Rosângela Vale
A moda brasileira vive um de seus melhores momentos. Nomes como Alexandre Herchcovitch, Fause Haten e Ocimar Versolato vêm conquistando destaque internacional. Outros estilistas nacionais se preparam para se apresentar no Carrosel do Louvre, em Paris, no mês de outubro, ao lado dos maiores expoentes da moda mundial. O calendário de eventos nacionais do setor a cada dia engloba mais regiões, como o BarraShopping, que começa domingo no Rio de Janeiro, e o Moda Paraná, que movimentou Maringá na semana passada.
Para o professor de história da indumentária João Braga, 38 anos, esses bons ventos vêm das escolas de moda, que estão profissionalizando a área no País. Carioca, há 15 anos vivendo em São Paulo, ele é dono de um belo currículo: tem cursos de especialização em história da arte pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em história da indumentária pelo Instituto Paulista de Museologia e Escola de Sociologia e Política, e também pela Esmod, em Paris, a mais antiga escola de moda do mundo, com 150 anos. Atualmente, é professor da Faap e do Senac/Esmod, em São Paulo, e prepara um CD-Rom sobre história da moda, abrangendo da pré-história até os dias de hoje. ‘‘Talvez a primeira parte do projeto saia ainda este ano’’, antecipa.
Ele explica que só se pode falar em moda a partir do final da Idade Média. ‘‘Foi quando a Corte, incomodada com os mercantilistas que ganhavam muito dinheiro e a imitavam no modo de vestir, passou a querer se diferenciar, buscando, assim, novidades. Foi nessa época também que os trajes dos homens e das mulheres, que antes eram iguais, começaram a se diferenciar. Por isso, gosto de usar a palavra indumentária, que é mais ampla. Qualquer coisa colocada sobre o corpo, seja com o caráter de adorno, proteção ou pudor é indumentária, mas pode não ser moda’’, esclarece.
João Braga esteve em Maringá semana passada, durante o Moda Paraná, proferindo palestra sobre história da moda no Brasil, e deu a seguinte entrevista à Folha da Sexta:
Folha da Sexta — Qual é a importância da disciplina história da indumentária para a formação do estudante de moda?
João Braga — No processo criativo, a questão da referência histórica é mais do que necessária porque, entre outras coisas, uma das principais características da moda nos anos 80 e 90 é a releitura, que é a própria essência do pós-modernismo, seja na literatura, na arquitetura, na arte, na moda. Faz-se necessário que, em um curso de história da moda, se estude desde a pré-história até a contemporaneidade, para que se passe de uma forma linear por todos os períodos olhando não só as roupas, mas o modo de pensar, de fazer e a tecnologia daquela época.
Folha da Sexta — Moda é arte?
João Braga — Não resta dúvida. Uma das características da arte é a atemporalidade. Você pega uma determinada obra e ela cumpre sua função ainda hoje, tenha 500 ou mil anos. É lógico que a moda é paradoxal quanto a isso porque representa um padrão vigente em um determinado período. Mas não tem como pegar uma roupa de uma determinada cultura ou época — seja de nobres, reis e rainhas ou até de alta-costura atual — e não encarar como obra de arte. Então, moda é arte? Moda também é arte. Alguns encaram como arte menor. Não gosto dessas nomenclaturas, que dão uma certa posição inferior à moda na questão do fazer artístico. Muitos usam o pincel e a tinta, outros usam a pedra e a madeira. Alguns querem usar agulha, linha e tecido. É uma forma de criar volumes, um padrão estético, é uma forma de combinar cores, de expor o sentimento através dessas matérias-primas.
Folha da Sexta — Hoje a moda brasileira está vivendo um boom muito significativo. Como você analisa esse período?
João Braga — Nós sempre fomos influenciados pela Europa e, depois da 2ª Guerra Mundial, pelos Estados Unidos. Moda brasileira é uma coisa muito questionável. Muitas vezes, produzimos dentro de uma visão comercial, nos influenciamos pelo que é lançado na Europa e nos Estados Unidos até por uma questão geográfica. As estações chegam primeiro no hemisfério norte e depois fazemos a adaptação aqui, mas existem manifestações que são tipicamente brasileiras. Posso citar Carmen Miranda, apesar de ela não ser brasileira. Foi ela quem introduziu e superpopularizou o sapato plataforma na moda, quando um criador nacional, que é o Alceu Pena, fez a fantasia dela e a colocou com turbantes, saias e tamancos. Outra coisa interessante: Clóvis Bornay foi quem inventou as unhas postiças. Em uma de suas fantasias, ele usava suporte nas unhas, uma pessoa viu e acabou industrializando, se não me engano foi um americano. E há outras coisas. A questão da moda praia. O Brasil é um ponto de referência no mundo todo. A tanga é invenção nossa, se popularizou para o mundo via Brasil. Hoje em dia, a questão moda é altamente significativa no Brasil em função da comunicação. O mundo virou uma aldeia global. Você acessa um botão aqui e vê um desfile acontecendo do outro lado do mundo. Mas, pessoalmente, acho que o Brasil vive esse boom especialmente pelo academicismo. Os profissionais que antes atuavam na área eram arquitetos, desenhistas industriais, artistas plásticos, pessoas que tinham uma sensibilidade mais apurada. A partir do momento que houve a conscientização do laboratório que a escola proporcionava, a coisa se profissionalizou. E isso é relativamente novo no País, onde as escolas de moda têm apenas 10, 12 anos.
Folha da Sexta — Você classificaria a moda brasileira em antes e depois de Dener?
João Braga — Não resta dúvida que Dener é o nome mais conhecido da moda no Brasil, inclusive no exterior. Mas houve outros nomes. Alceu Pena, que era um excelente ilustrador (fazia as garotas do Alceu, publicado na revista O Cruzeiro) e teve sua projeção anterior a Dener. Tivemos Dona Mena Fiala, na Casa Canadá, no Rio, onde Dener começou sua carreira. Tivemos também, nos anos 80, Conrado Segreto, que foi um nome de projeção nacional, e agora temos Alexandre Herchcovitch.
Folha da Sexta — Já passamos da fase de colonizados na moda?
João Braga — Com certeza. Hoje, no meu ponto de vista, é complicado o Brasil se fixar com uma identidade, de forma universal, porque se tem acesso às informações com muita facilidade. É difícil não receber influências. Mas passar essa identidade não é uma tarefa impossível. Os japoneses fizeram isso em Paris, fizeram moda com uma cara japonesa, trazendo a proposta do zen budismo que a moda chamou de minimalismo. Há algumas coisas que nos caracterizam: a questão dos tecidos de fibra natural, em especial o algodão, carro-chefe do Brasil, um tecido do nosso dia-a-dia que lá fora é um material nobre. O uso das cores é outra característica muito significativa de Brasil, a questão da sensualidade... e isso tem toda uma referência histórica, a nossa índia andava nua, faz parte da nossa cultura. Agora, com as escolas de moda, que podem resgatar todos esses valores, é possível criar uma identidade.
Folha da Sexta — Vivemos hoje uma democracia de estilos, diferente de épocas anteriores marcadas por esta ou aquela moda. Daqui a mil anos vai ser possível olhar uma roupa do final do século XX e identificá-la como tal?
João Braga — Por que não haveria de ser dessa forma, se identificamos o que aconteceu há 1000 anos? Talvez, essa falta de identidade passe a ser uma identidade para a nossa época. Hoje há uma pluralidade considerável de referências. As tribos, apesar de este ser um termo já ultrapassado, continuam aí, só que ao invés de viverem isoladamente, elas estão se juntando. Essa pluralidade de grupos, de estilos, é uma marca de nossos tempos. O que é realmente novo na moda de hoje é a tecnologia muito avançada no fabrico têxtil: descoberta de novas fibras, novas técnicas de elaboração. Atualmente, preza-se por tecidos com determinadas caraterísticas. Há os que ainda estão em fase de experiência no MIT (Massachusettts Institute of Tecnology), que mudam de cor em função do estado de espírito, do humor. Com certeza, daqui a mil anos vai haver essa identidade, pois a referência do passado sempre fica.O professor de história da indumentária João Braga fala sobre identidade e colonização na moda brasileira
Rosângela Vale‘‘Fica difícil o Brasil se fixar com uma identidade porque hoje se tem acesso às informações com muita facilidade. É difícil não receber influências’’, diz João Braga

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