A moda olha para o Brasil
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de julho de 2005
Karla Matida<br>Enviada a São Paulo 
A São Paulo Fashion Week iniciou um ano antes as comemorações dos seus 10 anos. O aniversário mesmo é só em julho de 2006, mas o parabéns já começou a ser entoado nesta 19 edição, que terminou na segunda-feira. Nada mais natural, considerando que o evento nasceu para antecipar as novidades e também, sem exageros, mudar os rumos da moda no País. A SPFW motivou a unificação do calendário da cadeia têxtil e a profissionalização de todos os setores. Em quase 10 anos, conseguiu se posicionar entre as cinco semanas de desfiles mais importantes. E já almeja estar entre as quatro.
Cinquenta e um desfiles depois, o balanço é bem positivo para o Verão 2006. Em clima de celebração e retrospectiva, o Brasil surge como a maior inspiração. Nas coleções apresentadas durante a 19 São Paulo Fashion Week, as riquezas do País coloriram as passarelas durante sete dias pontuando as criações. É nessa linha que o apelo artesanal desembarca com toda força, principalmente o crochê, os bordados e as aplicações. O perfume dos anos 1970 segue como referência, emprestando o psicodelismo das estampas e as formas amplas dos vestidos e batas.
Do Nordeste, a bela e trabalhosa renda Renascença aparece nas coleções da Forum e da Cavalera, que aliás, colocou todos os olhos da jovem e criativa equipe de estilistas virados para as riquezas e delícias nordestinas. O desfile encerrou a temporada dando o recado da próxima estação. Verão bem brasileiro. O sertão já tinha sido mostrado com primor nos biquínis e maiôs da Rosa Chá, inspirada no Maracatu (as tendências da moda praia ficam para uma próxima edição da Folha da Sexta, assim como o jeanswear e a moda masculina).
Ronaldo Fraga, que sempre está com um pé no Brasil e outro no mundo dos sonhos e da poesia, desta vez olhou para a própria equipe para homenagear as costureiras que movimentam a indústria da moda brasileira. Não só as que trabalham nas grandes e pequenas confecções, mas também aquelas que trabalham em casa e têm clientela fiel. A delicada coleção toca o coração. Além de emocionar com suas criações, o estilista mineiro destaca as formas de corações, que aparecem em rendas ou como almofadas de alfinetes.
Eleita pelos colegas estilistas como a revelação da nova geração, Isabela Capeto não decepcionou. Assim como nas colagens de Henri Matisse, inspiração-mor da coleção, Isabela brincou com as interferências de tecidos, linhas e medalhinhas de bronze. Aplicações e bordados delicados e coloridos são a marca registrada da estilista, que faz por merecer as honras que vem recebendo.
Osklen e Alexandre Herchcovitch puxaram a fila da nova silhueta, que pede cintura alta no País do cós baixo. Os vestidos seguem a linha império, marcando os seios, mas também brincam com a liberdade dos movimentos nas formas soltas e amplas. A frente-única deixa as costas nuas para os dias quentes. A leveza do tule dá volume às saias bailarina de Fause Haten e volume na linda saia de babados de Gloria Coelho.
O off-white é o branco fashion numa versão não tão hospitalar. É o branco encardido, o bege bem clarinho. É o tom que lidera a cartela de cores que aposta nos tons monocromáticos, mas também não deixa de se jogar nas estampas. É o caso de André Lima, que é pura cor em vestidos esvoaçantes. É colorido mesmo quando em preto-e-branco. Estampa também é assunto sério num desfile bem-humorado da grife convidada Basso & Brooke, que é meio brasileira, meio inglesa.
A Zapping viajou para a Itália, a Cori para o Marrocos, Sommer para a África e Gisele Nasser para dentro de um filme italiano. A bagagem voltou com delícias para o guarda-roupa. Erika Ikezili descobriu a palavra de Deus, mas avisa que não passa pelo fanatismo. Versículos vão parar delicadamente nas faixas que prendem os vestidos. Tudo é referência bem sutil à religião. O tie-dye é a alma manchada, as listras, a alma organizada. No final, o volume marca a alma que transcende. A estilista fala da revelação divina e também surge como uma revelação nas passarelas.
* A jornalista Karla Matida viajou a São Paulo a convite da organização do evento


