A mulher do pai: uma relação delicada
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quinta-feira, 16 de julho de 2009
Erica Shimamura<br> Reportagem Local<br> Fabiana Caso<br> Agência Estado 
Se o homem da sua vida já tem filhos, prepare-se psicologicamente. A madrasta - ou, simplesmente, a ''namorada do pai'' - cai numa teia de relações delicadas. Convive, pelo menos a cada 15 dias, com crianças que não são seus filhos. E pode cair em armadilhas de agir como a mãe, ser tragada pelo ciúme das crianças ou da ex-mulher. E costuma sofrer com o preconceito da sociedade. Ou seja, os desafios não são nada pequenos.
Para a professora Ciça Guirado, de Londrina, assumir uma família e o papel de madrasta simultaneamente não tem sido uma tarefa fácil. Seu marido tem duas filhas adolescentes do primeiro casamento: Julia, de 14 anos, e Amanda, de 11. Como as meninas perderam a mãe há três anos e meio, o processo de adaptação às novas dinâmicas tornou-se ainda mais delicado depois do início do namoro. ''Ainda é difícil para todos nós. Mas agora estamos começando a nos assentar. Elas me respeitam muito'', conta.
Hoje, o relacionamento com o marido não pode ser visto separado das garotas. ''Ao me relacionar com ele, ganhei duas filhas. Eu assumi uma família'', revela. Ciça está com 50 anos e não teve filhos. Como jornalista, doutora em Estudos Portugueses/História da Comunicação e professora universitária, antes do relacionamento levava um estilo de vida bastante diferente, a começar pelo fato de morar sozinha. Desde agosto do ano passado, os quatro passaram a dividir o mesmo teto. A mudança do interior de São Paulo a Londrina também pode ser somada aos desafios enfrentados pela família no curto período de tempo. ''A troca de cidade foi complicada. Estamos passando por um processo de reconstrução, que é muito trabalhoso, mas tem muitos prazeres também'', conta.
Apesar de estar no 'meio do furacão', Ciça tem consciência da responsabilidade que assumiu. Além de dar aulas duas vezes por semana em Marília, interior de São Paulo, ela cuida da nova casa em Londrina e da educação das enteadas. ''Faço o possível para ajudá-las. Na educação, com as tarefas da escola e no contato com cinema e teatro, ou distribuindo tarefas domésticas. Quero prepará-las para a vida'', reflete.
Mágoa eterna
A filósofa, professora e acadêmica Fernanda Carlos Borges, de 41 anos, é autora do livro ''A Mulher do Pai'' (Editora Summus). Depois de se separar, passou a ouvir comentários do filho sobre a nova namorada de seu ex-marido e, no segundo casamento, iniciou a convivência com os filhos do atual companheiro. Foi o começo da reflexão sobre esse curioso papel. ''Embora você vá conviver com as crianças no ambiente íntimo da sua casa, ninguém sabe se você faz parte da família ou se é parente delas'', comenta. ''A mulher do pai acaba ocupando um lugar marginal: está na família, mas não pertence à ideia de família.''
Rivalidade com a ex-esposa complica ainda mais a situação. ''A relação com a ex será difícil na maioria das vezes. Ela não se conforma que o ex-marido não está mais tão disponível e entende que é a nova mulher que o afastou ainda mais. Isso provoca uma mágoa eterna'', acredita Fernanda. ''E também vai exigir que a mulher do pai seja superlegal com os filhos dela, mas não perdoará se houver uma aproximação afetiva ou, pelo contrário, se ela der uma bronca nas crianças.''
Os dois lados
A terapeuta familiar Roberta Palermo, de 39 anos, já teve madrasta e ocupa essa posição pela segunda vez. Escreveu dois livros sobre o assunto - o mais recente é ''100% Madrasta'' (Integrare Editora) -, criou a Associação das Madrastas e Enteados (AME), é moderadora de um agitado fórum de discussões em seu site (www.robertapalermo.com.br) e promove encontros mensais entre as mulheres. ''Trabalho para que as pessoas vejam esse papel com outros olhos'', justifica. Segundo ela, nunca se deve falar mal da mãe das crianças, por pior que ela seja, nem cair no erro de se sentir mãe. E, nas situações em que a criança está se comportando mal, deve-se comentar com o pai de forma diplomática, para que ele a eduque.
Quando Roberta tinha 13 anos, seu pai se casou novamente. A partir daí, a relação dela com a madrasta nunca foi boa. ''Ela tinha ciúmes de mim. Falava para eu sair de perto do meu pai e quis até cortar meu curso de inglês'', lembra. ''Fomos nos estressando cada vez mais. Discutíamos muito e meu pai ficava no meio.''
Mais tarde, Roberta apaixonou-se justamente por um homem recém-separado, que já tinha filhos do primeiro casamento - Lucas e Amanda, na época, crianças pequenas. ''Parti do princípio de que não teria ciúmes, nem das crianças nem da ex-esposa, e que nunca as trataria mal. Também queria que soubessem o quanto eram queridas pelo pai.'' Inventava passeios para os pequenos, ou atividades prazerosas em casa. Mas logo percebeu os desafios. ''É muito comum as crianças falarem da mãe, e querer validá-la.'' Recorda-se de uma vez em que caprichou bastante no almoço, e Lucas logo disse que a lasanha da mãe dele era muito mais gostosa. ''Temos de pensar que nós é que somos os adultos. Nessa situação, sorri e acrescentei: Ah, que bom, e o que sua mãe faz mais de gostoso?''
Também é comum as crianças mentirem sobre fatos ocorridos enquanto estavam acompanhados do pai e da madrasta. ''Pode acontecer depois de um fim de semana perfeito. Quando voltam para a casa da mãe, dizem que foi muito chato. Ou até que foram maltratados'', explica Roberta. ''No fundo, a criança sempre quer que os pais voltem a se relacionar. E se chegar elogiando seria uma espécie de traição à mãe. Isso cria mal-entendidos enormes.'' Ela própria já viveu essa situação na pele, mas contou com a maturidade da mãe de seus enteados, que ligou para o ex-marido e descobriu que era uma mentira do filho. ''Esse procedimento é raro por parte das mães, o mais comum é validarem a versão de que o casal está maltratando os seus filhos.'' Hoje, o enteado Lucas mora com Roberta e o pai, e todos mantêm um bom relacionamento.
Manual de convivência
A terapeuta familiar (e madrasta) Roberta Palermo dá algumas dicas para manter as relações saudáveis:
Às madrastas:
- Aprenda a lidar com o ciúme, caso esse sentimento apareça
- É importante se interessar pela vida da criança quando ela estiver com o pai
- Você nunca será a mãe da criança, apesar de ter atitudes maternas
- Nunca fale mal da mãe da criança. A etapa do namoro existe para que avalie a situação. Se descobrir que não consegue conviver com esse passado, o ideal é terminar a relação.
Aos pais:
- Não aceite chantagens da ex. Ela não é dona da criança só porque tem a sua guarda
- Imponha regras e limites para o enteado seguir dentro de sua casa, mesmo que seja a cada 15 dias. A criança espera que o pai também a eduque
- Combine as regras da casa com a madrasta antes de falar com as crianças
- Deixe claro que é assim que quer que aconteça, mesmo quando estiver ausente
Às mães:
- Não fale mal da madrasta e do pai para a criança
- Não use a criança para atacar o pai dela
- Não suma com a criança nos dias de convivência com o pai
- O casamento com esse homem pode ter sido horrível, mas ele é o pai
- A criança precisa da participação dele na sua vida para crescer feliz


