A morte não é uma derrota
Sempre que se discute o respeito à autonomia do paciente acaba-se esbarrando em outro ponto polêmico: o médico deve contar à pessoa que ela é portadora de uma doença incurável? Para o cardilogista José Eduardo Siqueira, isso não é tão simples. Nesse caso, ocultar a verdade e montar, com o auxílio dos familiares, um teatrinho para esconder o fato é marginalizar o paciente. O médico que age desta forma está tratando o ser humano como um meio e não como um fim porque não está respeitando a dignidade dele.
Apesar da firmeza desta declaração, o cardiologista ressalta que dar essa notícia ao paciente não é tarefa fácial. É preciso conhecer muito bem a pessoa. Se o médico avaliar que ela não é competente para entender tal situação e que não tem estrutura psicólogica para isso, talvez o melhor é buscar com a família uma outra saída. O mesmo acontece com um paciente que está em estado terminal em uma UTI. A decisão de levá-lo para morrer em casa não deve ser tomada apenas pelo médico ou pela família, mas em conjunto. Logicamente, se o paciente estiver consciente, ele deve ser consultado.
No entanto, José Eduardo salienta que esta é uma decisão difícil de ser tomada porque envolve sentimentos e princípios muito fortes. O médico é formado para salvar vidas e ele vai tentar isso até o fim porque, para ele, a morte é sempre uma derrota. Esse é um conceito que também precisa ser mudado. O estudante de medicina deve ser preparado para aceitar a perspectiva da morte: quando ela for inevitável, cabe a ele a nobre missão de confortar e consolar o paciente, proporcionando uma morte mais humana possível. Para ilustrar a tese do cardiologista, vale a pena lembrar uma frase de William Shakespeare: Tudo o que nasce, morre... é a natureza.





