A moda em números
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de agosto de 2001
Rosângela Vale 
Seja pela badalação da mídia em torno dos eventos ou pela imagem glamourosa que cerca os profissionais da área, o fato é que a moda vem se tornando uma das opções mais concorridas entre os novos cursos superiores. No último vestibular da Universidade Estadual de Londrina, Estilismo em Moda, que formou a primeira turma no ano passado, teve 18 candidatos por vaga, praticamente a mesma concorrência que o curso noturno de Administração de Empresas.
Conhecer o mercado de trabalho na cidade, portanto, é de fundamental importância para situar os que pretendem ingressar na profissão e também para indicar as diretrizes de ensino. ''Temos que conhecer onde nossos alunos vão atuar e como podemos contribuir para que essa formação seja a mais próxima possível do que as empresas necessitam'', diz a coordenadora do laboratório de Design de Moda da UEL, Cleuza Fornasier, que coordenou uma pesquisa sobre o assunto. Com a denominação ''O estilista na empresa de confecção de Londrina um levantamento sobre o campo profissional'', o trabalho levou dois anos para ser concluído e revelou os números e o comportamento dos potenciais empregadores.
Portas fechadas Os dados não são muito animadores, a começar pela quantidade atual de empresas da área. Apesar de o Sindicato do Vestuário ter o registro de 184 confecções na cidade de Londrina, apenas 97 foram encontradas pelos pesquisadores. ''Isso pode indicar que muitas existem de direito, mas de não fato; fecharam as portas, mas ainda mantêm o registro da empresa'', interpreta Cleuza, revelando que, dessas 97, dez fecharam as portas entre novembro de 2000 e março de 2001. E sete não produzem, apenas revendem. ''Então, em março, quando foi concluída a pesquisa, Londrina contava com 80 confecções'', contabiliza.
Para Cleuza, a falta de mercado não foi o principal motivo do fechamento de tantas empresas. ''Acredito que fecharam por má gestão, falta de investimentos e de preparo de pessoal. Ficaram ultrapassadas. Não tenho dúvida de que a maioria era facção'', analisa. Segundo ela, embora não haja dados anteriores, esse tipo de empresa está diminuindo (a pesquisa detectou que apenas 14% das confeçções locais são faccionistas). ''Isso é muito bom, pois facções são muito perigosas. Se as grandes grifes resolvem deixar de produzir aqui, essas empresas quebram'', observa.
Setor viável A boa notícia é que 63% das confecções londrinenses realizam todo o processo de produção da roupa. ''Isso demonstra que é um setor forte e viável'', diz Cleuza. A maior parte faz roupa feminina (75%) e tem como especialidade o segmento esportivo (28%), seguido pelo esporte fino (27%) e pelo jeans (25%). Ao contrário do que se imaginava, a maioria dessas empresas não é apenas atacadista, mas indústria e comércio (53%). O que faz com que os dados seguintes sejam assustadores: 33% não conhecem a idade de seu público-alvo, 35% não têm idéia da classe social a que esse público pertence e 65% desconhecem a faixa salarial de seus clientes.
''Se não sabem quanto seu público-alvo pode gastar, sempre vão colocar um valor mínimo no produto para abranger mais gente possível. E, com isso, menosprezar todas as formas de melhorar e diferenciar esse produto'', diz Cleuza, mostrando que esses empresários estão na contramão da moda. ''De quantas roupas você precisa para sobreviver? Pouquíssimas. O consumismo tende a desaparecer depois da adolescência e chega uma fase em que as pessoas só compram algo que realmente desperte o desejo. Compram porque querem, não porque precisam'', argumenta. Seguindo esse raciocínio, ter um produto diferenciado é uma questão de sobrevivência.
Importância do estilista O papel do estilista/designer no processo produtivo é um dos pontos centrais da pesquisa. O resultado foi bastante positivo: enquanto 22% das empresas consideram desnecessário e 7%, dispensável, a grande maioria (45%) acha necessário, e 22%, imprescindível. Na prática, entretanto, poucos empregadores contam com esses profissionais na área de criação. Apenas 4% das empresas têm funcionários graduados e 11%, estagiários de cursos de graduação. Funcionários de nível técnico são maioria (44%). A boa surpresa é que 22% contam com profissionais pós-graduados, prova de que o curso de especialização em Moda da UEL, com quatro anos de existência, foi aprovado pelo mercado.
Outra questão levantada pela pesquisa é que as empresas que contratam um estilista não costumam se arrepender: 10% responderam que houve maior reconhecimento da marca pelo público, e para 14% as vendas aumentaram. O grande desafio, segundo Cleuza, é fazer com que o empresariado entenda a função do designer dentro da empresa. ''Temos muito trabalho a fazer, principalmente no que se refere à divulgação da cultura de moda na cidade'', conclui.


