A moda diz Amém
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de novembro de 1998
Rosângela Vale 
O verão ainda nem chegou, mas o inverno já começa a ser uma preocupação dos confeccionistas. Em que tecidos e cores investir? Que modelagens estarão em voga? Para responder a essas questões, a consultora de moda do Senai/Cetiqt do Rio de Janeiro, Marta Feghali, faz palestra hoje, às 20 horas, no Centro de Eventos do Armazém da Moda, em Londrina, depois de passar por Curitiba e Maringá.
Promovido pelo Sindicado das Indústrias do Vestuário do Paraná (Sivepar), Sebrae e Armazém da Moda, o evento conta com apresentação de vídeo, desfile e palestra, toda formatada em CD-rom. Com essa linguagem multimídia, é possível mostrar o triplo das imagens que caberiam em slides , diz Marta, que já esteve na Cidade em abril, apresentando as tendências para este verão. Dessa vez, o pacote de informações está mais condensado, mais rico e mais profissional, observa.
Para mostrar aos empresários em que eles devem apostar a cada estação, Marta viaja para a Europa e Estados Unidos duas vezes por ano. Visita principalmente as feiras de prêt-à-porter, assiste a alguns desfiles e observa atentamente as ruas. Trago todas as idéias, faço uma análise e crio um tema que deve ser muito comercial, e ao mesmo tempo, voltado para os costumes brasileiros, explica.
Estampas de animais estão em alta na tendência Selvagem UrbanoNa última vez em que viajou, os primeiros sintomas indicando o tema deste inverno foram as cores. Vi muito roxo, azuis profundos, tons que lembravam os trajes eclesiásticos. E muitas estampas de ídolos religiosos e místicos, conta. A escolha, portanto, não poderia ser outra: Religiosidade. Estamos chegando ao fim do milênio, as pessoas querem uma explicação para os seus questionamentos. E o povo brasileiro é muito apegado a crenças, justifica.
De acordo com a consultora, as texturas serão a grande vedete da próxima temporada. Vamos trabalhar muito com o conforto, com o toque dos tecidos, que serão suaves, escorregadios, granulados, porosos... É a busca do conforto físico para chegar ao espiritual, analisa. As cores são escuras, como bordô e vermelho, que lembram o sangue das oferendas, azul-noite, cinza austero e preto quase luto. Dourado e prata dão um toque de brilho e luz.
Marta revela que três tendências vão permear a moda no inverno que vem aí: Barroco, com tecidos nobres e silhueta escultural; Gótico, que evoca a simplicidade monástica, onde tudo é muito sóbrio, renegando as formas do corpo, e Selvagem Urbano, que traz estampas de animais em detalhes como bainhas, viés e golas. Infelizmente, voltou-se a usar pele verdadeira, mas faço um apelo aos estilistas brasileiros para usarem a falsa.
Transformando fatos históricos em moda, a consultora aproveita a especificidade do tema para relacionar as tendências ao perfil de três personalidades importantes que morreram ano passado. Lady Di personifica a Selvagem Urbana. Era nobre mas sempre colocava um toque irreverente nas suas roupas. Gianni Versace era o próprio Barroco, sempre trabalhou muito com curvas, arabescos, dourados; e Madre Teresa de Calcutá representa o minimalismo e o despojamento da severidade monástica.
Marta garante que se o confeccionista transferir essas informações para uma boa coleção, associando criatividade à qualidade e bom preço, o sucesso é certo. O importante é não queimar o filme. Muitas vezes, o empresário viaja para o exterior, chega aqui e quer fazer o que viu lá. O povo fashion assimila na hora as novidades, mas a maioria das pessoas não entende, não decodifica as tendências antes do tempo certo, ensina a consultora de moda.


