O modelo Henrique Dalvi, 19 anos, perdeu as contas de quantas vezes fez cenas de ciúme em público com a namorada Gabrielle Lombardi, 16 anos. Numa delas, nocauteou um rapaz, em pleno bar, só porque ele estava olhando para ela. Em outra, atirou para longe a aliança de compromisso depois de uma discussão. As intervenções no guarda-roupa da garota eram mais do que frequentes. Minissaia, nem pensar. ''Na praia, eu tinha que ficar de shorts porque ele não me deixava usar biquíni'', lembra Gabrielle. ''Se eu via algum cara de olho nela, ficava louco. Pensava: ela é minha, ninguém pode olhar'', justifica Henrique.
Gabrielle não aguentou a pressão.''Eu dizia que ele tinha que confiar em mim, mas não adiantava''. O casal ficou separado por cinco meses e nem assim ela teve folga. Certa vez, ao se encontrarem na boate, Henrique a levou para a mesa e não queria que ela saísse dali por causa do comprimento da saia. ''Ele me puxou tanto que minha perna ficou roxa'', conta Gabrielle.
As coisas começaram a mudar quando Henrique percebeu que poderia não ter mais a amada de volta. ''Emagreci demais, fiquei doente. Quanto mais eu a procurava, mais ela me esnobava'', relata. Juntos de novo há um mês, ele garante que aprendeu a lição, embora reconheça ainda ser ciumento. Ao contrário de Gabrielle, que procura levar numa boa o assédio causado pela profissão do namorado, ele diz que não suportaria a situação inversa. ''Não sirvo para namorar modelo''.
Fantasias Henrique não pode se considerar curado, mas está no caminho certo, já que ter consciência sobre o ciúme é o primeiro passo para controlá-lo e, assim, poder conviver (quase) pacificamente com ele. Infernal para quem é vítima e não menos penoso para quem o sente, o ciúme tem graus diversos de intensidade e raramente deixa de constar no repertório emocional de uma pessoa. O filósofo Roland Barthes conseguiu definir com clareza as agruras desse sentimento ao escrever: ''Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e principalmente por ser comum''.
Sensação dolorosa que o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade fazem nascer em alguém, o ciúme é como um bom vinho: estimulante em pequenas doses, devastador quando leva à embriaguez dos sentidos. Um bom exemplo desse alto teor destrutivo é a história da personagem Heloísa, intepretada por Giulia Gam na novela ''Mulheres Apaixonadas''. Torturada pela própria imaginação, sentindo-se constantemente ameaçada pelas fantasias de traição do marido, ela acabou com o casamento e quase com a própria vida.
Para o psicanalista Antônio Mauro Osti, não existe ciúme benéfico, por menor que seja. ''Se a expressão tempero do amor couber para o ciúme, certamente seria para expressar a pimenta muito ardida, intolerável para a maioria'', define. Mas seria possível um relacionamento totalmente desprovido desse sentimento? De acordo com Osti, entre sentir e fazer algo sobre isso há um longo caminho. ''O que é patológico não é o ciúme em si, mas como ele aparece na relação. O importante é que a pessoa consiga ficar com essa interrogação em suspenso e não desenvolva nenhum outro sentimento; que seja capaz de observar, pesquisar e conhecer melhor o outro'', ensina.
Posse De acordo com o psicanalista, a insegurança relacionada à condição de desamparo que o ser humano experimenta ao nascer é uma das bases do ciúme. ''Nós, humanos, ficaríamos absolutamente sem condições de sobrevivência sem a função materna. A nossa insegurança é tão impossível de ser tolerada que imaginamos que a mãe é parte de nós mesmos, num processo de identificação primária. Com as frustrações da vida e, graças a Deus, com a interferência do pai, a pessoa vai compreender que a mãe existe como uma alteridade, como outra pessoa'', explica.
Caso esse processo seja comprometido (por superproteção da mãe ou outras falhas afetivas), a pessoa pode acabar desenvolvendo relacionamentos extremamente adesivos. ''Assim é que o ciumento tem medo de ser abandonado. Ora, como é que se pode falar de abandono senão em uma relação de dependência? Um bebê pode ser abandonado pela mãe e isso é uma tragédia, mas um amante amadurecido vai apenas deixar de se relacionar com sua amada'', argumenta Osti, lembrando que o maior problema é o abandono de si mesmo, ou seja, a perda da auto-estima, quando a pessoa coloca, de modo excessivo, suas coisas boas no parceiro, fazendo-o idealizado. ''Essa forma de amor é duvidosa, pois se está amando a si mesmo (aquilo de si que foi depositado no outro). Como diferenciar isso de narcisimo?'', questiona o psicanalista.
Surge, assim, a questão da posse. ''Ponho as minhas coisas no outro não só para torná-lo maravilhoso, mas para controlá-lo'', observa Osti. Em alguns casos, o narcisismo é tanto que se cria um delírio de grandiosidade difícil de ser tolerado. São pessoas que têm ciúme até mesmo do passado do outro, pois não toleram nada que tenha existido antes delas. ''É algo mais ou menos assim: se ela nasceu para mim, como pode ter uma vida anterior?''.
Tratamento, segundo ele, é fundamental, pois as consequências do ciúme sem controle podem ser terríveis, como se constata, frequentemente, nas páginas dos jornais, com os chamados crimes passionais. ''Estamos vendo a toda hora coisas terríveis em nome do amor. Amor entre aspas, porque não existe amor que mata. Amor é vida. Mata-se em nome da posse, não do amor'', esclarece o psicanalista. n

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