Marcos BorgesA fotógrafa Fernanda Magalhães acredita que o grande problema da nudez é justamente a questão do proibidoNo Canadá, recentemente, foi aprovada uma lei que garante às mulheres o direito de expor o peito nu ao público, assim como fazem os homens. Aproveitando esse gancho, o painel do ‘‘Fantástico’’, da TV Globo, realizou uma pesquisa instantânea com o objetivo de averiguar a opinião dos brasileiros sobre o assunto. O painel acusou que 60% dos pesquisados aprovam a idéia. Será isso mesmo?
O psicólogo Marcos Garcia não acredita que o resultado seja legítimo. A impressão, segundo ele, é que as respostas tenham vindo, principalmente, de homens ou, quem sabe, de cidades mais liberais como o Rio de Janeiro. Mas, dificilmente constitui a opinião da maioria. Afinal, um tabu não cai assim da noite para o dia. E a questão da nudez é um preconceito enraizado profundamente na sociedade.
A fotógrafa Fernanda Magalhães, que no dia 28 participará do Programa ABRA Coca Cola de Exposições 1997, na Universidade de São Paulo (USP), com ‘‘A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia’’, afirma que a conquista das mulheres canadenses parece uma coisa interessante, mas ela não sabe se seria uma adepta, caso uma lei idêntica fosse aprovada aqui. ‘‘Aderir ou não é outra história, o importante é a liberação. Acredito que o problema todo da nudez é essa coisa do proibido, do não poder fazer o que se quer com o próprio corpo. As pessoas relacionam muito a nudez com a questão do sexo e não tem nada a ver’’, diz. Autora de um trabalho que visa, através da fotografia, resgatar e produzir imagens de mulheres gordas e nuas, Fernanda acredita que o mais difícil da nudez é mesmo tirar a roupa.
Para a produção das fotos da exposição, selecionadas entre trabalhos de 600 inscritos do Brasil e do exterior, ela utilizou o auto-retrato com um dos recursos. ‘‘Isso aconteceu até porque é muito difícil encontrar mulheres gordas que aceitem pousar nuas. Para mim também foi um processo. Meu primeiro pensamento foi o que as pessoas iriam pensar. Me ver nua não me causa problema, tanto que quando estou sozinha em casa faço várias coisas nua, mas é diferente tirar a roupa para uma fotografia e depois expor’’, diz.
Fernanda conta que existem pessoas que gostam de ser fotografadas nuas e usam as fotos para guardar como uma lembrança de si mesmas. No entanto, expor é outro processo. Por isso, foi difícil encontrar modelos para seu projeto. ‘‘Só depois da exposição é que apareceram algumas pessoas interessadas’’, revela.
Segundo Fernanda, seu auto-retrato nu expôs muito mais do que sua nudez, revelou também um pouco do que é e o que pensa. Não foi uma apologia à gordura, como ela gosta de deixar claro, mas uma forma de assumi-la. E, ao contrário do que temia, o público foi bem receptivo. ‘‘Acho que quando um indivíduo se coloca muito francamente, ele se impõe, desmontando a reação das outras pessoas’’, acredita.

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