segundo ele, mais de 200 substâncias têm sido prescritas a pacientes que procuram tratamento médico para emagrecer. Entre elas, apenas sete têm comprovação científica de eficácia. E entre as sete, somente duas são recomendadas como medicamentos de primeira linha no tratamento da obesidade: o orlistat, comercializado com o nome de Xenical, e a sibutramina, presente no mercado brasileiro com os nomes Plenty e Reductil.
''Dentre as sete substâncias consideradas eficazes, três são inibidoras do apetite. Devido ao risco de causarem dependência, não têm sido mais indicadas e, inclusive, foram retiradas do mercado europeu há dois anos. Na América Latina, em razão da dificuldade de se adquirir medicamentos mais modernos, grande parte dos pacientes ainda usa essas substâncias'', conta.
Além disso, o uso de hormônios tiroideanos para tratar a obesidade é condenado de forma unânime pelas sociedades científicas de todo o mundo. No Brasil, entretanto, eles ainda têm sido frequentemente utilizados em fórmulas para emagrecer. ''Muitas vezes, o paciente ignora que está fazendo uso de hormônios nestas fórmulas'', alerta o médico. ''É uma aberração o uso até hoje nos tratamentos para emagrecer, de hormônios condenados há mais de 20 anos. Para que a pessoa perca peso rapidamente, fabrica-se outra doença, o hipertiroidismo''.
No Brasil, onde a obesidade cresce principalmente entre as camadas mais pobres, a grande maioria dos obesos não tem acesso aos dois medicamentos recomendados pelos consensos médicos. ''A obesidade há muito deixou de ser uma doença de rico. Um dos desafios das sociedades médicas hoje é lutar para que os avanços terapêuticos na área possam ser estar disponíveis para todos'', afirma.n


Mais obsesos aqui e lá fora

De acordo com Walmir Coutinho, o Brasil tem hoje cerca de 8% de homens e cerca de 13% de mulheres com obesidade, ou seja, com o Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30. Porém, aproximadamente 40% da população brasileira está acima do peso ideal, com IMC maior que 25, o que coloca o Brasil em sexto lugar no ranking mundial da balança. Na faixa etária dos 50 a 60 anos, os índices de sobrepeso no País sobem para 60%. Entre crianças e adolescentes, a obesidade também tem crescido de forma alarmante. Enquanto nos Estados Unidos ela aumentou 66%, nas duas últimas décadas (15,4% para 25,6%), no Brasil o aumento foi de 240% (4,2% para 14,3%).
Associações médicas calculam que a obesidade cause cerca de 300 mil mortes por ano nos Estados Unidos, 200 mil na América Latina e 80 mil no Brasil (20 vezes mais do que a Aids). A maior parte desses óbitos está relacionada a doenças cardiovasculares, uma das principais consequências do excesso de peso. Nos Estados Unidos, onde mais de 60% da população está acima do peso ideal, estudos recentes mostram que a obesidade já ultrapassou o tabagismo e o alcoolismo em número de mortes.
Estima-se que se gastem anualmente, em todo o mundo, cerca de 35 bilhões de dólares com o tratamento da obesidade e das doenças associadas. Nos países desenvolvidos, esses gastos significam de 3% a 10% de todas as contas da área de saúde. No Brasil, onde a prevalência de obesidade e de excesso de peso já é maior do que a de desnutrição entre as camadas mais pobres da população, estima-se que se gaste por ano quase dois bilhões de reais com o tratamento e as repercussões da doença.
As consequências do excesso de peso nas mulheres, vítimas preferenciais da obesidade, são inúmeras, incluindo disfunções do ciclo menstrual; diminuição da capacidade reprodutiva; aumento da incidência de diabetes, do colesterol ruim, dos riscos de infarto, de câncer de mama, do câncer de intestino e de câncer de útero. Sem contar os estragos que a doença faz na auto-estima e no psiquismo da mulher, que se sente menos atraente e passa até a ter menos relações sexuais.(Da Redação)

mockup